A Bíblia de Frederico Lourenço adaptada a jovens, a história de 1400 anos das relações entre judeus e muçulmanos, um ensaio sobre o Cântico das Criaturas como Cântico da Terra, textos de não-ficção de Flannery O’Connor, uma antologia do “herege” Savonarola, ou a autobiografia de Thomas Merton, A Montanha dos Sete Patamares. Estes são alguns dos títulos que, no âmbito religioso, da espiritualidade ou das questões sociais, várias editoras publicam neste período até ao Natal.
A lista é grande e promete. Richard Zimler escreveu O Voo dos Anjos Caídos, cujo primeiro volume, A Beleza das Coisas Imperfeitas, está já nas livrarias (o segundo, No Abismo das Ilusões, será posto à venda ainda neste mês, e O Último Golpe de Asa, o terceiro volume, sairá em Novembro). Com esta obra em três partes, diz a Porto Editora, o autor pretende tratar alguns temas “inquietantes da actualidade: o combate ao fanatismo religioso, a perseguição aos que são diferentes e a ameaça de uma nova ordem mundial”.
Já em obras como O Último Cabalista de Lisboa ou A Aldeia das Almas Desaparecidas (2022-23, em duas partes) as questões dos fundamentalismos e das diferenças estavam no centro da narrativa de Zimler, norte-americano que vive no Porto desde 1990 e tem nacionalidade portuguesa desde 2002.
Religião e ciência: diálogos e confrontos
Três ensaios que cruzam a religião com a filosofia e a ciência estão já disponíveis: Se Deus é a Resposta, Qual é a Pergunta?, de Christopher Insole, é um deles. “Podemos discutir sobre Deus para sempre, sem nunca mudarmos de opinião”, sobre essa questão, diz ao 7MARGENS Guilhermina Gomes, editora da Temas e Debates, que diz que a obra nos leva sempre à filosofia. “Um livro luminoso e acessível, marcado por uma tremenda clareza intelectual”, comentou o antigo arcebispo anglicano de Cantuária (2002-2012), Rowan Williams, que o definiu como “um excelente contributo para a nova vaga de pensamento inovador sobre fé e filosofia.”
Deus e a Ciência – Diálogos para a Salvação do Mundo, de Carlos Fiolhais (Dom Quixote), parte de perguntas como “Será a ciência capaz de dizer a última palavra sobre Deus? E fará sentido procurar Deus nas equações, no ADN, no Big Bang ou nas partículas elementares?” Na obra, Fiolhais “analisa disputas religiosas na história da ciência e o papel da Igreja na história da ciência em Portugal, da revolução científica do padre António Vieira ao Papa português, passando pela expulsão dos jesuítas até ao ‘milagre do sol’.”
Na Frente e Verso, editorial dos jesuítas, um ensaio do padre e exegeta bíblico italiano Rocco Malatacca propõe que a Bíblia (judaica e cristã) tem “uma relação muito mais profunda” do que se pode pensar com a inteligência humana e com a artificial. Tu Falas Como Eu – a Sagrada Escritura é Uma Inteligência Artificial é o título que pretende trazer à luz “o modo de constituição das Escrituras hebraicas, que reflectem o modo judaico de viver centrado na palavra”, evocando ainda filmes icónicos de ficção científica – Matrix, Avatar, Her – que antecipam os problemas levantados pelos modelos generativos de inteligência artificial e mostram como estes temas “ocupam desde há décadas o imaginário” colectivo.
A Economia do Bem Comum – Uma nova bússola, da economista Mariana Mazzucato, está também na lista da Temas e Debates, para falar de outra ciência: “Um repensar rigoroso da economia e um manifesto para uma economia futura que sirva as pessoas e o planeta, que não poderia ser mais oportuno”, diz Guilhermina Gomes.
Noutra área, é ainda da Temas e Debates o título Filhos de Abraão – A história de 1400 anos das relações entre judeus e muçulmanos, de Marc David Baer. “Um retrato mais equilibrado das relações entre muçulmanos e judeus”, desde Maomé e os árabes judeus no século VII, às lutas comuns após a “Reconquista” ibérica e ao conflito moderno que ainda hoje se vive no Médio Oriente, descreve a editora. Uma análise “oportuna e indispensável” das ligações entre duas comunidades cujas relações continuarão a moldar a política global nas próximas décadas.
Também este mês, a Pergaminho publicará O Cântico da Terra, um ensaio de Stefano Mancuso, que surge como “um sentido convite para repensarmos o nosso lugar no mundo, entre amor, cuidado e sobriedade”, diz a editora, Joana Neves. “É fácil esquecer o que a ciência tem de poético, e vice-versa, sobretudo no que respeita às ciências da vida.” Neste livro, surgido no ano em que se completam 800 anos da morte de Francisco de Assis, o neurobiólogo italiano “pede emprestado o Cântico das Criaturas para que o laudato si’ soe aos nossos ouvidos contemporâneos em toda a sua imensidão, revelando os laços de interrelação que nos ligam a todos os seres vivos”.
(Auto)biografias, fé e espiritualidade
“Uma das grandes autobiografias espirituais da tradição cristã” é como a Paulinas Editora descreve A Montanha dos Sete Patamares, de Thomas Merton. A edição portuguesa inclui uma apresentação de Cristina Inogés Sanz, teóloga e colaboradora do 7MARGENS. Foi este livro que fez de Thomas Merton um escritor reconhecido, poucos anos depois de ter entrado na abadia trapista de Getsémani. Há já vários títulos de Merton publicados e disponíveis em Portugal (e também um ensaio de Cristina Inogés sobre ele), mas este título, considerado a porta de entrada no universo espiritual e literário de Merton, continuava inacessível.
Tal como Girolamo Savonarola: moralista louco para alguns, reformador inspirado para outros, figura incontornável da Florença quinhentista e membro da Ordem dos Pregadores (dominicanos), a Paulinas publicará uma antologia dos seus Sermões, Escritos Políticos e Elementos do Processo, traduzidos pelo dominicano José Luís Monteiro. Uma extensa introdução e vários apêndices completam a obra de alguém entre “a sua fogueira das vaidades” e o final trágico na forca e na fogueira”, nesta primeira edição em Portugal.
Flannery O’Connor, uma das grandes autoras de ficção dos Estados Unidos no século XX, católica, tem várias obras de contos publicadas em Portugal. O novo Mistérios & Costumes, antologia póstuma a publicar também pela Paulinas, reúne textos de não ficção da contista, incluindo vários em que O’Connor reflecte sobre a relação entre o seu ofício como escritora e a sua fé.
Merton e Flannery serão os primeiros títulos da segunda série da Biblioteca Indispensável, colecção iniciada há alguns anos pela Paulinas (onde foram publicados, por exemplo, o clássico Os Noivos, de Alessandro Manzoni, ou Os Portais do Mistério da Segunda Virtude, o longo poema de Charles Péguy sobre a esperança). A editora prepara ainda uma nova edição de Homem e Mulher os Criou, as catequeses sobre a teologia do corpo, do Papa João Paulo II, que tinha sido publicada em 2013 pela Aletheia, mas surge agora revista, ampliada e arrumada tematicamente, e incluirá um glossário e bibliografia.
Casmurrices, cães que falam, o deserto e o céu
Voltando à ficção literária, a Bertrand irá publicar Dom Casmurro, de Machado de Assis: “Um romance psicológico, de enorme actualidade, em torno dos sentimentos que o ciúme pode desencadear e da impossibilidade de conhecer inteiramente a verdade quando estamos sob a sua influência”, diz o editor Eduardo Boavida sobre este “grande romance” que conta a história de Bento Santiago, o Dom Casmurro, que troca o seminário pela sua paixão de infância e se confronta com dúvidas sobre a fidelidade da sua mulher, a lealdade do melhor amigo e o sangue do próprio filho.
História de um Cão que Fala de Deus será publicado neste mês de Outubro pela Pergaminho. A autora, Marta Monfrinotti, escreve um “breve livro de reflexão e memória” no qual conta “como a convivência com Ruth, uma cadela adoptada, lhe ensinou lições preciosas sobre a fé, a esperança e o amor”, descreve Joana Neves, responsável da editora. “Uma caminhada feita a duas e a quatro patas” que se transforma “numa jornada espiritual”.
Na Gradiva, está disponível desde há dias o clássico de Antoine de Saint-Exupéry, Terra dos Homens, numa edição enriquecida pelas ilustrações de Riad Sattouf, o franco-sírio autor de O Árabe do Futuro, que recebeu já vários prémios internacionais. Em Terra dos Homens, o autor de O Principezinho faz uma reflexão sobre o sentido da vida, a solidariedade, a fraternidade, a superação dos limites e a aventura, partindo de alguns dos lugares da vida de Saint-Exupéry: o deserto, os voos solitários, o céu, as tempestades…
A tristeza de Ovídio, os sonhos de Borges e a Bíblia para jovens
Por último, mas não menos importantes, a Quetzal publica outros três clássicos: os Cantos de Tristeza, de Ovídio, já estão disponíveis desde há dias. Condenado ao exílio de Roma aos 51 anos, esse acontecimento acabaria por determinar o nascimento de uma “poética do exílio”. O primeiro conjunto de poemas tem por título Tristia, nesta edição traduzido por Cantos de Tristeza, e reúne cartas endereçadas aos amigos, à esposa e ao imperador Augusto.
O Livro dos Sonhos, de Jorge Luis Borges, “abarca os sonhos da noite – os que eu assino, por exemplo –, os sonhos do dia, que são um exercício voluntário da nossa mente, e outros de raízes perdidas”, como dizia o próprio Borges apresentando este “curioso e quase monumental Livro dos Sonhos”, refere a editora na apresentação. A publicar no próximo mês, esta obra do escritor argentino “apresenta narrativas de épocas específicas e documenta o que a Humanidade sonhou desde que o mundo é mundo”: as primeiras civilizações, os “transes proféticos do Antigo Testamento”, a Odisseia, a Eneida, Platão, as poesias latina e chinesa, Eça de Queirós, W. B. Yeats ou Kafka, entre outros.
A Bíblia Adaptada para Jovens, segundo a tradução de Frederico Lourenço, será outra das obras que a Quetzal prepara, precisamente quando Frederico Lourenço está a terminar a publicação da sua tradução da Bíblia dos Septuaginta, também na Quetzal (falta apenas o tomo 2 do volume V). “Começando em Génesis e terminando em Apocalipse, o grandioso arco narrativo da Bíblia reúne histórias empolgantes que interpretam a história da humanidade e descrevem a relação do ser humano com Deus”, descreve a nota da editora. “Esta adaptação sintética da Bíblia propõe uma viagem coerente pelo Antigo Testamento, desde Adão e Eva” ao profeta Daniel, que intuiu a vinda do “Filho do Homem”, depois narrada no Novo Testamento, incluindo uma “galeria de personagens apaixonantes do Antigo Testamento, assim como os episódios mais célebres das vidas de Jesus Cristo e de São Paulo”.










