AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Bob Mulega
Padre Bob Mulega, membro dos Missionários da Consolata, nascido no Uganda e desde 2019 ao serviço na Missão Catrimani, junto do povo indígena yanomami, na Amazónia (Brasil). Foto © Jaime Patias.

Testemunho

A floresta ensina que tudo tem o seu tempo

| 01/11/2026

 

Nasci no Uganda há quase 37 anos e estou ao serviço na Missão Catrimani, localizada no coração da floresta amazónica, no Brasil. Chamo-me Bob Mulega e sou padre Missionário da Consolata desde os meus 31 anos. Quando, em 2019, cheguei à Missão Catrimani, e entrei em contacto com o povo indígena yanomami, acreditava que a missão consistia sobretudo em aprender uma nova língua, compreender a cultura do povo e anunciar o Evangelho através da presença e da convivência. Sabia que encontraria desafios, mas imaginava que eles estariam do lado de fora: a floresta, as distâncias, o isolamento e as diferenças culturais.

Com o passar dos anos, descobri que a missão mais exigente não estava diante de mim, nem fora de mim, mas dentro de mim. A missão transforma o missionário antes mesmo de transformar qualquer realidade. Essa é uma verdade sobre a qual pouco se escreve. Falamos muito dos povos, dos projetos, das dificuldades, dos frutos e dos desafios pastorais. Contudo, quase não falamos da humanidade daquele que permanece anos em contextos extremos. Existe uma missão invisível, silenciosa, que acontece no coração de quem foi enviado.

Ao longo destes sete anos, aprendi que o missionário continua a ser plenamente humano. Continua a sentir medo, saudade, cansaço, alegria e esperança. Continua a precisar de silêncio, de oração, de descanso e de pessoas que o escutem. Reconhecer isso não diminui a vocação; torna-a mais verdadeira. A graça de Deus não elimina a natureza humana, mas fortalece-a.

São José Allamano, fundador dos Missionários e Missionárias da Consolata, insistia que o missionário deveria procurar, antes de tudo, a santidade. Para ele, não bastava fazer muito; era necessário estar profundamente unido a Deus. A missão nasce da vida interior. Essa espiritualidade ensinou as gerações de missionários que a fecundidade apostólica não depende apenas da eficiência, mas da qualidade da presença. Permanecer junto do povo exige, igualmente, permanecer unido a Cristo.

A convivência com o povo yanomami também me evangelizou. Aprendi a respeitar o ritmo da floresta, a ouvir antes de falar e a compreender que a presença vale mais do que a pressa. A floresta ensina que tudo tem o seu tempo. Nenhuma árvore produz frutos continuamente. Também o missionário precisa de tempos de renovação para continuar a oferecer vida.

 

Garantir que a missão continue

Bob Mulega

Bob Mulega junto de algumas pessoas do povo yanomami: “Permanecer missionário exige também permanecer humano.” Foto © Jaime Patias.

O Concílio Vaticano II, no decreto Ad Gentes, recorda que a Igreja é missionária por sua própria natureza. Essa natureza missionária, porém, nunca pode esquecer a dignidade da pessoa enviada. O Papa Francisco, na exortação apostólica Evangelii Gaudium, convida a Igreja a ser uma comunidade de discípulos missionários que caminha com alegria. Essa alegria não nasce do ativismo, mas do encontro permanente com Cristo. Na encíclica Fratelli Tutti  o Papa Francisco recorda que toda a missão autêntica nasce da proximidade, do cuidado e da capacidade de reconhecer a humanidade do outro. Talvez devamos acrescentar: também da capacidade de reconhecer a humanidade do próprio missionário.

Ao longo do caminho, percebi que existe outra floresta, invisível aos olhos: a floresta das expetativas. Espera-se que o missionário esteja sempre disponível, sempre forte e sempre pronto. Poucos perguntam como ele está. No entanto, cuidar da própria saúde física, emocional e espiritual não significa fugir da missão. Significa garantir que ela continue. Um coração esgotado dificilmente conseguirá permanecer sinal da esperança de Deus.

Escrevo estas linhas não para falar de mim, mas para dar voz a tantos missionários que vivem realidades semelhantes. A missão precisa de homens e mulheres apaixonados pelo Evangelho, mas também conscientes dos seus limites. Precisamos de formar missionários capazes de amar profundamente os povos aos quais são enviados, sem perder a própria humanidade.

Depois de sete anos em Catrimani, continuo convencido de que Deus me chamou para caminhar com o povo yanomami. Continuo a acreditar que vale a pena gastar a vida pela missão. Mas hoje sei que permanecer missionário exige também permanecer humano. Talvez essa seja a missão invisível: deixar que Deus cuide do coração daquele que Ele mesmo enviou. Quando isso acontece, o missionário descobre que a sua maior obra não é aquilo que realiza, mas a pessoa em que, pela graça de Deus, se vai tornando ao longo do caminho.

 

Bob Mulega é padre católico dos Missionários da Consolata; este texto é publicado no âmbito da parceria entre o 7MARGENS e a revista Fátima Missionária.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Recém-criada Aliança Inter-Religiosa pela Paz apela ao envolvimento de todos

“Chuva Pacífica”

Recém-criada Aliança Inter-Religiosa pela Paz apela ao envolvimento de todos novidade

“Uma única gota de chuva parece insignificante. Não pode apagar um incêndio. Não pode parar uma guerra. Não pode curar todas as feridas da história. Mas uma multidão de gotas pode humedecer a terra seca e permitir que uma nova vida brote dela. O mesmo acontece com a construção da paz”. É com esta imagem de um simples pingo de chuva que acaba de ser constituída na cidade croata de Rijeka a Aliança Mediterrânea para a Paz.

A luz que ainda nos guia

Livro "História da Luz: Arte e Visão"

A luz que ainda nos guia novidade

Dadas as raízes antropológicas comuns da arte e da religião, tudo indica que as artes terão acompanhado desde os seus primórdios as tendências devocionais dos povos, e nesse sentido, desde tempos imemoriais que a arte testemunha e regista os fenómenos luminosos como uma das principais metáforas da transcendência. [Texto de Sílvia Pinto].

Universidade Católica celebra 60 anos com líderes mundiais e grandes debates sobre o futuro

Fundada em 1967

Universidade Católica celebra 60 anos com líderes mundiais e grandes debates sobre o futuro novidade

Angela Merkel, Paul Tighe, Michael O’Flaherty e Paul Richard Gallagher estão entre as personalidades que vão passar pela Universidade Católica Portuguesa (UCP) no âmbito das comemorações dos seus 60 anos, que arrancam este ano e se prolongam ao longo de 2027. Inteligência artificial, direitos humanos, geopolítica, desenvolvimento económico e longevidade serão alguns dos temas em debate.

De Jesus ao cristianismo: como nasceu uma religião

[Entre Margens]

De Jesus ao cristianismo: como nasceu uma religião novidade

Durante séculos, habituámo-nos a pensar em Jesus como o fundador do cristianismo. A associação parece tão evidente que raramente a questionamos. Mas terá Jesus de Nazaré pretendido fundar uma nova religião? Ou terá o cristianismo surgido de um processo histórico muito mais longo e complexo do que habitualmente imaginamos? [Texto de Dália Fernandes].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.