Vivemos em ilhas distantes entre si: mas de todas se avista Jerusalém.
O Projeto Manhattan habituou o estado norte-americano a uma operação gigantesca conduzida sob segredo, com informação compartimentada, financiamento protegido do escrutínio do Congresso e uma disciplina que separava quem sabia de quem tinha autorização para perguntar. Até Harry Truman, vice-presidente, permaneceu à margem do segredo até suceder a Roosevelt.
O Projeto Manhattan não produziu apenas uma arma: estabeleceu um método de governo securitário. Em Bomb Power (2010), Garry Wills mostra como a bomba transformou a presidência americana: o que era uma república transformou-se a pouco e pouco em império. A ameaça do complexo militar-industrial denunciada pelo presidente Eisenhower em 1959 tornou-se realidade na América do séc. XXI, com a mais recente expressão na crise do Starlink/Starshield desta semana.

Vista aérea da Base Aérea de Langley. Foto © Ndunruh | Wikipedia Commons
A doutrina da segurança nacional passou a ter primazia e foi exportada para todos os estados autoritários subalternos. Lembro-me de ter visitado em 1990 a grandiosa base aérea de Langley, nos arredores de Washington e de receber a seguinte resposta a uma pergunta que fiz: “Security is for your safety, Sir.
A segurança da bomba é o fundamento do estado securitário, devolvido às puras raízes hobbesianas do medo do mal maior. A manutenção do arsenal exige bases, serviços secretos, vigilância e decisões rápidas. A autoridade presidencial americana cresceu à sombra dessa necessidade. Quem podia autorizar a destruição de cidades reclamava outros poderes menores para operações clandestinas, detenções e encobrimentos. O Congresso não consegue fiscalizar decisões cujos fundamentos lhe são escondidos.
Repare-se. A Segunda Guerra Mundial terminou em 1945. Seguiu-se a Guerra Fria. A Guerra Fria terminou em 1989. Seguiu-se a Guerra contra o Terrorismo desde 2001. A Guerra contra o Terrorismo terminou com a retirada do Afeganistão. Agora há guerra no Médio Oriente. A emergência muda de nome, mas conserva os funcionários imperiais, os arquivos e privilégios. De 1945 até 2026, a emergência mudou de nome sem devolver os poderes acumulados.
O estado securitário de Trump é a culminação deste processo e não está excluído que os EUA passem por uma ditadura militar para evitar os conflitos civis crescentes; sempre que o cinema de Holywood evoca futuro americano imagina tudo militarizado. A bomba não é a causa de todos os abusos pois o imperialismo americano começou em 1898. Mas identifica uma transformação concreta: a ameaça nuclear ajudou a tornar permanente um poder executivo pouco escrutinado.
Na União Soviética, a bomba nasceu dentro de uma ditadura. Kurchatov dirigia a ciência; Beria supervisionava politicamente o programa. O primeiro ensaio soviético ocorreu em 1949. Cidades fechadas como Arzamas-16, hoje Sarov, foram ocultadas dos mapas públicos. O segredo abrangia laboratórios, trabalhadores e famílias; a construção do complexo recorreu ao trabalho forçado.
Deus não precisa da bomba como revela a evolução espiritual de Andrei Sakharov. um dos principais criadores da bomba de hidrogénio soviética que se tornou defensor dos direitos humanos e crítico do abuso de poder. Recebeu o Nobel da Paz em 1975. Em 1980, após denunciar a intervenção soviética no Afeganistão, foi exilado para Gorky. Sakharov sabia o que havia dentro da máquina. E percebeu que a consciência não podia permanecer à porta do laboratório.
Após as bombas dos EUA e URSS, começou a proliferação nuclear. Segundo o SIPRI, em janeiro de 2026 os inventários indicavam: Rússia, 5420 ogivas; Estados Unidos, 5042; China, 620; França, 370; Reino Unido, 225; Índia, 190; Paquistão, 170; Israel, 90; Coreia do Norte, 60. Total: 12187. Este número inclui ogivas retiradas de serviço à espera de desmantelamento.
Um oficial acompanha o Presidente dos Estados Unidos com uma mala – que permite comunicar e autorizar o lançamento de armas nucleares. Na Federação Russa, existe um dispositivo equivalente, o Cheget. Os dispositivos e as cadeias de comando diferem, mas a nuclear football – imagem é a mesma: : a sobrevivência de milhões depende de decisões tomadas por dois ou três : o Presidente, o ministro ( ou secretário) da Defesa e o chefe do Estado-Maior-General; as condições exatas de autorização não são públicas. Nunca tão poucos tiveram o poder de aniquilar tantos
Deus não precisa da bomba e um Estado não pode ameaçar populações inteiras para garantir a sua segurança. As respostas religiosas dividem-se. Na Rússia, setores da Igreja Ortodoxa legitimaram o escudo nuclear, associando-o à proteção da pátria e a São Serafim de Sarov. Mas personalidades como o metropolita Hilarion Alfeyev, que agora vive em exílio interno na Rússia opôe-se às armas nucleares.
Em setembro de 2025, já durante o pontificado de Leão XIV, a igreja católica reiterou nas Nações Unidas o fim da modernização dos arsenais e o reforço dos mecanismos de desarmamento. O movimento Plowshares invoca Isaías: transformar espadas em relhas de arado. Os quakers, a Pax Christi e comunidades protestantes fizeram da resistência nuclear uma obrigação de consciência.
No budismo, a Soka Gakkai, fez no Japão uma declaração pela abolição das armas nucleares. Chamou-lhes um mal absoluto por ameaçarem o direito da humanidade a viver. A tradição budista fornece uma razão para contestar o valor supremo atribuído ao Estado quando esse Estado se arroga o poder de destruir a vida. Deus não precisa da bomba.
30 outubro – Não às armas nucleares (3): «A paz não exige anjos» — Civilizar o conflito
Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.
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