Neste período que para muitos é de férias, convidamos os leitores e colaboradores do 7MARGENS a escrever sobre uma música, um livro, um disco, um filme ou uma obra de arte que tenha marcado, de forma especial, um dos seus verões.
Publicamos a seguir o oitavo texto dessa rubrica, que intitulamos “Trago comigo”, remetendo para a ideia de alguma coisa pessoalmente significativa que cada qual guarda na sua memória.
O livro que realmente me marcou, o único que me foi oferecido na minha adolescência, foi a biografia de Maria Sklodowska-Curie, uma mulher referida na encíclica papal de Leão XIV, Magnifica Humanitas, como uma das grandes humanistas da História.
Maria Sklodowska nasceu na Polónia, numa família pobre e num País dominado pela União Soviética, enquanto criança inteligente era desde muito pequenina, chamada para responder aos inspectores russos, uma vez que a professora transmitia cultura polaca às crianças, às escondidas. O maior castigo que os inspectores aplicavam a Maria era mandá-la rezar em russo. Quando saíam, surgia o choro e o abraço da professora ao seu anjo, a mínima e magoada Mânia. Graças ao seu esforço e da família, conseguiram algumas moedas para ela viajar para Paris. Trabalhou, estudou, casou com Pierre Curie, tiveram duas filhas, fez a vida doméstica e num laboratório improvisado a partir de um incómodo armazém, “um barracão”, o casal conseguiu uma das maiores descobertas da ciência moderna – a radioactividade.

Biografia de Maria Sklodowska-Curie escrita pela sua filha Eva Curie (Livros do Brasil). Na capa, a ilustração relativa ao casal com as bicicletas para atravessar os campos, em lua de mel.
Só aos 37 anos foi possível abandonar o barracão, sendo Maria nomeada para trabalhar na Sorbonne (Paris), e posteriormente encarregada de dirigir o curso que o marido tinha iniciado. Pela primeira vez, falou na Sorbonne uma mulher genial, viúva desesperada, que calma e competentemente, prosseguiu o ensino. Maria Sklodowska-Curie obteve dois prémios Nobel em áreas distintas, tendo a sua família conseguido cinco prémios Nobel (com marido, filha e genro). Foi a primeira mulher a ser laureada com este Prémio.
Em 1914, rebenta a Grande Guerra e ela, indiferente ao desconforto, começou a viver como qualquer soldado, dirigiu os Serviços de Radiologia, usou automóveis militares, acumulou dezenas de missões especiais da União das Mulheres de França e decidiu até fundir as suas medalhas científicas para auxílio monetário. O seu trabalho de precisão com os Raios X e o facto do encontro das balas no ponto exacto onde a radioscopia as mostrava, revelava o seu religioso respeito pela vida humana e levava-a a não vacilar perante o mais árduo trabalho.
Em paz, escreveu ao irmão: “E assim, nós, “’nascidos na servidão, encadeados desde o berço’ (Messire Thadeu), assistimos à tão sonhada ressurreição das nossas terras.”
Voltou ao seu trabalho laboratorial, docente, de mãe, de avó, e embora universalmente homenageada, manteve a sua postura tímida. A caminho da homenagem na América pensava tranquilamente, no jardim em que tinha passado horas de paz, no oceano azul e suave que tanto amava, nas crianças que aguardava, na nova geração e depois muitas outras – “filhos dos nossos filhos” .

Em Marie Curie e Suas Filhas, Claudine Monteil entrelaça a ciência com a história e a vida pessoal, num livro sobre três mulheres extraordinárias, inspiradoras e à frente de seu tempo: Maria, Irene e Eva.
Hoje, dou comigo a reflectir sobre o bem e o mal da radioactividade, lembrando as palavras de Pierre à Academia de Ciências em Estocolmo, em 1905: “Pode-se conceber que em mãos criminosas o rádio possa tornar-se muito perigoso… Eu sou daqueles que pensam como Nobel, que a Humanidade tirará mais bem do que mal de novas descobertas.”
Claro que são incomensuráveis os benefícios da radioactividade: na medicina, radioterapia no cancro e largo uso das radiações como meios auxiliares de diagnóstico; na indústria e na engenharia; na agricultura e alimentação; na contribuição para o conhecimento da história da Terra e das culturas humanas entre outras aplicações.
Mas quanto aos efeitos nocivos para a Humanidade:
- Os devidos às bombas de Hiroshima e Nagasaki persistem e muitas pessoas ainda sofrem e morrem de doenças malignas entre outras, induzidas pela radiação;
- No Casaquistão , de 1949 a 1989, por exemplo, o Campo de Testes de Semipalatinsk fez parte do programa nuclear da União Soviética – tendo sido detonadas pelo menos 456 bombas, o que levou a mortalidade infantil, doença da tiroideia e cancro;
- Durante a Guerra Fria, União Soviética, Estados Unidos, França e Reino Unido realizaram testes nucleares em múltiplas áreas da Terra;
- Menciono também assassinatos, entre os quais, foi muito bem documentado, o de Alexander Litvinenko que foi envenenado com polônio-210 em 2006;
- Entre outros, não esqueço os acidentes: terramoto e tsunami em Fukushima 2011; Chernobyl 1986.
Termino, portanto, afirmando que o balanço entre benefícios e efeitos nocivos da radiação é muito tenso e obriga a profunda reflexão, na actualidade em que “Estamos no meio de uma corrida armamentista acelerada” como disse David Gross, Nobel de Física, citado no 7MARGENS em 16/07/2026.
Maria Aldina Brás, trabalhadora rural na infância e adolescência, geneticista médica e professora aposentada da UNL. Autora de dois curtos E-books/PODs editados pela SPA: Vida e Philia. Autora/coautora de múltiplos artigos científicos cf. ResearchGate e novaresearch.unl.pt . Católica, mãe e avó.










