Dadas as raízes antropológicas comuns da arte e da religião, tudo indica que as artes terão acompanhado desde os seus primórdios as tendências devocionais dos povos, e nesse sentido, desde tempos imemoriais que a arte testemunha e regista os fenómenos luminosos como uma das principais metáforas da transcendência. Das hierofanias de luz à arte contemporânea, os pensamentos humanos sobre a luz pressupõem uma relação entre o sagrado e a luz — a luz divina.
Por trás de cada expressão artística — gótico, barroco, romantismo, modernismo, fotografia ou arteluz — existe uma profunda transformação espiritual, que vai determinar os tons, as cores e as dimensões das figuras, incluindo o seu desaparecimento completo.
A arte contemporânea reaviva as suas origens mítico-religiosas, redescobrindo nas obras do passado potencialidades com as quais entramos em correspondência. As metamorfoses do olhar, não cessam de evocar a luz e as trevas, lá onde se evoca a imortalidade, como nas obras de Dan Flavin — autênticas catedrais de néon – ou nos espaços de James Turrell – Space that Sees – instalados em antigas capelas desconsagradas. Apesar das cadeiras vazias da igreja física, o artista continua a pintar o Céu.
O amor e o ódio como uma questão de ótica

A visão pode gerar ou matar o destino dos outros, como um manto de luz ou uma cortina de trevas. Tal como o gesto e a palavra, o olhar também pode salvar vidas ou matar. O amor e o ódio são sempre uma questão de ótica. E todos funcionamos como espelhos uns dos outros, mais ou menos luminosos, sombrios, baços ou completamente opacos. Lançamos e recebemos a claridade que há em nós, como mantos de vida ou morte. Tingimo-nos uns aos outros com os tons que tingem a nossa alma. Os olhares luminosos da nossa vida funcionam como faróis da nossa história, guiando-nos como marcos de luz no meio da noite.
É por isso que a empatia é o principal inibidor da crueldade humana. Quando a empatia falha, as pessoas tornam-se cruéis, e uma pessoa cruel é cruel, antes de mais, consigo mesma. Sem se dar conta disso, projeta os seus defeitos nos outros, uma vez que ver-se como é, seria insuportável. Assim, julgamos os outros naquilo em que nos estamos a tornar. Por isso, o nosso julgamento sobre os outros encerra muito mais informação sobre nós do que sobre os outros.
Cegos em busca de luz

Caravaggio, A Conversão de São Paulo (1600-1601), quadro na Igreja de Santa Maria del Popolo, Roma.
Os nossos olhos podem refletir o nosso interior, mas o nosso interior nem sempre consegue discernir entre o verdadeiro e o falso. A cegueira física toma o lugar da cegueira espiritual, e vice-versa, sempre que estão em causa os segredos do coração, como acontece com os cegos do Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, ao recuperarem inesperadamente a visão. Ou como o Apóstolo Paulo, quando partiu para Damasco e uma luz lhe cegou os olhos (Atos 22: 12-18). Não sabemos o que Paulo “viu” interiormente, durante a sua cegueira física. O que sabemos é que quando recuperou a visão, aquele que até então perseguia homens até à morte, era um homem transformado.
A cultura ocidental tem considerado a visão como o sentido que nos proporciona o acesso imediato ao mundo exterior. Mas a razão de ser dos nossos olhos vai muito além do acesso unilateral ao mundo exterior. Os nossos olhos não são apenas uma janela aberta sobre o mundo, para captar informação do mundo exterior. São também um espelho da alma, cujo reflexo lançamos uns sobre os outros.
Assim lidamos com a avassaladora complexidade do mundo: ignoramo-la. Aplicando uma cegueira seletiva, vemos as coisas que nos permitem avançar na direção dos nossos desejos, detetamos os obstáculos no caminho, e somos cegos a quase tudo o resto. Por isso, somos muito cegos. O preço que pagamos pela sua utilidade é ficarmos cegos para tudo o resto — a menos que aprendamos a olhar de outra forma.
Vivemos tempos de trevas — de guerra, de polarização, de cegueira seletiva, em que cada vez vemos menos além daquilo que desejamos. Por isso, talvez nunca tenha sido tão urgente recuperar a memória e o entendimento da relação entre a visão e a luz. Esta é a proposta desta História da Luz — um livro que percorre uma vasta gama histórica e disciplinar para contar uma nova linha da História da Arte e da Cultura, a partir da luz. Mais do que revisitar obras e artistas, o livro convida-nos a olhar de novo e a lembrar que, mesmo em tempos de trevas, é possível reacender marcos de luz no meio da noite.
Sílvia Pinto é artista plástica, escritora e fundadora do Atelier da Luz. Licenciada em Pintura pela Academia de Belas Artes de Bolonha e doutorada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, lecionou Arte e Comunicação por 17 anos no Ensino Superior. Atualmente, trabalha como guia-intérprete, acompanhando grupos de diferentes nacionalidades em diferentes jornadas, incluindo peregrinos a Santiago. Desenvolve a sua investigação no cruzamento entre a arte, a visão e a espiritualidade. Vive e trabalha no Porto.







