O ressurgimento de guerras entre estados tecnologicamente avançados e a “erosão das estruturas de aliança dos Estados Unidos” contribuíram para uma alteração profunda do ambiente estratégico internacional, na última década. Quem o diz é o Relatório Anual de 2026 do SIPRI, o Instituto Internacional de Estocolmo de Investigação sobre a Paz.
A instituição internacional sediada na capital sueca, que celebra este ano o seu 60º aniversário, dedica-se à sistematização de dados e realização de estudos e recomendações sobre conflitos, armamento, controlo de armamento, desarmamento e segurança internacional.
Numa visão que toma como referência o período de 2016 até ao presente, o estudo agora divulgado refere que a anexação da Crimeia e a invasão da Ucrânia pela Rússia “marcaram o regresso de uma divisão entre o Oriente e o Ocidente na Europa e o colapso das esperanças de integrar a Rússia numa ordem de segurança europeia pós-Guerra Fria”. A ascensão da China e a intensificação da sua rivalidade com os EUA, por outro lado, “transformaram o equilíbrio global de poder”, segundo o estudo.
A somar a tudo isto, vários fatores têm concorrido para a “erosão da ordem nuclear”, sendo destacados três pilares: o desmoronamento da estrutura estratégica de controlo de armas nucleares; a pressão que se tem vindo a exercer sobre o regime global de não proliferação; e a perda de credibilidade dos compromissos dos EUA em matéria de dissuasão alargada. “A erosão destes alicerces está a ser agravada pelas tecnologias militares disruptivas emergentes e pela competição coerciva entre os principais Estados”, explica o Instituto.
Quanto aos conflitos armados, alguns dos principais que se registavam em 2025 – ano de referência deste relatório, o quadro geral é de continuidade, sendo de assinalar 49 focos de guerra, dos quais quatro entre estados (a maioria refere-se a conflitos intraestatais). O número de mortos resultante destes conflitos armados elevou-se a perto de 240 mil.
O SIPRI chama a atenção para o facto de as armas de ataque de precisão, a localização de alvos assistida por inteligência artificial, os sistemas de armas autónomos, os enxames de veículos aéreos não tripulados (UAV, ou drones) e as operações cibernéticas são agora utilizados de forma rotineira em conflitos armados, “levantando múltiplas questões éticas e jurídicas, especialmente no que diz respeito à supervisão humana”.
Por outro lado, estão a aumentar as violações do direito internacional humanitário, havendo relatos de recrutamento de crianças-soldado, violência sexual, táticas de fome e ataques a serviços de saúde a revelarem “um aumento preocupante dos métodos de guerra proibidos”. Em resultado de deslocações forçadas de populações, havia, em meados de 2025, cerca de 117,3 milhões de pessoas deslocadas, refletindo o custo humano dos conflitos e constituindo “um desafio humanitário em grande escala”.
As despesas militares globais aumentaram pelo 11.º ano consecutivo em 2025, atingindo 2,9 mil milhões de dólares americanos — ou 2,5 por cento do produto interno bruto (PIB) mundial — “elevando as despesas mundiais ao nível mais elevado registado pelo SIPRI”, regista o estudo agora publicado. Enquanto os Estados Unidos reduziram a despesa em ajuda militar (fazendo aumentar os gastos gerais a um ritmo menor do que no ano anterior, no plano mundial) a maior parte do resto do mundo continuou a aumentar as despesas militares a um ritmo acelerado.
A Europa, por exemplo, aumentou em 14 por cento os gastos militares, seguida pela África (8,5 por cento e a Ásia e Oceania 8,1). Recorde-se que foi em junho de 2025 que, pressionados pelos EUA, os países membros da NATO acordaram no objetivo de chegar a 5 por cento do Produto Interno Bruto nos gastos militares até 2035, elevando de uma forma drástica a meta de 2 por cento que havia sido estabelecida em 2014.
A Europa surge igualmente em posições destacadas no que se refere à produção e transferência de armamento e serviços militares. Os dados para o período de 2021-2025 apontam para um crescimento de 36 por cento das exportações, quando comparado com o período dos cinco anos anteriores. Por sua vez, as importações mais do que triplicaram entre os dois períodos, atingindo, segundo o SIPRI, “um limiar que é de longe o mais elevado desde o fim da guerra fria”, o que, de acordo com esta fonte, converte a Europa no maior importador, “o que acontece pela primeira vez desde 1960”.
Relativamente à questão das armas nucleares, os acontecimentos recentes, já em 2025, nomeadamente o ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irão, encontram neste tipo de armamento um dos mais salientes motivos. Mas o estudo do SIPRI alerta para os “baixos níveis de transparência” dos nove estados que possuem a bomba nuclear – Rússia, Estados Unidos da América, Reino Unido, França, China, Índia, Paquistão, Coreia do Norte e Israel – o que “dificulta a avaliação do estado dos arsenais nucleares”. “Nos últimos anos, os Estados têm-se tornado ainda mais reservados no que diz respeito às suas armas nucleares. Isto deve-se, em parte, ao enfraquecimento dos acordos de controlo de armamento que incluíam medidas de transparência”, observa o relatório.
O investimento dos estados “nucleares” na modernização e expansão do seu arsenal nuclear leva a que se possa falar de “riscos crescentes de escalada”, o que combinado com os chamados “sistemas autónomos de armas”, capazes de selecionar e atingir alvos sem intervenção humana, permite falar de “uma nova era de perturbações sistémicas na segurança global”.










