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Papa Leão XIV durante uma visita ao Borgo Laudato Si', em Castel Gandolfo. Foto Vatican Media
Papa Leão XIV durante uma visita ao Borgo Laudato Si', em Castel Gandolfo. Foto © Vatican Media

Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação

Da espada ao arado, do deserto ao jardim: o apelo do Papa Leão XIV

| 31/08/2026

A guerra e a degradação da criação fazem parte de um mesmo “mundo ferido” que reclama cura e paz, considera o Papa Leão XIV na mensagem para o XI Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, que se celebra esta terça-feira, 1 de setembro. O texto, divulgado pelo Vaticano, tem como lema uma passagem do profeta Isaías: “Transformarão as suas espadas em relhas de arados e as suas lanças em foices” (Is 2,4) e pede “coragem” para operar essa transformação nos dias de hoje.

Para o Papa, a imagem bíblica ganha particular atualidade num mundo onde, pelo contrário, continuam a ser canalizados recursos e energias para a violência e a guerra. “A guerra deixa também para trás uma destruição social e ecológica que perdura por gerações”, escreve.

Os efeitos dos conflitos, acrescenta, ultrapassam largamente os campos de batalha. A guerra “ceifa vidas, separa famílias e obriga milhões de pessoas a fugir para longe dos seus lares”, mas também destrói ecossistemas, contamina recursos essenciais como o ar e a água e compromete a segurança alimentar. O resultado é um agravamento da pobreza e da desigualdade, bem como o aparecimento de novas tensões sociais que podem alimentar outros conflitos.

Leão XIV fala, por isso, de uma interação entre conflitos armados e degradação ambiental que pode gerar “um ciclo vicioso”. As feridas provocadas pela guerra atingem não apenas pessoas e comunidades, mas também “a sua rede mais ampla de relações com a inteira família humana e a sua harmonia com a criação”.

Esta realidade revela, segundo o Papa, não apenas um fracasso político, mas também “moral e espiritual”. Porque a guerra, afirma, está ligada a “desejos distorcidos” e ao “uso indevido da liberdade e do poder humanos” e constitui um “contratestemunho do Evangelho da paz”.

“O que está quebrado à nossa volta também está quebrado dentro de nós”

A mensagem desloca depois a atenção das estruturas sociais para o interior da pessoa. As crises do mundo não são apenas consequência de sistemas inadequados, defende Leão XIV, mas estão relacionadas com “aquele desequilíbrio fundamental que se radica no coração do homem”, retomando uma expressão da constituição pastoral Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II.

É no coração de cada um, entendido como “o centro da pessoa”, que se confrontam desejos contraditórios entre amor e indiferença, verdade e ilusão, justiça e injustiça. As feridas da guerra e a degradação da terra estão, assim, “intimamente ligadas à condição do coração humano”.

O Papa recupera, a este propósito, uma afirmação de Bento XVI na homilia de início do seu ministério petrino, em 2005: “os desertos exteriores multiplicam-se no mundo, porque os desertos interiores tornaram-se tão amplos”.

“De certa forma, o que está quebrado à nossa volta também está quebrado dentro de nós”, escreve Leão XIV. Por isso, para construir uma sociedade pacífica, “não devemos apenas reformar as estruturas, mas também renovar os nossos corações”.

Entre as causas profundas dos conflitos e da exploração da criação, O Papa aponta a “perda do sentido dos limites”, a “vontade de domínio”, a procura do lucro imediato e a incapacidade de reconhecer a dignidade de cada pessoa humana.

Inverter prioridades

É neste contexto que Leão XIV interpreta o apelo de Isaías para transformar as espadas em relhas de arados. Não se trata apenas de um ideal dirigido às nações, mas de um chamamento dirigido também a cada pessoa: “transformar o mal em vida”.

E essa mudança não poderá ser apenas exterior. Leão XIV fala de uma conversão “pessoal e coletiva”, realizada em colaboração com a graça de Deus, que permita “reordenar” os desejos, curar feridas e crescer na virtude.

“Sem esta transformação interior, a paz continuará a ser frágil e de curta duração”, adverte.

O Papa propõe, assim, uma inversão das prioridades: aquilo que é utilizado para a destruição pode ser colocado ao serviço da vida, “para o cuidado dos pobres, para a alimentação dos famintos e para a salvaguarda da criação”. É esse, considera, o caminho da “autêntica conversão ecológica”, retomando uma expressão da encíclica Laudato Si’, de Francisco.

Leão XIV convida a imaginar um mundo onde as energias atualmente investidas na guerra sejam canalizadas para o “desenvolvimento humano integral”, a erradicação da pobreza, a proteção da dignidade humana e a reconciliação entre os povos.

As ferramentas da paz, sublinha, não são as armas de destruição, mas “a verdade, o diálogo, a paciência, a bondade, a justiça, a misericórdia, a compreensão, o cuidado e o amor”. São estas atitudes, insiste, que podem transformar pessoas, renovar comunidades e “curar as feridas do nosso mundo”.

No final da mensagem, o Papa retoma a imagem inicial para descrever o caminho que propõe: “Lenta, mas certamente, passaremos do deserto ao jardim, da divisão à comunhão e da violência à paz”.

“Que o Senhor nos conceda a coragem de percorrer este caminho”, pede Leão XIV, “para que, no nosso tempo, as espadas sejam verdadeiramente transformadas em relhas de arados, a promessa do Evangelho se enraíze mais profundamente no nosso mundo e a paz de Cristo reine sobre toda a criação”.

Nesta terça-feira, o Papa irá presidir à missa nos jardins pontifícios de Castel Gandolfo, para assinalar o XI Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação.

O Movimento ‘Laudato Si’ promove uma oração ecuménica, com transmissão online, a partir das 14h00 de Lisboa.

A celebração do chamado Tempo da Criação decorre até 4 de outubro, dia da festa litúrgica de São Francisco de Assis. O programa e materiais propostos para viver este tempo estão disponíveis no sítio oficial da iniciativa, instituída em 2015 pelo Papa Francisco.

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