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Bíblia. Foto Balazs Toth
A disponibilização de "Tobias" dá continuidade ao projeto de nova tradução da Bíblia promovido pela CEP. Foto © Balazs Toth

Bíblia da CEP

Livro de Tobias, “uma mensagem simples e consoladora”, tem nova tradução

| 01/09/2026

“Uma mensagem simples e consoladora” para quem procura compreender por que razão os bons sofrem: é assim que a nova tradução da Bíblia da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) apresenta o Livro de Tobias, narrativa do Antigo Testamento que cruza caridade, oração, sofrimento, casamento e intervenção divina e que já pode ser consultada online.

A Comissão Coordenadora da Tradução da Bíblia da CEP disponibilizou esta terça-feira, 1 de setembro, a proposta de tradução deste livro deuterocanónico, convidando os leitores a enviar comentários e sugestões que possam contribuir para melhorar o texto. A tradução provisória e os restantes livros já publicados podem ser consultados no site da Conferência Episcopal Portuguesa.

Escrito num registo que os tradutores descrevem como de “alguma ironia e leveza”, Tobias é uma narrativa relativamente curta, centrada na doença de Tobite e nas vicissitudes que conduzem ao casamento do seu filho, Tobias, com Sara, sempre sob a mediação da ação divina.

A obra terá sido composta entre os séculos III e II antes de Cristo, antes da revolta dos Macabeus. A língua original foi muito provavelmente o aramaico, embora a questão continue em aberto, e também o local de composição é discutido pelos especialistas: a situação dos protagonistas aponta para a diáspora oriental de língua aramaica, enquanto a dedicação ao templo de Jerusalém e a observância das práticas judaicas favorecem uma origem palestiniana.

Apesar de a obra não se distinguir por uma elaboração literária particularmente sofisticada, de a condução do suspense ser considerada relativamente ingénua e de conter numerosas imprecisões históricas e geográficas, são precisamente essas características que, segundo os tradutores, contribuem para o seu “peculiar fascínio”. É uma narrativa de leitura fluida, cujo aparente despojamento está ao serviço de uma reflexão moral e espiritual de grande alcance.

A figura de Tobite é apresentada como modelo do judeu observante, disposto a arriscar a própria vida e o bem-estar da família para fazer o bem. A sua prática religiosa manifesta-se na caridade, na oração, na fidelidade às tradições de Israel, na devoção ao templo de Jerusalém e no cuidado na sepultura dos mortos.

Mas Tobite é também um homem marcado pelas suas fragilidades: escrupuloso diante dos preceitos religiosos, mas desconfiado em relação à própria família, especialmente da mulher, Ana. As desgraças que lhe acontecem levantam a questão do sofrimento dos justos e do problema da retribuição: por que razão sofrem aqueles que procuram viver de acordo com a vontade de Deus?

É esta questão que atravessa a narrativa. Dois inocentes, Tobite e Sara, sofrem sem uma razão aparente, enquanto a providência divina conduz os acontecimentos até à restauração da sua situação. “A lição é clara: Deus não abandona o judeu fiel na hora da provação”, escrevem os tradutores.

A oração ocupa um lugar central nesta mensagem. O livro contém várias orações formais, que acompanham os momentos decisivos da narrativa, e o verbo “bendizer” aparece mais de quarenta vezes. A dimensão religiosa está ainda presente num conjunto de temas recorrentes, como a morte e a sepultura, a intervenção divina, a ação angélica, as relações familiares e conjugais e o louvor a Deus.

Rafael e a providência divina

Um dos elementos mais originais de Tobias é a presença do anjo Rafael, cujo nome significa “Deus curou”. Rafael acompanha Tobias na viagem que o levará ao encontro de Sara e ao casamento, funcionando como instrumento da providência divina.

A história de Tobias e Sara é, assim, também uma história sobre o casamento e a família. A união dos dois é apresentada como fruto da providência de Deus e não como resultado do acaso. O livro valoriza a fidelidade aos laços familiares e tribais, o casamento dentro do próprio clã, o cumprimento do dízimo e a devoção ao templo.

Do lado oposto a Rafael surge Asmodeu, um demónio de nome persa que encarna a força do mal na narrativa. A sua derrota pela oração dos esposos e pela intervenção angélica constitui um dos momentos centrais da história.

A narrativa estabelece ainda vários paralelos com a história de José e dos patriarcas e apresenta Tobias como uma espécie de “manual de vida” para judeus que vivem na diáspora. As suas instruções sobre a caridade, a família, a fidelidade a Deus e a oração ultrapassam as circunstâncias particulares da história e propõem um modelo de conduta.

No final, a narrativa assume uma dimensão de esperança. Tobias anuncia a destruição de Nínive e o regresso das tribos dispersas a uma Jerusalém renovada, para onde convergirão também os povos pagãos. O livro articula, assim, a experiência concreta do sofrimento com uma esperança mais ampla de restauração.

Um livro recebido pela tradição cristã

Tobias pertence ao conjunto dos livros deuterocanónicos e está ausente do cânone judaico. Chegou à tradição cristã através da sua inclusão na Septuaginta, a tradução grega das Escrituras adotada pela Igreja primitiva.

A receção do livro foi inicialmente heterogénea, assinalam ainda os tradutores na introdução ao mesmo. A questão da sua canonicidade foi sendo definida nos Concílios de Hipona, em 393, Cartago, em 397, e Florença, em 1442, antes de ser confirmada pelo Concílio de Trento, em 1546. Tobias integra também o cânone das Igrejas Ortodoxas, enquanto as tradições protestantes o excluíram em geral, embora frequentemente o apresentem como apêndice às suas Bíblias.

A tradição manuscrita do livro é particularmente complexa. Chegaram até hoje três recensões gregas: a recensão longa, preservada sobretudo no Códice Sinaítico e considerada textualmente mais antiga; a recensão curta, presente nos Códices Vaticano e Alexandrino; e uma recensão intermédia, de caráter compósito.

A nova tradução da CEP parte da recensão longa grega, considerada o ponto de partida textual da Nova Vulgata, recorrendo a esta última nos casos de incerteza textual e quando coincide com a recensão curta. As principais diferenças entre a tradução proposta e o texto grego são também assinaladas em nota.

Os fragmentos aramaicos e hebraicos encontrados em Qumran revelaram uma estreita afinidade com a recensão longa grega e com a versão latina, contribuindo para relançar o debate sobre a língua original do livro.

Um trabalho em curso

A disponibilização de Tobias dá continuidade ao projeto de nova tradução da Bíblia promovido pela CEP. Em março de 2019 foi apresentado o primeiro volume, Os Quatro Evangelhos e os Salmos, realizado por 34 investigadores a partir das línguas originais.

Desde agosto de 2021, a comissão coordenadora tem vindo a disponibilizar regularmente novas propostas de tradução em formato digital. Nos últimos meses foram publicados, entre outros, os livros de Macabeus II e Rute.

Como acontece com os restantes textos, a proposta de Tobias é provisória. A Comissão Coordenadora da Tradução da Bíblia da CEP convida a comunidade a participar no processo de revisão, enviando “achegas e comentários” para o endereço eletrónico biblia.cep@gmail.com.

 

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