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Rembrandt, Apresentação de Jesus no Templo, Simeão
Rembrandt (1606–1669): Apresentação de Jesus no Templo. Museu Nacional, Estocolmo. | Wikimedia Commons

[A Palavra e a vida]

A longevidade como bênção na Bíblia

| 04/08/2026

 

Os anciãos bíblicos ofereciam um abençoado patamar de experiência, donde se podia obter uma vista global com esperança. Até o «Deus dos pais» acreditado pelos anciãos contribuía para essa unidade. Porque o ser humano é sempre herdeiro que pode dar porque recebeu…; e porque muito do que é tem um passado (especialmente porque os avós e a família lhe deram a existência), uma das maiores responsabilidades da família (em que não faltavam os idosos) era a transmissão da fé no «Deus dos vossos pais» (Êxodo 3,16) para construir o futuro sempre interligado ao passado e ao presente. Esta transmissão era feita espontaneamente, na vida vivida. Mas, porque era tão importante, era feita por meio da bênção, de forma mais solene imediatamente antes de o patriarca da tribo ou da família morrer. A bênção (berakhá) era a força vital e o poder salvador que a fé via a descer de Deus para as pessoas (e animais: Génesis 1,22.28). Era o divino a fecundar o humano. Era sempre acção, dom e graça de Deus que O tornava presente na vida e interpretava a experiência crente. Mas podia ser ministrada pelas pessoas mais velhas, pelos avós, pelo ancião…, que então, por concessão divina, transmitiam a força salvadora expressa numa vida longa e vigorosa, em numerosa descendência, na paz, na segurança: nesse caso, a palavra e o gesto ‘sacramental’, de modo eficaz, comunicavam Deus aos humanos, o Deus que abençoava a sua esperança. A bênção tinha sempre como fundamento a protecção de Deus. Por exemplo, o patriarca Jacob, ao abençoar os doze filhos, os doze pilares do futuro povo de Israel, transmitia a bênção de Deus, por incumbência e pela grande idade; aparece agora num texto que reflecte a riqueza da futura tradição do povo (Gn 49); neste caso é particularmente augúrio de coisas boas e favoráveis, desejo de prosperidade e bem-estar (cf. J. A. M. Palos, “A bênção na Bíblia e na liturgia judaica”, As bênçãos [Secretariado Nacional de Liturgia, 1996] 11-34).

Dentro da visão bíblica que ligava os bens da vida a uma bênção de Deus, a velhice feliz do justo «cheio de dias» era considerada, ela própria, bênção de Deus (ser abençoado equivalia a participar espiritualmente da vida de Deus): a velhice hoje em dia é medicada, nos tempos bíblicos era abençoada. A vida longa e serena era considerada recompensa de Deus pelas boas acções do justo: «Os justos florescerão como a palmeira… Até na velhice continuarão a dar frutos e hão-de manter a seiva e o frescor». A bênção de Deus aparece como a linfa vital do ancião. Nela encontram-se e entrelaçam-se a presença divina com a condição humana. A bênção dava profundidade e altura à longa parábola da existência terrena do ancião, que, precisamente por meio da bênção, também se tornava parábola para a comunidade: «Abençoar-te-ei; engrandecerei o teu nome; e tu serás bênção… Por ti serão abençoadas todas as famílias da terra» – diz Deus ao velho Abraão (Génesis 12,2-3; 18,18; 22,18; 26,4; 28,14), significando que por intermédio da sua pessoa, dos seus gestos e da sua palavra, qual sacramento, a bênção de Deus chegaria a todas as pessoas que se acolhessem sob o seu nome. O ancião justo era a encarnação do céu nas tendas do homem bíblico.

Esta visão bíblica, religiosa, tinha subjacente o suposto humano de que o bem e a justiça têm sempre o aval e a suma aprovação de Deus. Longevidade e bênção divina estavam entretecidas. «A longevidade não era considerada fruto de condições biológicas, como a higiene e o exercício físico, mas fruto de uma vida racional e razoável” (L. Alonso Schökel – J. Vilchez, I Proverbi: citado por G. Ravasi, “La morte del vecchio sazio di giorni”, La morte e il morire [PSV 32; EDB; Bolonha 1995] 31). Esta tese é defendida no salmo sapiencial 91, que põe Deus a assegurar protecção ao justo: “Hei-de saciá-lo com longos dias de vida” (v. 16). Já o decálogo garantia que honrar os pais assegura que Deus «prolongue os teus dias» (Êxodo 20,12). A escuta e a prática da sabedoria, transmitida pelos pais e pelos sábios «acrescentam longos dias, anos de vida e prosperidade» (Provérbios 3,1-2; 4,10; 9,11). Essa tese também ficou formulada num provérbio: «O temor reverencial do Senhor prolonga os dias» (Provérbios 10,27). O sábio Ben Sira (chamado Eclesiástico no cristianismo latino) reafirma a ligação entre alegria, paz, prosperidade e longevidade, numa adesão pessoal a Deus, cheia de reconhecimento: “Quão bela é a sabedoria nas pessoas de idade avançada!… A experiência consumada é coroa dos anciãos e o temor do Senhor é a sua glória” (Ben Sirá 25,4-6). Nestas formulações proverbiais, que concentram a sapiência multissecular e refinada de um povo, entram as metáforas: “Os cabelos brancos são esplêndida coroa que se encontra no caminho da justiça” (Provérbios 16,31). O ancião Job afina pelo mesmo diapasão: “Nos cabelos brancos está a sabedoria; e na longevidade está a inteligência” (12,12). Quem “odeia a avareza prolongará os dias” (Provérbios 28,16).

 

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