Na madrugada de sábado, 22, morreu o padre Joaquim Cerqueira Gonçalves. Melhor do que “morreu” seria escrever “morreu-nos”, pois ele era amigo de uma multidão de pessoas que por vários motivos e em várias circunstâncias com ele conviveram, quer no âmbito universitário quer em actividades de carácter religioso e cultural, animando sempre o público com as suas intervenções e problemas. Nas suas aulas havia tempo para o diálogo e o questionamento. Porque o padre Cerqueira gostava de debates e apreciava a contestação, desde que esta fosse oportuna e se mantivesse no terreno da filosofia.

Joaquim Cerqueira Gonçalves, “para além da sua sabedoria, a sua grande abertura à novidade, o seu desejo de transformar instituições e cursos, a sua vontade de levar a filosofia a campos e a situações onde não era habitual praticá-la.” Foto: DR
No que me diz respeito tive contacto estreito com ele, quer como aluna da Faculdade de Letras, quer posteriormente, na mesma instituição, como colega do Departamento de Filosofia. E em todas as situações pude constatar, para além da sua sabedoria, a sua grande abertura à novidade, o seu desejo de transformar instituições e cursos, a sua vontade de levar a filosofia a campos e a situações onde não era habitual praticá-la. Por ele o Departamento de Filosofia teve relações estreitas com as escolas do Ensino Secundário, passando os professores do liceu (como eram então chamados) a realizar a sua formação pedagógica em cursos bianuais, sendo o seu trabalho nas escolas avaliado por docentes da FLUL [Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa].
A primeira surpresa que com ele tive – e foram muitas ao longo dos anos – ocorreu como aluna da cadeira de Filosofia Medieval onde, diferentemente dos seus colegas, ele interpelava os alunos, convidando-os a intervir, a inventar questões e a animar as aulas com problemas que levantavam. O habitual silêncio nas aulas ex cátedra a que estávamos habituados, era interrompido com o constante desafio ao público ouvinte para que este se pronunciasse de modo a estabelecer diálogo, quer entre docente e discentes, quer entre os próprios alunos que eram convidados não só a colocar as suas dúvidas como a manifestar opiniões. Nunca ninguém se aborrecia nas aulas de Medieval e a participação activa (obviamente quando oportuna e ponderada) era cultivada e avaliada positivamente.
Para além dos seus interesses de carácter filosófico, o professor Cerqueira Gonçalves também se preocupou com o bem-estar dos docentes que habitualmente se encontravam de um modo apressado, a correr, nos corredores ou no bar. E fomentou a existência de uma sala no Departamento de Filosofia, um espaço agradável, recheados de livros e de posters alusivos às conferências feitas por todos nós. Aí podíamos conversar, trocar opiniões e combinar actividades, o que levou a criar muitas amizades entre os colegas e entre estes e as empregadas que nos auxiliavam em serviços burocráticos. Ainda hoje recordo com saudade a Filomena, a Mena, a D. Júlia. E fiquei triste quando numa deslocação recente ao Departamento verifiquei que nada disso já existia, pois todo o espaço fora aproveitado como arquivo, havendo uma única pessoa (aliás muito simpática e eficiente) para nos atender.
Mas o clima de encontro presumo que se perdeu tal como existia, ou pelo menos mudou, transferindo-se para o bar ou para os corredores. Talvez se tenha mudado para o Centro de Filosofia, algo também criado pelo padre Cerqueira com a colaboração da maioria dos seus colegas.

“Mas o clima de encontro presumo que se perdeu tal como existia, ou pelo menos mudou, transferindo-se para o bar ou para os corredores.” Foto: Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. © FLUL
Depois de aposentado, e já bastante doente, continuava a apreciar muito as nossas visitas, agora feitas no Convento dos Franciscanos na Luz. Sempre que o tempo estava bom recebia-nos no jardim e eram momentos de encontro onde se falava de tudo. Nós trazíamos-lhe as novidades do Departamento de Filosofia, os episódios das nossas vidas, as novidades familiares que ele acompanhava sempre com interesse – lembro-me dos parabéns efusivos que me deu quando lhe participei que já era bisavó, espantando-se dessa ocorrência, lembrando-lhe eu que o tempo passa para todos. Curiosamente descobri nessa altura que também se interessava pelo desporto e que era sportinguista, coisa que nunca me passara pela cabeça, pois via-o sempre no mundo dos filósofos e dos santos.
Foi realmente uma personagem marcante na minha vida, alguém que nunca esquecerei como testemunho da aliança possível entre inteligência, coragem, generosidade e alegria. E penso que esta lembrança será comum à maioria dos seus muitos amigos que comigo hoje partilham o desgosto da sua morte.
Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática (aposentada) de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa










