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Missão aMar, paroquia da Ericeira em Porto Belo. Foto DR
“A missão é simples: amar, ajudar, cuidar e espalhar sorrisos por onde passamos." Foto: Direitos reservados

[Testemunho]

Missão aMar em Porto Belo: agindo Deus, quem impedirá?

| 06/11/2026

Vale a pena começar por recordar a história: em 1818, o rei D. João VI, residindo com a Corte no Rio de Janeiro, no Brasil, após as invasões francesas em Portugal, deu ordem régia para que um conjunto de famílias do então Município da Ericeira, compostas de pescadores, ferreiros, artesãos, entre outros ofícios, acompanhados por um sacerdote, atravessassem o Oceano Atlântico para chegar a uma bela terra costeira, rica de peixe e ainda relativamente pouco povoada. Assim, incumbidos dessa missão, cerca de 100 “jagozes” ou “ericeiros” foram corajosamente para a Enseada das Garoupas, numa longa viagem de barco enfrentando perigos vários.

Nessa travessia atlântica, de cerca de três meses, acumulavam sonhos. Iam movidos pela vontade de pescar e ensinar a pescar, de povoar aquela bela terra, de servir e amar. Ao chegarem, sem esquecerem as suas raízes, a localidade ganhou o nome de “Nova Ericeira”. As famílias levaram da Ericeira as suas tradições culturais, gastronómicas e religiosas, bem como a experiência na pesca. Entretanto, com a independência do Brasil em 1822 e com o incumprimento das promessas de apoio à pesca, alguns dos migrantes jagozes regressaram ou deslocaram-se para outras regiões e a colónia ganhou o novo nome pelo qual é conhecida hoje: Porto Belo.

Quando li a obra A Ericeira Brasileira, da autoria da professora e historiadora Arlete Assumpção Monteiro, descobri a profunda ligação entre as duas terras. Afinal, somos irmãos e partilhamos as mesmas raízes!

Fernando Pessoa escreveu “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”. Movidos pela vontade de Deus e pelo sonho, a missão foi ganhando forma graças ao entusiasmo e empenho do casal Elsa e Artur e dos 15 jovens missionários e graças ao apoio extraordinário da Paróquia do Bom Jesus dos Aflitos de Porto Belo e da Câmara Municipal de Porto Belo e de tantos benfeitores.

Missão aMar, paroquia da Ericeira em Porto Belo. Foto DR

O grupo de voluntários e alguns paroquianos que os acolheram junto do mural pintado como recordação da Missão aMar em Porto Belo. Foto: Direitos reservados

Ultrapassando os receios e as dificuldades logísticas e financeiras, fomos preparando a missão e finalmente pudemos partir para o Brasil no dia 24 agosto, para continuar a servir e a pescar. Sim, em certo sentido, também somos “pescadores de homens” como o nosso patrono São Pedro, e fomos impelidos pela urgência do apelo de Jesus “vai e reconstrói a Minha Igreja”, dirigido a São Francisco de Assis e a todos nós, que somos a Igreja.

À chegada, já de noite, fomos muito bem recebidos pelo padre Dyego, novo pároco, pelo casal coordenador Rodrigo e Juliana e por outros membros da comunidade paroquial, e ficámos alojados no salão paroquial, junto à igreja matriz. No dia 25, depois da habitual oração matinal de São Francisco, começámos então uma visita de reconhecimento a pé até ao centro de Porto Belo. Na parte da tarde, assistimos a um concerto da Banda Filarmónica do Rio de Janeiro e logo começámos a preparar e ensaiar uma peça de teatro com as crianças e adolescentes da catequese da paróquia. A peça contava a viagem de uma família da Ericeira até Porto Belo, intercalando com os sonhos de uma criança, onde se representavam cenas da vida de São Francisco de Assis. Com essas crianças e adolescentes, durante os dias seguintes pudemos ensaiar o teatro, as músicas e danças e pintar os cenários para a peça. Passados poucos dias de ensaios, foi muito emocionante juntar todas as partes e ver o entusiasmo e o orgulho dos nossos jovens protagonistas e a maneira como o Davi, representando São Francisco de Assis de modo improvisado, dava algum encargo prático a cada personagem que dele se aproximava com vontade de ajudar no restauro da igreja de Assis, dizendo: “você, pegue na areia, e você, pegue no pincel, e você, pegue na tinta”. Nesse momento, todos os que participavam ou assistiam à peça compreenderam que o restauro da Igreja depende de todos nós, é tarefa de todos nós, a quem Deus chama para servir.

Também durante esses dias, entre muita chuva e sol, fizemos missão porta-a-porta, visitámos doentes com os ministros da Comunhão, entrámos nas escolas, jogámos futebol de praia com jovens e rezámos e celebrámos missa nos diversos lugares de Porto Belo. Com a vaga de construção de prédios, através de permutas de terrenos, a cidade tem crescido muito nos últimos anos, com mais de 30.000 habitantes no inverno e quase 300.000 no verão. Por isso, a paróquia enfrenta muitos desafios e há várias comunidades muito diferentes e novas igrejas em formação: além da igreja matriz, estivemos em Nossa Senhora de Lourdes (Perequê), Senhor dos Passos (centro), Divino Espírito Santo (Vila Nova), Sagrada Família (Jardim Dourado), Santa Teresinha (Araçá), Nossa Senhora Aparecida (Sertão), Santa Catarina (Alto Perequê) e no lar em Tijucas.

Missão aMar, paroquia da Ericeira em Porto Belo. Foto DR

Durante esses dias, entre muita chuva e sol, fizemos missão porta-a-porta. Foto: Direitos reservados

Em cada comunidade, tivemos alguma refeição deliciosa – pastéis, feijoada, peixe ou carne para churrasco ou fogo de chão, acompanhado de milho ou pirão, com sobremesas com doce de leite, etc. – e fizemos missão à mesa, partilhando e ouvindo extraordinárias histórias de fé.

Foi igualmente emocionante visitar a favela e conhecer a realidade da pobreza e da simplicidade de tantas famílias. Por isso, propusemos ainda uma recolha de alimentos e depois entregámos esses cabazes a algumas das famílias visitadas.

Missão aMar, paroquia da Ericeira em Porto Belo. Foto DR

Foi emocionante visitar a favela e conhecer a realidade da pobreza e da simplicidade de tantas famílias. Foto: Direitos reservados

Por fim, organizámos o nosso tradicional Terço vivo, na praia, mesmo junto ao mar, ao cair da noite. Ali, a Providência de Deus arranjou tudo o que precisávamos: garrafões suficientes, velas, um barco de base para a imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem, esferovite para escrevermos o lema da Missão e muita gente para rezar. Ao terminar o Terço vivo, seguimos numa linda procissão em honra de Nossa Senhora até à igreja do centro, para a missa de envio, juntando todas as comunidades visitadas. Nessa celebração, tivemos a alegria de oferecer a imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem à Paróquia de Porto Belo e pudemos batizar a menina Ayla, de poucos meses, rodeada pelos missionários junto à pia baptismal. Essa menina é um sinal de esperança da desejada renovação missionária da Igreja!

Missão aMar, paroquia da Ericeira em Porto Belo. Foto DR

Organizámos o nosso tradicional Terço vivo, na praia, mesmo junto ao mar, ao cair da noite. Foto: Direitos reservados

Com todos a cantar a música «Quem impedirá? Quem impedirá? Agindo Deus, quem impedirá?», despedimo-nos da comunidade cheios de gratidão e com esperança de em breve podermos receber os nossos amigos na Ericeira.

Partilho convosco os testemunhos de alguns dos jovens missionários:

“Atravessado o Atlântico, fomos recebidos como se a casa tivéssemos chegado e aí percebemos o amor que as pessoas tinham para nos dar naqueles dias” (Sebastião)

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“Desde que aceitei entrar na missão aMar sabia que seria um grande desafio para cumprir, ainda mais com ida para outro continente. No entanto, senti que este desafio me permitiu não só ajudar os outros, mas também crescer enquanto pessoa. Senti que esta “imersão” numa cultura diferente, que tanto tem a ver com as pessoas que são da Ericeira, me fez olhar para o mundo de uma forma distinta, mas ainda mais bonita!” (Tomás)

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“A missão é simples: amar, ajudar, cuidar e espalhar sorrisos por onde passamos. A missão é como Jesus nos ensinou: “amar o próximo como eu vos amei””. (Catarina)

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“Foi muito bom sentir a união, os momentos do grupo, e o empenho de todos na missão! Lembro uma jovem que conhecemos nas missões de rua e que partilhou com o grupo que tinha problemas de integração na escola, mas com muita fé. Juntou-se a nós horas mais tarde quando celebrámos a missa naquela comunidade.” (Afonso)

Missão aMar, paroquia da Ericeira em Porto Belo. Foto DR

Momento de partilha com jovens das comunidades de Porto Belo. Foto: Direitos reservados

“Há pessoas e lugares que nos deixam marcas para a vida, e as missões, para mim, foram exatamente isso.

Em cada missão percebi que, apesar de irmos com a intenção de dar, acabamos sempre por receber tanto! Desde histórias, sorrisos, amizades e uma forma diferente de olhar para a vida, com uma consciência que nos faz parar, refletir e aprender a valorizar verdadeiramente aquilo que temos e que são as coisas mais simples que têm o maior significado: o amor, a saúde, a companhia, a empatia, a compaixão…

E talvez seja isso que torna cada missão tão especial, perceber que não regressamos iguais à pessoa que partiu. Trazemos connosco, para além da saudade, as vivências que nos ensinam a ser melhores e a querer continuar a fazer a diferença.” (Mara)

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“Porto Belo é um lugar que nunca esquecerei, porque me marcou de inúmeras formas. A alegria, hospitalidade e simplicidade das pessoas foram algumas delas.” (Rodrigo)

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“Marcou-me particularmente a ida aos lares de idosos em que cantámos músicas tradicionais portuguesas que eles reconheceram e cantaram connosco. Marcou a alegria que deixámos no coração de quem vê passar os dias sempre iguais, com saudade do que viveram e do que foram, muitos deles já sem a  visita de um familiar. Marcou a devoção na oração rezada de mãos dadas, marcou o cântico de Nossa Senhora que tanto os emocionou: “a treze de maio na Cova da Iria”… Momentos de partilha da fé, entrega e amor, que fazem sentir que na vida todos podemos viver em missão.” (Elsa)

Missão aMar, paroquia da Ericeira em Porto Belo. Foto DR

“Marcou-me particularmente a ida aos lares de idosos em que cantámos músicas tradicionais portuguesas que eles reconheceram e cantaram connosco.” Foto: Direitos reservados

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“Uma experiência que levarei para a vida. Por vezes não sabemos como, e custa, mas amar é mais simples do que parece.” (Manuel)

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“Esta missão foi uma experiência que vou guardar para sempre no coração. Mais do que uma viagem ao Brasil, foi uma oportunidade de viver momentos únicos, conhecer novas pessoas e sentir que, mesmo longe de casa, estávamos todos unidos pelo mesmo propósito.

Quando chegámos a Portugal, senti-me ainda mais realizada ao perceber que o nosso propósito tinha sido concretizado. Uma jovem entrou em contacto comigo a contar que tinham realizado a primeira reunião de missionários. Nesse momento, percebi que aquilo que vivemos tinha realmente deixado uma marca.” (Laurinha)

 

 

Tiago Fonseca é pároco da Carvoeira (Nossa Senhora do Ó) e da Ericeira (São Pedro).

 

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