É incontestável que desde que nascemos iniciamos um processo de envelhecimento, pois cada dia avançamos em anos e embora só tarde na vida comecemos a ser considerados velhos, e tratados como tal, o facto é que, como diz o povo, “a idade não perdoa”. Chegados a uma dada altura somos mais atreitos ao cansaço, a esquecimentos e a múltiplas doenças que nos enfraquecem, quer física quer psiquicamente. Ora tudo isso ocorre com mais frequência na velhice.
Presentemente ando a ler a carta encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas. O subtítulo do texto é “Sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da Inteligência Artificial” e, de facto, é um livro que poderá ser um consolo e um guia especial para as pessoas que não nasceram na época da internet e ainda estão habituadas a usar o lápis ou a caneta para escrever os seus textos. No meu caso, uso o primeiro para sublinhar livros, que insisto em ler em suporte de papel, e devo confessar que tenho saudades daqueles muitos que li em que algumas páginas vinham ainda fechadas e era preciso usar uma faca para os abrir. E de tal modo apreciava essa actividade que iniciei uma colecção de abridores de livros, que guardo religiosamente no meu escritório.

“No meu caso, uso o primeiro para sublinhar livros, que insisto em ler em suporte de papel, e devo confessar que tenho saudades daqueles muitos que li em que algumas páginas vinham ainda fechadas e era preciso usar uma faca para os abrir.” Foto @ Blog Paranoias de mãe
Atento às diferentes revoluções que ao longo dos tempos têm alterado o nosso modus vivendi e que inegavelmente têm facilitado o nosso quotidiano, o Papa Leão, nesta Encíclica, tem consciência de que vivemos uma época revolucionária e que ela deve ser encarada com cuidado, pois corremos o risco de sobrevalorizar a máquina e secundarizar o humano, tratando-o por vezes como que se este fosse uma entidade robótica que nos leva à automatização em muitas zonas da nossa vida. E alerta-nos para o facto de que, embora apreciemos a inteligência artificial e todas as facilidades por ela trazidas, nunca deveremos esquecer que o pensamento humano é sempre superior ao de uma máquina, por mais rigorosa que esta seja.
Tocou-me particularmente a introdução feita por Antonio Spadaro [na edição da Paulinas Editora], na qual tomei mais uma vez consciência de que os idosos são limitados quanto ao uso da inteligência artificial. Quando penso que os meus bisnetos (com sete e cinco anos) são muito mais ágeis do que eu no manuseamento de telemóveis, sinto-me por um lado orgulhosa, mas simultaneamente preocupada, pois penso que recorrem pouco aos livros sendo estes os presentes que lhes dou mais frequentemente. E, para minha surpresa, embora só o mais velho saiba ler, os dois gostam de ouvir as histórias, de manusear as folhas, de olhar para os desenhos. Não me esqueço, no entanto, da reacção que tiveram quando lhes comecei a dar livros – esfregavam os dedos em cima das imagens, à espera de que algo acontecesse. Foram, no entanto, percebendo que há outros modos de ler que não o telemóvel e o computador. E agora que já andam na escola começam a gostar de recorrer ao papel, o que é um consolo para mim, pois ao longo da vida fui constituindo uma biblioteca de 16.000 livros, distribuídos pela casa de Lisboa e pela casa de férias. Muitas vezes penso o que farão os meus descendentes de toda esta herança livresca. Daí o meu presente interesse em encontrar bibliotecas que os possam acolher e apreciar.
Como nota anedótica relato um episódio que aconteceu quando um colega me visitou e me perguntou qual o critério seguido na organização da minha biblioteca. Lá lhe expliquei e depois mostrei-lhe uma estante onde guardava os volumes que considerava mais fracos e pouco interessantes. Para meu pavor, ele verificou que entre eles se encontrava uma obra sua.
Com medo que este episódio se pudesse repetir, nunca mais expliquei a ninguém os critérios seguidos para ordenar a minha biblioteca.
Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática de Filosofia (aposentada) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
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