Vivemos em ilhas distantes entre si: mas de todas se avista Jerusalém.
A nação ucraniana está há 1610 dias em guerra com a Federação Russa e, sem alimentar ilusões mentais, podemos afirmar que para além do choque entre poderes declarados e clandestinos, para além da loucura da violência e dos negócios de armas, a Ucrânia trava uma guerra de princípios; de um lado, a vítima corajosa e seus aliados europeus e americanos e, do outro, o império agressor e seus parceiros, como China, Irão e Coreia do Norte.
É à luz desta guerra de princípios que o presidente Zelensky respondeu nesta semana de Julho de 2026 a uma guerra que mudou de natureza. Neste trágico quinto ano da invasão, a Ucrânia já não combate apenas nas trincheiras do Donbass. Combate nas fábricas de drones, nas centrais eléctricas, nas refinarias russas e na capacidade de devolver os soldados à vida civil. A frente atravessa toda a sociedade.
A substituição da primeira ministra Yuliia Svyrydenko por Serhii Koretskyi, antigo dirigente da Naftogaz, mostra que, nesta guerra, um transformador eléctrico pode valer tanto como uma bateria de artilharia. A Rússia tenta destruir a energia, os portos e a economia ucranianos; o novo primeiro-ministro foi escolhido para conservar o Estado sob bombardeamento.
A crise maior ocorreu na Defesa. Mykhailo Fedorov representava a Ucrânia dos engenheiros e programadores que transformam componentes comerciais em armas. O seu conflito com o general Oleksandr Syrskyi, herói da defesa de Kiyv em março de 2022, contrapôs duas culturas militares que sempre existiram: a hierarquia rígida e uma organização alimentada por dados, inovação e iniciativa local. A demissão de Fedorov provocou protestos populares e a contestação acabou por atingir Syrskyi, substituído pelo seu conceituado camarada de armas, o general Mykhailo Drapatyi. A democracia ucraniana não foi suspensa pela guerra.
A Ucrânia não vencerá imitando a Rússia. Tem 1/5 da população e não alimenta o desprezo pela vida que caracteriza o governo Putin e seus generais. Assim, a Ucrânia tem de trocar massa por inteligência, quantidade humana por rigor e centralização por velocidade.
A Operação Teia de Aranha mostrou esse caminho. Em Junho de 2025, drones escondidos em camiões surgiram junto de quatro aeródromos russos e atacaram os bombardeiros estratégicos russos, alguns estacionados na distante Sibéria. A operação foi de David contra Golias.
Ao longo de uma frente de 1200 quilómetros, formou-se uma “zona de morte” que pode atingir trinta quilómetros de largura. Drones de reconhecimento, aparelhos FPV, munições planadoras e sistemas ligados por fibra óptica tornam quase impossível concentrar grandes unidades. Os soldados permanecem escondidos, os abastecimentos fazem-se em pequenos veículos ou plataformas terrestres não tripuladas, e grupos de poucos homens infiltram-se por entre posições dispersas. É uma extensa zona cinzenta, observada dia e noite por milhares de olhos electrónicos.
A campanha em curso contra as refinarias russas tem a mesma doutrina numa escala maior. Durante o primeiro semestre de 2026, a Ucrânia atingiu 22 refinarias russas, algumas a mais de 1300 quilómetros da frente. Em Julho, drones alcançaram instalações em Saratov, Tatarstão, Bashkortostão e Ufa, além de depósitos, estações de bombagem e petroleiros no mar de Azov. Kyiv criou mesmo um comando de operações de longo alcance para coordenar esta ofensiva.
O objectivo é impedir que as refinarias transformem petróleo bruto em combustíveis e prejudicar as exportações que financiam a guerra. Ao atingir as unidades mais difíceis de reparar, a Ucrânia obriga Moscovo a dispersar defesas antiaéreas, importar componentes e reduzir exportações. A falta de combustível já levou a restrições nas vendas, subida de preços e proibição de exportar gasóleo. Empresas russas já compraram gasolina à Índia — por vezes refinada a partir de petróleo russo exportado. A chamada “sanção ucraniana” ataca fisicamente a circulação energética da guerra.
Vencer também significa cuidar dos que regressam. A Ucrânia já conta entre 1,5 e 1,8 milhões de veteranos. Centros como o Unbroken e o Superhumans combinam próteses, fisioterapia e apoio psicológico e serviços jurídicos dirigidos por antigos combatentes. No Teatro dos Veteranos, soldados feridos transformam amputações, explosões e memórias dos mortos em peças apresentadas em Kiyv e Lviv. O combatente reaprende a ser cidadão sem ocultar aquilo que viveu.
Na Rússia sucede quase o contrário. O Kremlin promove uma pequena minoria de veteranos. Porém, a esmagadora maioria – quase dois milhões – regressa às regiões pobres sem emprego nem tratamento psicológico. Em 2025 terão sido mencionados cerca de 250 000 veteranos desempregados. Medalhas e cerimónias substituem frequentemente a reintegração, enquanto antigos presos recrutados para a frente regressam com trauma, dependências e hábitos de violência.
A Ucrânia vencerá se conseguir unir três operações: continuar a lançar os seus drones sobre a máquina de guerra russa, retirar combustível a essa máquina de guerra e trazer os seus soldados de volta à comunidade. Uma atinge as armas; outra, a economia; a terceira impede que a invasão continue dentro dos sobreviventes. A vitória chegará quando a Rússia deixar de poder impor o futuro da Ucrânia — que defende os princípios de uma sociedade justa, livre e solidária.
Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.
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