Foi há muitos anos, pela década de noventa. Regressada há algum tempo dos Estados Unidos ainda trazia nos lábios e nos ouvidos a canção Born in the USA do meu ídolo de então (e de hoje), Bruce Springsteen.
Lembro o que se passou como se fosse hoje. Estava no Algarve na casa de praia de um familiar com quatro sobrinhos entre os sete e os 9-10 anos (três raparigas e um rapaz), hoje pais de filhos. As circunstâncias de então levaram a que a estadia acontecesse sem eu contar: a partir do Porto, meti os sobrinhos no espaçoso carro e rumámos ao Algarve, enquanto dois casais descansavam da prole.
Os “miúdos” estavam naquela idade impossível de testarem a autoridade do adulto, de peguilharem entre si constantemente, de pedirem à exaustão doces e pacotes de comida processada, de quererem comprar estúpidas bugigangas com o dinheiro de bolso que os pais lhes tinham dado… de preferirem ir para a piscina da urbanização em vez de usufruir da gloriosa Praia dos Tomates. Quatro mafarricos! Tudo passou a ter de ser negociado: manhã, praia; tarde, piscina. McDonalds só uma vez, cozinhar e lavar a louça eram tarefas partilhadas. Desarrumação nos quartos era escolha deles… eu limitar-me-ia a fechar a porta.
O meu desejo de mar e sol começou a ficar em perigo apesar das ameaças de que, se os desmandos continuassem, eu metia o ou a predador/a no expresso direto para o Porto, garantindo a respetiva devolução aos pais. Ainda por cima as três meninas faziam um bloco opressor contra o único rapaz – o ovo estrelado rebentado ia sem variar para ele, assim como o hambúrguer ou as salsichas queimadas. Sempre detestei injustiças viessem de onde viessem, de modo que me via obrigada a intervir com firmeza.
Foi aí que o amigo Bruce Springsteen me valeu. A guiar e com janelas abertas ao vento eu já tinha cantado sobejas vezes o refrão da canção durante a viagem. Os meus sobrinhos adoravam acompanhar-me em altos berros – BORN IN THE USA. Assim, já no Algarve, quando eu sentia que ia haver crise cantava Born in the USA, todos serenávamos e, rindo, conseguíamos conversar. As palavras do refrão passaram a ser a nossa “senha” de férias. Conseguimos cumprir o ritmo diário combinado; uma noite até os levei ao circo Cardinali com alguma displicência por parte de suas excelências. Mas divertiram-se imenso e chegámos a conseguir ir ver a roulotte das feras. Na cidade mais próxima fomos a um centro comercial, deixando-os eu que fossem escolher uma pala para o vidro da frente do automóvel mas que, para espanto meu ao abri-lo, tinha espalmada uma grande carantonha do Pato Donald – ai, Bruce, terias ficado escandalizado!
Dessa célebre estadia na praia não tenho uma fotografia em que eles estivessem a rir ou mesmo a sorrir: sempre de carantonhas carrancudas e despenteados, só eu no meio deles sorrindo a medo com um ar meio triunfante. Quando educadamente fui pedir desculpa aos vizinhos da casa ao lado pelo barulho que eles causavam, disseram-me que ouviam sobretudo as minhas sonoras gargalhadas. Nada mau, estava no bom caminho…
Quando vinha a propósito ia-lhes explicando quem era o “meu” Bruce Springsteen e o conteúdo pacifista da canção Born in the USA:
Born down in a dead man’s town
The first kick I took was when I hit the ground
End up like a dog that’s been beat too much
‘Til you spend half your life to cover it up, now
Born in the U.S.A.
I was born in the U.S.A.
I was born in the U.S.A.
Born in the U.S.A.
Got in a little hometown jam
So they put a rifle in my hand
Send me off to a foreign land
To go and kill the yellow man
Born in the U.S.A.
I was born in the U.S.A.
I was born in the U.S.A.
Come back home to the refinery
Hiring man says, “son, if it was up to me”
Went down to see my V.A. man[1]
He said, “son, don’t you understand, now?”
I had a brother at Khe Sahn, fighting off the VietCong
They’re still there, he’s all gone, gone, gone, gone now
He had a woman he loved in Saigon
I got a picture of him in her arms, now
Down in the shadow of the penitentiary
Out by the gas fires of the refinery
I’m ten years burning down the road
Nowhere to run, nowhere to go
Born in the U.S.A.
I was born in the U.S.A.
I was born in the U.S.A.
I’m a long gone daddy in the U.S.A.
Well I’m cool rocking daddy in the U.S.A., now
One, two
…que falava de um jovem americano pouco mais velho do que eles que tinha de ir para a guerra bem longe de casa, no Vietname, que em criança vivia grande parte do tempo na rua com outros rapazes filhos de pais operários, que um irmão tinha morrido na guerra e dele só tinha guardado uma fotografia com a namorada vietnamita; que quando regressou não havia trabalho para ele nem sequer numa fábrica… Sentia que não tinha nenhum lugar para onde ir…
Por vezes afastavam-se distraídos, aparentemente desinteressados; outras vezes faziam perguntas e pediam esclarecimentos ou clarificações. Sem falsos moralismos iam tomando consciência de que nem todas as crianças tinham os privilégios de que eles usufruíam, que havia guerras lá longe e era preciso combater, que quando o herói da canção regressou não havia trabalho para ele. Progressivamente iam ficando mais atentos e de expressão pensante. Não pretendia mais do que isso: que entendessem do que falava a canção. Depois regressávamos ao Born in the USA em alta voz e continuávamos a rir, a gargalhar, a gozar cada dia de férias a… 4+1=5.
So long, Bruce Springsteen!
Nascido nos EUA
(tradução livre)
Nasci numa cidade abandonada/ O primeiro pontapé que levei foi quando caí no chão/ Acabo por ficar como um cão que levou demasiada pancada/Até passares metade da tua vida a tentar esconder isso, agora
Nascido nos EUA,/ nasci nos EUA/ Nasci nos EUA,/ nascido nos EUA
Meti-me numa pequena confusão na minha cidade natal/ Então, colocaram-me uma espingarda na mão/ Mandaram-me para uma terra estrangeira/ Para ir matar o «homem amarelo»
Nascido nos EUA/ Nasci nos EUA/ Nasci nos EUA
Voltei para casa, para a refinaria/ O responsável pelo recrutamento disse:/ «Filho, se dependesse de mim…»/ Fui falar com o meu assistente social do Departamento de Veteranos/ Ele disse: «Filho, ainda não percebes?»/ Tinha um irmão em Khe Sahn,/ a lutar contra o Vietcongue/ Eles ainda lá estão, ele já se foi, foi-se, foi-se, foi-se agora/Ele tinha uma mulher que amava em Saigão/ Tenho uma fotografia dele nos braços dela, agora/ Lá em baixo, à sombra da prisão/ Perto das chamas de gás da refinaria/ Há dez anos que ando a queimar a estrada/ Sem lugar para onde fugir, sem lugar para onde ir
Nascido nos EUA/ Nasci nos EUA/ Nasci nos EUA
Sou um pai há muito desaparecido nos EUA/ Bem, sou um pai fixe e descontraído nos EUA, agora/
Um, dois…
[1] Funcionário da Veteran’s Administration
Teresa Vasconcelos é professora do Ensino Superior e participante no Movimento do Graal. t.m.vasconcelos49@gmail.com










