Vivemos em ilhas distantes entre si: mas de todas se avista Jerusalém.
Foi uma grande semana para a democracia e contra os impérios: Órban, Bolsonaro e Vučić perderam eleições, Netanyahu perdeu o poder. A Hungria e a Sérvia libertam-se das democracias musculadas e da dependência de Moscovo; o Brasil terá evitado o regresso da direita radical. Em Israel, uma coligação de Gadi Eisenkot com os partidos árabes poderia recuperar o caminho de Yitzhak Rabin, que assinou os Acordos de Oslo com a OLP em 1993.
Faltam agora os três imperadores: Putin, Trump e Xi Jinping. Os seus arsenais nucleares não os tornam imunes à derrota política, embora deem às potências que dirigem uma capacidade de intimidação que sobrevive aos governantes. Uma eleição ou impugnação após 3 de novembro, pode mudar o inquilino da Casa Branca; o Partido comunista chinês poderá encontrar um substituto de Xi Jinping ; o Kremlin poderá mudar de mãos; mas não retiram ao sucessores a mala nuclear.
Putin sonha com três homens sentados e o mundo de pé à espera das ordens. Trump admitiu um encontro com Xi Jinping e o presidente russo para discutir o desarmamento nuclear, mas uma negociação sobre armas pode acabar por tornar-se uma negociação sobre os países que não as possuem, no caso Ucrânia e Irão. Nesta troika, o arsenal permitiria a Putin reclamar a paridade que a economia e a tecnologia lhe negam. Uma ogiva nuclear não fabrica semicondutores, mas ajuda a exigir lugar à mesa.
Potsdam oferece uma comparação inquietante, porque, no verão de 1945, a bomba já existia. Os EUA acabavam de realizar o primeiro ensaio atómico e Truman informou Estaline da nova arma, que a espionagem soviética já acompanhava. Ainda antes de Hiroshima, a capacidade de destruir cidades entrava nas contas da paz. Hoje, temos uma caricatura perversa: Putin pretende o estatuto dos vencedores russos do nazismo, apesar de fazer uma guerra de conquista, cada vez mais violenta, traiçoeira e que vai para cinco anos de duração.
Os três imperadores não procuram o mesmo objetivo. Trump anuncia reduções nucleares; a China procura reforçar a sua capacidade estratégica; Putin quer usar o arsenal em reconhecimento das suas pretensões imperiais. Washington e Pequim disputam mercados e a liderança tecnológica, em IA e em terras raras, matérias em que Moscovo tem muito menos peso. Mas seria ingénuo concluir que só a Rússia tem ambições territoriais: Taiwan e a Gronelândia impedem-nos esse conforto. O império também veste um fato de negócios.
A fantasia de Putin de uma troika que decide o destino do mundo, com base de os EUA, Rússia e China possuírem arsenais nucleares equivalentes impede a paz no mundo. Em recursos humanos, população, PIB e base científica e tecnológica, os mais de 25 anos de governo de Putin provocaram um declínio que o impedem de competir com os EUA e a China.

“Seria ingénuo concluir que só a Rússia tem ambições territoriais: Taiwan e a Gronelândia impedem-nos esse conforto. O império também veste um fato de negócios.” Grafia: Mendo’s Newsletter
Uma derrota de Putin poderia desencadear uma crise da federação russa e comprometer o controlo das armas nucleares. Devemos preparar-nos para esse risco, distinguindo entre a derrota militar e a desagregação da Federação Russa, em vez de o transformar num argumento para garantir a vitória do agressor. Quando o medo das consequências protege quem desencadeia a guerra, a bomba torna-se uma apólice de impunidade. Quem ameaça incendiar o prédio acaba autorizado a escolher os apartamentos.
Também eu já pensei que Putin nunca faria certas coisas. A anexação da Crimeia, a intervenção russa no Donbass e a invasão em grande escala da Ucrânia foram ultrapassando os limites do que muitos julgavam possível. Isso não prova que recorrerá à arma nuclear, mas impede que tratemos a frase «ele nunca faria isso» como garantia de segurança. Ainda nesta semana Putin declarou que uma guerra com a Europa não teria vencedores, e ficou para a história a sua afirmação “Para que precisamos de um mundo se a Rússia não estiver nele?” Uma civilização não pode assentar a sua sobrevivência numa conjetura sobre a prudência de um homem.
Os acordos de Belovezha, de dezembro de 1991, marcaram a dissolução da URSS; a Ucrânia abdicou de ter armas nucleares no Protocolo de Lisboa, em maio de 1992. Seguiu-se o Memorando de Budapeste, de 1994, com compromissos de respeito pela soberania e pelas fronteiras da Ucrânia. A Rússia recebeu as ogivas e depois violou as fronteiras, ensinando aos outros Estados uma lição perigosa: entregar a bomba pode deixar o país à mercê de quem a conserva.
É neste ponto que entra o Irão. A perspetiva de uma arma nuclear seduz um regime que tortura o seu povo mas nela veja proteção contra intervenções externas e um instrumento de supremacia regional. Impedir essa aquisição exige uma ordem em que renunciar à bomba não equivalha a aceitar a vulnerabilidade permanente, enquanto os arsenais dos outros recebem o nome respeitável de «dissuasão».
A paz não exige anjos, mas exige limites que obriguem os poderosos. As armas nucleares devem acabar porque, além de ameaçarem a humanidade, perpetuam a hierarquia imperial: reservam a alguns Estados o poder de ameaçar todos os outros com a destruição. Aboli-las exige reciprocidade, verificação e proteção efetiva de quem desarma. Enquanto a bomba servir de título de propriedade sobre o destino alheio, os impérios poderão perder eleições, territórios e prestígio mas não perdem o privilégio decisivo. O desarmamento será cumprido quando nenhum povo tiver de pedir licença para existir a quem dispõe dos meios para o exterminar.
Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.
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