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autores - Dália Fernandes

[Entre Margens]

De Jesus ao cristianismo: como nasceu uma religião

| 01/11/2026

 

Durante séculos, habituámo-nos a pensar em Jesus como o fundador do cristianismo. A associação parece tão evidente que raramente a questionamos. Mas terá Jesus de Nazaré pretendido fundar uma nova religião? Ou terá o cristianismo surgido de um processo histórico muito mais longo e complexo do que habitualmente imaginamos?

Jesus nasceu, viveu e morreu como judeu. A sua pregação desenvolveu-se no contexto religioso e cultural do judaísmo do século I, marcado por uma diversidade de interpretações da Lei, expectativas messiânicas e conceções sobre a intervenção de Deus na história. Frequentou sinagogas, participou nas tradições religiosas do seu povo e recorreu às Escrituras de Israel para transmitir a sua mensagem. A sua atividade não pode, portanto, ser compreendida fora do universo judaico.

O centro da sua pregação não foi o anúncio de uma religião chamada cristianismo, mas a proximidade do Reino de Deus. Segundo o Evangelho de Marcos, Jesus proclamava: «Completou-se o tempo e está próximo o Reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho» (Marcos 1,15). Esta mensagem inscrevia-se nas expectativas religiosas de Israel, embora a interpretação que Jesus lhes conferiu tenha suscitado adesões, debates e conflitos.

Jesus reuniu discípulos, escolheu os Doze e transmitiu ensinamentos que contribuíram para a formação de uma comunidade. Contudo, reconhecer esta dimensão comunitária não significa pressupor que tivesse concebido uma instituição religiosa com as estruturas, doutrinas e fronteiras que o cristianismo viria a desenvolver nos séculos seguintes.

A morte de Jesus e, sobretudo, a convicção dos seus seguidores de que Deus o ressuscitara constituíram momentos decisivos. A partir dessa experiência de fé, os discípulos reinterpretaram a sua vida e a sua mensagem à luz das Escrituras. Jesus, que anunciara o Reino de Deus, tornou-se também o centro do anúncio das primeiras comunidades. Esta transformação não ocorreu de forma imediata nem uniforme.

Os primeiros seguidores de Jesus continuaram, em grande medida, a identificar-se com o mundo judaico. O livro dos Atos dos Apóstolos apresenta Pedro e João a frequentarem o Templo de Jerusalém (At 3,1), enquanto Paulo, nas suas viagens, se dirigia frequentemente às sinagogas. Estas narrativas, embora escritas a partir de perspetivas teológicas próprias, conservam a memória de um movimento profundamente ligado ao judaísmo.

Pormenor do Bom Pastor no Mausoléu de Galla Placidia, Ravenna.

“Ser cristão significa, acima de tudo, seguir os ensinamentos de Jesus ou seguir as tradições e práticas religiosas que foram surgindo ao longo dos séculos?” Gravura: Pormenor do Bom Pastor no Mausoléu de Galla Placidia, Ravenna. Foto © Richard Mortel | Wikimedia

A integração de não judeus introduziu, porém, questões fundamentais. Seria necessário adotar a circuncisão? Observar integralmente a Lei de Moisés? Partilhar a mesa com pessoas que não seguiam as mesmas prescrições religiosas?

As controvérsias testemunhadas nas cartas de Paulo e nos Atos dos Apóstolos mostram que a identidade das comunidades estava longe de ser consensual. O conflito de Antioquia, referido em Gálatas 2, é particularmente revelador: a discussão sobre a comunhão à mesa exprimia divergências mais profundas acerca da pertença, da autoridade e da relação entre judeus e gentios.

A diferenciação entre judaísmo e cristianismo foi, por isso, um processo gradual e desigual. Em algumas comunidades, as diferenças acentuaram-se mais cedo; noutras, as relações entre judeus e seguidores de Jesus prolongaram-se durante gerações. A separação não aconteceu num único momento, nem da mesma maneira em todos os lugares.

Talvez o problema esteja precisamente na forma como olhamos retrospetivamente para o passado. Conhecendo o cristianismo institucionalizado dos séculos posteriores, tendemos a procurar nas origens uma realidade que ainda não existia nesses termos. Transformamos o resultado de um longo processo histórico no ponto de partida da própria história.

Perguntar se Jesus fundou uma religião não significa negar a ligação fundamental entre Jesus e o cristianismo. Significa reconhecer que existe uma diferença entre a atividade histórica de Jesus e os desenvolvimentos religiosos, doutrinais e institucionais realizados pelas comunidades que nele reconheceram o Cristo.

Talvez a pergunta mais importante não seja apenas saber se Jesus pretendeu fundar uma nova religião, mas compreender o que aconteceu à sua mensagem ao longo da história. Entre o anúncio do Reino de Deus e a construção de uma identidade religiosa própria, o cristianismo percorreu um caminho marcado por encontros, interpretações, conflitos e transformações.

Conhecer esse percurso não diminui a importância de Jesus nem o significado da fé cristã. Pelo contrário, ajuda-nos a compreender melhor como o cristianismo se foi formando ao longo da história. E deixa-nos uma pergunta que merece reflexão: ser cristão significa, acima de tudo, seguir os ensinamentos de Jesus ou seguir as tradições e práticas religiosas que foram surgindo ao longo dos séculos?

 

Dália Fernandes é doutora em História e Cultura das Religiões pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e professora do ensino básico e secundário.

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