Durante séculos, habituámo-nos a pensar em Jesus como o fundador do cristianismo. A associação parece tão evidente que raramente a questionamos. Mas terá Jesus de Nazaré pretendido fundar uma nova religião? Ou terá o cristianismo surgido de um processo histórico muito mais longo e complexo do que habitualmente imaginamos?
Jesus nasceu, viveu e morreu como judeu. A sua pregação desenvolveu-se no contexto religioso e cultural do judaísmo do século I, marcado por uma diversidade de interpretações da Lei, expectativas messiânicas e conceções sobre a intervenção de Deus na história. Frequentou sinagogas, participou nas tradições religiosas do seu povo e recorreu às Escrituras de Israel para transmitir a sua mensagem. A sua atividade não pode, portanto, ser compreendida fora do universo judaico.
O centro da sua pregação não foi o anúncio de uma religião chamada cristianismo, mas a proximidade do Reino de Deus. Segundo o Evangelho de Marcos, Jesus proclamava: «Completou-se o tempo e está próximo o Reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho» (Marcos 1,15). Esta mensagem inscrevia-se nas expectativas religiosas de Israel, embora a interpretação que Jesus lhes conferiu tenha suscitado adesões, debates e conflitos.
Jesus reuniu discípulos, escolheu os Doze e transmitiu ensinamentos que contribuíram para a formação de uma comunidade. Contudo, reconhecer esta dimensão comunitária não significa pressupor que tivesse concebido uma instituição religiosa com as estruturas, doutrinas e fronteiras que o cristianismo viria a desenvolver nos séculos seguintes.
A morte de Jesus e, sobretudo, a convicção dos seus seguidores de que Deus o ressuscitara constituíram momentos decisivos. A partir dessa experiência de fé, os discípulos reinterpretaram a sua vida e a sua mensagem à luz das Escrituras. Jesus, que anunciara o Reino de Deus, tornou-se também o centro do anúncio das primeiras comunidades. Esta transformação não ocorreu de forma imediata nem uniforme.
Os primeiros seguidores de Jesus continuaram, em grande medida, a identificar-se com o mundo judaico. O livro dos Atos dos Apóstolos apresenta Pedro e João a frequentarem o Templo de Jerusalém (At 3,1), enquanto Paulo, nas suas viagens, se dirigia frequentemente às sinagogas. Estas narrativas, embora escritas a partir de perspetivas teológicas próprias, conservam a memória de um movimento profundamente ligado ao judaísmo.

“Ser cristão significa, acima de tudo, seguir os ensinamentos de Jesus ou seguir as tradições e práticas religiosas que foram surgindo ao longo dos séculos?” Gravura: Pormenor do Bom Pastor no Mausoléu de Galla Placidia, Ravenna. Foto © Richard Mortel | Wikimedia
A integração de não judeus introduziu, porém, questões fundamentais. Seria necessário adotar a circuncisão? Observar integralmente a Lei de Moisés? Partilhar a mesa com pessoas que não seguiam as mesmas prescrições religiosas?
As controvérsias testemunhadas nas cartas de Paulo e nos Atos dos Apóstolos mostram que a identidade das comunidades estava longe de ser consensual. O conflito de Antioquia, referido em Gálatas 2, é particularmente revelador: a discussão sobre a comunhão à mesa exprimia divergências mais profundas acerca da pertença, da autoridade e da relação entre judeus e gentios.
A diferenciação entre judaísmo e cristianismo foi, por isso, um processo gradual e desigual. Em algumas comunidades, as diferenças acentuaram-se mais cedo; noutras, as relações entre judeus e seguidores de Jesus prolongaram-se durante gerações. A separação não aconteceu num único momento, nem da mesma maneira em todos os lugares.
Talvez o problema esteja precisamente na forma como olhamos retrospetivamente para o passado. Conhecendo o cristianismo institucionalizado dos séculos posteriores, tendemos a procurar nas origens uma realidade que ainda não existia nesses termos. Transformamos o resultado de um longo processo histórico no ponto de partida da própria história.
Perguntar se Jesus fundou uma religião não significa negar a ligação fundamental entre Jesus e o cristianismo. Significa reconhecer que existe uma diferença entre a atividade histórica de Jesus e os desenvolvimentos religiosos, doutrinais e institucionais realizados pelas comunidades que nele reconheceram o Cristo.
Talvez a pergunta mais importante não seja apenas saber se Jesus pretendeu fundar uma nova religião, mas compreender o que aconteceu à sua mensagem ao longo da história. Entre o anúncio do Reino de Deus e a construção de uma identidade religiosa própria, o cristianismo percorreu um caminho marcado por encontros, interpretações, conflitos e transformações.
Conhecer esse percurso não diminui a importância de Jesus nem o significado da fé cristã. Pelo contrário, ajuda-nos a compreender melhor como o cristianismo se foi formando ao longo da história. E deixa-nos uma pergunta que merece reflexão: ser cristão significa, acima de tudo, seguir os ensinamentos de Jesus ou seguir as tradições e práticas religiosas que foram surgindo ao longo dos séculos?
Dália Fernandes é doutora em História e Cultura das Religiões pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e professora do ensino básico e secundário.
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