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Padre Rema fotografado no jardim do Seminário da Luz. Foto Clara Raimundo
O padre Henrique Rema no jardim do Convento da Luz, onde continua a gostar de dar os seus passeios. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS

Padre Henrique Rema

Caminhar, rezar, comer pouco e ser otimista: os segredos de um franciscano para chegar aos 100 anos

| 22/09/2026

Historiador, tradutor, professor, filatelista, padre… A enumeração poderia continuar por algumas linhas, ou não estivéssemos a falar de Henrique Pinto Rema, o frade franciscano que completa esta quarta-feira, 23 de setembro, nada mais nada menos do que 100 anos de uma vida cheia. Ao longo de mais de sete décadas na Ordem, passou pelas missões da Guiné-Bissau, ensinou línguas e filosofia, estudou a história da missionação, traduziu a obra completa de Santo António e integrou a Academia Portuguesa da História. Neste dia em que celebra o seu centenário, os irmãos franciscanos oferecem-lhe Os Caminhos de Deus e os Caminhos dos Homens, um presente em forma de livro que reúne as memórias que foi escrevendo ao longo dos anos e que, além de darem conta do seu percurso pessoal, conservam informação documental única sobre a Ordem Franciscana, a Igreja e a sociedade. Antecipando o aniversário, fomos ao seu encontro no Convento da Luz, em Lisboa, onde vive desde fevereiro de 2022, data em que, depois de tantos trabalhos e andanças, decidiu que era chegada a altura de recolher à enfermaria provincial. Mas nem por isso o encontrámos a descansar. Continua igual a si mesmo: irrequieto, curioso, cheio de histórias para contar… e otimista em relação ao futuro.

O dia amanheceu mais quente que o habitual para a época, mas o claustro do Convento da Luz conserva bem o fresco e é ali que o padre Rema – assim o tratam os que lhe são próximos – nos recebe, sorridente e sem mostras de calor no seu comprido hábito castanho. Chega pelo próprio pé, com a bengala de um lado, e do outro o braço dado ao frei Mário Cardoso, enfermeiro que diariamente acompanha e presta o apoio necessário aos irmãos que residem na enfermaria que ocupa uma das alas do edifício.

Já ouve com dificuldade e nem sempre consegue fazer-se entender à primeira, quando fala. A visão, muito gasta depois de décadas de leitura e investigação, impede-o de ler como antes. Mas a cabeça continua a fervilhar de nomes, histórias, episódios da Guiné, memórias da vida franciscana e ideias que lhe ficaram de um século. E é notório o gosto que tem ao partilhá-las, mesmo antes de lhe fazermos qualquer pergunta.

“É que eu sou um académico”, justifica, meio a brincar, meio a sério, para logo a seguir contar como surgiu a sua ligação aos Franciscanos. Nascido em São Romão de Aregos, no concelho de Resende, Henrique Rema foi o sétimo filho de José Pinto Rema e Albina de Jesus. O pai “era o regedor da localidade, uma pessoa importante” e a mãe era analfabeta, mas “sabia sempre tudo o que se passava, tinha uma excelente memória e grande sentido prático”, recorda com orgulho. “Éramos uma família crente, muito humilde, que vivia do trabalho da terra, e para os meus pais um filho ir para padre era uma forma de poder estudar e também uma grande honra”, explica.

Foi por isso que, aos 12 anos, e mesmo sem saber bem qual seria a sua vocação, ingressou no Colégio Franciscano de Montariol, em Braga. Gostou tanto da experiência que, cinco anos depois, vestiu sem hesitar o hábito franciscano e fez o noviciado no Convento de Varatojo, em Torres Vedras. Depois de estudar Filosofia em Montariol e Teologia no Seminário da Luz, em Lisboa, foi ordenado padre a 23 de julho de 1950, pelo bispo Rafael Maria da Assunção.

A partir daí, a vida do padre Rema tornou-se uma sucessão de livros, aulas, arquivos, viagens e responsabilidades na Ordem Franciscana.

 

Da Guiné aos arquivos

O padre Rema assina o livro de memórias que os irmãos Franciscanos editaram pelo seu aniversário. Foto © Clara

O padre Rema assina o livro de memórias que os irmãos Franciscanos editaram pelo seu aniversário. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS

Entre 1965 e 1974, Henrique Pinto Rema esteve na Guiné-Bissau, ao serviço da Prefeitura Apostólica, onde ensinou Religião e Moral, Latim, Grego, Filosofia e Português no liceu. Mas foram também anos de viagens e contacto com diferentes comunidades: “Corri a Guiné inteira, de barco”, recorda.

Dessa experiência nasceu também uma parte importante da sua obra como historiador. Estudou a presença missionária na então Guiné Portuguesa e publicou primeiro no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa e depois, em 1982, em livro, a História das Missões Católicas da Guiné.

De regresso a Portugal, entre 1974 e 1992, foi cronista das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras, trabalho que o levou durante anos a passar longas horas na Torre do Tombo, na Cúria Geral dos Franciscanos e a visitar diversas casas religiosas.

Mais tarde dedicou-se também a escrever a história da Província Franciscana dos Santos Mártires de Marrocos, trabalho que resultou numa Crónica da Província dos Santos Mártires de Marrocos, em cinco volumes e 4366 páginas A4, que permanece inédita.

Não admira, portanto, que tenha sido eleito membro correspondente da Academia Portuguesa da História. A sua primeira comunicação, publicada nos Anais da instituição, tinha 73 páginas e foi dedicada ao liberalismo e à restauração da Província Franciscana de Portugal.

Depois, ao longo dos anos, recebeu outras distinções, entre elas o Prémio Francisco da Gama Caeiro e a Medalha de Ouro do Município de Resende. Em 2018, foi feito Comendador da Ordem do Infante D. Henrique, uma distinção que, revela, quase se recusou a receber, por entender que não tinha feito nada de extraordinário para a merecer.

 

Entre São Francisco e Santo António

O padre Rema no claustro do Convento da Luz, onde decorreu a conversa. Foto O padre Rema assina o livro de memórias que os irmãos Franciscanos editaram pelo seu aniversário. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS

O padre Rema no claustro do Convento da Luz, onde decorreu a conversa. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS

Mas fez. E outra prova disso – porventura a mais significativa – é o facto de ter dedicado décadas ao estudo de Santo António, cuja obra completa traduziu, pela primeira vez, do latim para português.

Trabalho esse que nasceu de uma profunda experiência de superação física e espiritual: em janeiro de 1953, uma sucessão de hemorragias pulmonares deixou-o “às portas da morte” e obrigou-o a um longo período de convalescença na Casa de Saúde da Boavista, no Porto, para onde foi enviado para recuperar. Foi aí que começou a tradução das Obras Completas de Santo António de Lisboa.

Mas não se ficou pela tradução. Ao longo dos anos, Rema publicou numerosos artigos e estudos sobre Santo António, tornando-se uma voz incontornável dos estudos antonianos. Hoje, continua a falar dele com o entusiasmo de quem não olha para o passado como coisa morta, mas como matéria ainda capaz de interpelar o presente.

O seu amor por Santo António não ofusca, no entanto, a admiração que sente por São Francisco. E quando lhe pedimos que defina aquele que fundou a Ordem à qual pertence, não hesita: “São Francisco era um pobre!”. E de imediato acrescenta: “A pobreza é a riqueza… Portanto, os pobres é que enriquecem o mundo”.

A propósito desta definição, vem-lhe à memória um episódio que reflete as antigas rivalidades entre a Ordem dos Frades Menores (Franciscanos) e a Companhia de Jesus (Jesuítas). “Um dia, um jesuíta chamou-me de ‘broeiro’… Dizia que não entendia como é que um broeiro como eu podia ser um académico reconhecido!”. Longe de se sentir ofendido, o franciscano adotou o insulto como uma medalha de honra: “Broeiro vem de broa. Antigamente, quem comia pão de trigo eram os mais ricos. Quem comia broa eram os mais pobres. Ora, eu sou um broeiro chamado pelos Jesuítas… E gosto de ser um broeiro. Tenho orgulho em ser um broeiro. Eu sou pobre”, insiste.

Porque, para o padre e historiador, a alegria maior está na simplicidade de “não possuir nada e partilhar tudo”, tal como São Francisco.

 

“Penso no meu futuro”

Padre Rema Foto © Clara Raimundo/7MARGENS

No jardim do Convento, o padre Rema conta-nos que pensa muitas vezes na morte… com otimismo. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS

“Será essa simplicidade o segredo da sua longevidade?”, questionamos. O padre Rema começa por tirar o mérito a si próprio: “Deus é que sabe.” Mas, logo depois, vai arriscando algumas explicações. E a primeira passa pelo exercício físico. Durante muitos anos, caminhou quilómetros e quilómetros, e gostava de contar as distâncias percorridas. “Descansava andando”, diz, acrescentando: “As pernas cansavam-se, mas a cabeça descansava”.

Outro dos fatores importantes é a alimentação, considera. “Não como carne, nem peixe, nem doces… Não gosto! Mas como muita fruta e legumes”, diz, revelando que os presentes que mais gosta de receber – e que muitos amigos lhe vão levando ao Convento – são cestos de fruta da época.

Depois, há também a oração. Apesar de a vista cansada já não permitir as longas jornadas de escrita e de leitura de outrora, o frade continua fiel ao seu Breviário, lendo as orações litúrgicas correspondentes a cada dia, ora em português, ora recorrendo à memória do latim que domina como se fosse a sua língua materna. “Procuro rezar com muita atenção. Peço ao Senhor que me mantenha sempre na ordem, para continuar a cuidar das minhas relações com Deus e com o próximo”.

“O importante é termos paz de espírito”, afirma. E, para isso, às vezes também é preciso “não ouvir os outros” e escutar mais “a voz de Deus”.

E como encarar a morte? Já no jardim do Convento, um dos lugares onde continua a dar curtos passeios, o padre Rema conta-nos que pensa muitas vezes nela. “À noite, quando me deito, penso no meu futuro. Penso em como é que irei encontrar o meu pai, a minha mãe, os meus tios, os meus amigos… Penso que estão todos no céu!”. Questionado sobre a existência do Inferno, o franciscano diz, bem-humorado: “Deus é que sabe… Da minha parte, procuro portar-me o melhor possível!”. E remata: “Eu sou um otimista! Acho que também é por isso que ainda estou aqui… E a morte, a morte é a vida sem fim”.

 

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