Um colectivo de bispos católicos do Brasil, fez chegar, no passado domingo dia 23, ao jornal Folha de S. Paulo um documento intitulado «Não deixemos cair a profecia» no qual, a propósito da campanha eleitoral para a presidência da República, defendem um pacto “pela democracia, pela soberania e pela defesa da casa comum”, a exemplo do que já haviam proposto em 2022 num documento idêntico, por ocasião das últimas eleições disputadas entre o então Presidente da República Jair Bolsonaro e o então candidato Lula da Silva.
Denominado “Bispos do Diálogo pelo Reino”, o grupo que não se identifica, sublinha, porém, a sua consonância com o magistério de Leão XIV e as orientações da Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros (CNBB). E por isso, no início do seu manifesto, reafirmam o que consideram de fundamental nas «diretrizes gerais» da assembleia da CNBB para 2026-2032: «Sabendo que evangelizar é tornar o reino de Deus presente no mundo», consideram como imprescindível «a ação socio transformadora da sociedade».
«Esperança cristã não é ingenuidade…»

“Concordam os «Bispos do Diálogo pelo Reino», demonstrando apreço «por tantas lideranças e Comunidades Eclesiais» que, em «contexto de grave crise social e ecológica», denunciam «estruturas opressoras».” Cartaz CNBB da “Campanha da Fraternidade 2026”, que tem como tema “Fraternidade e Moradia”
Entretanto, o jornal Valor Econômico, da cidade de São Paulo, noticiou que um dos autores do manifesto afirmou, sob anonimato, que a não identificação dos bispos se deve apenas a evitar «partidarização do debate».
E se, de facto, no documento agora divulgado não é feita qualquer menção directa a qualquer um dos candidatos, no texto escrito em 2022 entre a primeira volta, a 2 de Outubro – Lula da Silva (48,43 por cento) e Jair Bolsonaro (43,20 por cento) – e a segunda volta, a 24 daquele mês, os “Bispos do Diálogo pelo Reino” não se eximiram, então, de evocar os mandamentos da Igreja para recordar que «o chefe do Governo [Bolsonaro] e os e os seus apoiantes, principalmente políticos e religiosos, abusaram do nome de Deus para legitimar seus atos e ainda o usam para fins eleitorais». E prosseguiam: «Enquanto dizia ‘Deus acima de tudo’, o Presidente ofendia as mulheres (…) além de não demonstrar compaixão alguma com as quase 700 mil vidas perdidas para a covid-19 e com os 33 milhões de pessoas famintas em seu país».
Recorde-se que a própria CNBB na sua mensagem «ao povo brasileiro», a propósito das próximas eleições de 4 de Outubro, não deixa igualmente de anotar um conjunto de situações disruptivas na sociedade brasileira, como a compra de votos e «a utilização indevida de recursos públicos e da disseminação deliberada de mentiras (fake news)», ou ainda «o abuso do poder económico e político e as formas de violência que ameaçam a convivência social».
Se não é difícil entender o “recado” do episcopado, as suas mensagens não receiam assinalar de, em todo o processo eleitoral, «o respeito às instituições da República», quer no que se refere «à liberdade de expressão responsável», quer na «confiança» que é necessária ter «nos mecanismos legítimos de apuração da vontade popular».
Perante esta realidade, a CNBB incentiva cada crente «a proteger a democracia e a trabalhar pela justiça», porque «a esperança cristã não é ingenuidade nem otimismo superficial».
«Conservadorismo autoritário…»

‘ “Bispos do Diálogo pelo Reino” reiteram a urgência de «muita coragem», por parte «de todos nós cristãos», por forma a gerar um projeto de país que não pactue com a grave injustiça social que sempre nos acompanhou.” Favela nos Perus. Foto © Tony Neves
Concordam os «Bispos do Diálogo pelo Reino», demonstrando apreço «por tantas lideranças e Comunidades Eclesiais» que, em «contexto de grave crise social e ecológica», denunciam «estruturas opressoras».
Mas é no final que o manifesto – divulgado ontem pelo Instituto Humanitas Unisinos no dia 24 – se dirige ao interior da Igreja, lamentando o «conservadorismo autoritário que se faz sentir em «alguns meios de comunicação de inspiração católica, incluindo alguns membros dos ministérios ordenados» que promovem «discursos superficiais e violentos» contra aqueles que «testemunham a fé no meio dos pobres, na defesa da democracia…».
Assim, perante «os desafios da realidade atual» e do momento eleitoral que se aproxima, os «Bispos do Diálogo pelo Reino» reiteram a urgência de «muita coragem», por parte «de todos nós cristãos», por forma a gerar um projeto de país que não pactue com a grave injustiça social que sempre nos acompanhou».
Porque «contra a avalanche de mentiras e disseminação de ódios pelas avenidas digitais», há que «fazer uma escolha consciente e lúcida».
Mário Robalo é jornalista










