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Oppenheimer e o general Groves
O físico Oppenheimer e o general Groves junto dos restos da torre do ensaio da bomba nuclear, setembro de 1945. Foto: Wikimedia Commons

[Arquipélago Jerusalém]

Não às armas nucleares (1): a nossa geração e o cenário do fim

Vivemos em ilhas distantes entre si: mas de todas se avista Jerusalém.

 

Eu que nasci em dezembro de 1953 pertenço à primeira geração que vive sob a possibilidade de a humanidade desencadear o seu próprio desaparecimento; a brutalidade das armas nucleares ficou comprovada com a destruição de Hiroshima e Nagasaki, a cidade que fora de paz e comércio.

Não às armas nucleares! Destruição mútua dos arsenais de bombas atómicas, é o que devemos exigir, tal como faz quem acredita que a humanidade deve continuar. Perguntem a um russo como o metropolita Hilarion Alfeyev, que dirigiu as relações externas do Patriarcado de Moscovo (que conheci em Lisboa em 2017 e reencontrei em Moscovo, em 2018). Perguntem ao papa Leão o que é uma paz desarmada e desarmante. Perguntem à ICAN — Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares porque recebeu o Nobel da Paz em 2017. Perguntem à IPPNW — Médicos Internacionais para a Prevenção da Guerra Nuclear. Perguntem aos 8000 autarcas da Autarcas pela Paz Rede internacional . Perguntem aos milhares cientistas da Pugwash que promovem o desarmamento nuclear.  Todos dizem: Não às armas nucleares!

O físico Oppenheimer e o general Groves junto dos restos da torre do ensaio da bomba nuclear, setembro de 1945. Foto: Wikimedia Commons

A bomba resultou de uma extraordinária concentração de inteligência e recursos de cientistas europeus, refugiados do nazismo, que encontraram nos Estados Unidos os meios para transformar a física numa arma. O italiano Enrico Fermi, os húngaros Leo Szilárd, von Neumann e Edward Teller, os alemães Hans Bethe e Klaus Fuchs, sem falar de Albert Einstein, e do dinamarquês Niels Bohr que criaram a física nuclear e os cálculos matemáticos para o projeto Manhattan e desenvolveram a reação nuclear em cadeia controlada e os reatores.

Oppenheimer dirigiu em Los Alamos essa colaboração internacional, sustentada pela capacidade industrial americana e vigiada pelo general Leslie Groves. Do lado soviético, Kurchatov e Khariton fizeram a bomba de plutónio, aproveitando segredos transmitidos pelo espião Klaus Fuchs para reproduzir o modelo americano.  Outras potencias ( 11) fizeram outras bombas. Ficou uma pergunta que nenhum laboratório resolve: quem guarda os guardas?

Em 1945, o americano Bernard Brodie percebeu que a bomba implica uma mudança radical na história. Até então a finalidade principal do aparelho militar fora ganhar guerras; daí em diante, deveria ser evitá-las. Era uma conclusão que se impunha: uma arma capaz de destruir as condições da vitória obriga a repensar o que é vencer. Conquistar um território radioativo, sem população nem futuro, é uma desgraça; não é um triunfo.

Com a arrogância de quem manda, russos e americanos desenvolveram a doutrina da destruição mútua assegurada, conhecida pela sigla inglesa M.A.D. A língua teve aqui um momento de sinceridade: mad significa louco. Cada potência conservaria capacidade para destruir a outra, mesmo depois de atacada. A certeza da retaliação impediria o primeiro golpe. A paz ficaria entregue ao medo, mediante a condição de todos saberem calcular e ninguém se enganar.

Bernard Brodie, leitor lúcido de Clausewitz, conhecia o problema. Na guerra, a execução nunca coincide com o plano. Há informações falsas, ordens mal compreendidas, fadiga, pânico e acaso, acidentes, nevoeiro, tempestades.  Na primeira guerra, a pá de cavar trincheiras era mais forte que os canhões. Um velho biplano destruiu o leme do poderoso Bismarck. Nagasaki foi destruídas, pela bomba de plutônio “Fat Man” porque o alvo original. Kokura,estava encoberta por nuvens. O general MacArthur afirmou que ia vencer a guerra da Coreia em três semanas… Putin considerou que iria conquistar Kyiv em três dias. Uma ave estragou o motor de um F-35 e fê-lo cair. Clausewitz chamou fricção ao que torna difícil o aparentemente simples. Podemos aperfeiçoar as máquinas de guerra; não conseguimos abolir o acaso, nem a estupidez nem a loucura humanas. A doutrina M.A.D.  faz uma aposta demasiado optimista na espécie humana violenta.

René Girard tinha uma teoria para explicar esta loucura: os rivais acabam a imitar-se. Um fabrica uma bomba por medo do outro; o outro fabrica duas para ficar descansado; o primeiro responde com quatro e anuncia que a segurança melhorou. Acumulam-se armas para vencer o medo, mas cada novo arsenal aumenta o medo que justificará o seguinte: a vida dos outros não pode ser a moeda com que compramos a nossa tranquilidade. Cada qual chama defesa ao seu arsenal e ameaça ao arsenal alheio. Ao fim de algumas voltas, ambos podem destruir-se várias vezes, proeza doida que Stanley Kubrick tao bem mostrou em Dr. Strangelove; julgam-se opostos, mas são gémeos agarrados ao mesmo botão vermelho.

Há uma grande diferença entre reconhecer que o receio da retaliação pode travar decisões de guerra e proclamar que a bomba garante a paz. A atual guerra do Irão começou para impedir que o Irão tenha armas nucleares. O arsenal nuclear de Israel dá-lhe a confiança necessária para agredir os vizinhos com armas convencionais. Na invasão da Ucrânia, o Kremlin está sempre a brandir a ameaça nuclear para limitar a ajuda a Kiyv; é como usar um guarda-chuva para bater nos outros em vez de se proteger da chuva. A dissuasão, apresentada como instrumento defensivo, torna-se cobertura da agressão.

É certo que a Ucrânia coloca aos defensores do desarmamento a pergunta mais incómoda. Após o fim da União Soviética, ficaram no seu território armas nucleares soviéticas. A sua retirada foi negociada, nos acordos de Lisboa, de 1992 e no Memorando de Budapeste, de 1994, em troca do respeito pela independência e pelas fronteiras ucranianas. A Rússia violou estes acordos. Que segurança recebe, afinal, quem aceita desarmar? Não basta responder com uma pomba desenhada num cartaz e as ingenuidades habituais dos pacifistas; é preciso construir a paz.

A eliminação dos arsenais nucleares tem de ser negociada, recíproca, faseada e verificável, acompanhada de garantias de segurança capazes de produzir consequências quando violadas. Não podemos  pedir a uma nação ameaçada que entregue a defesa em troca de bons sentimentos. Precisa de instituições, inspeções, controlo dos materiais e compromissos, A minha geração nasceu com a bomba; é nosso dever não a deixar como herança obrigatória.

 

Próximas crónicas

23 outubro – Não às armas nucleares (2): «Deus não precisa da bomba» — As religiões perante a destruição
30 outubro – Não às armas nucleares (3): «A paz não exige anjos» — Civilizar o conflito

 

Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.

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