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Participantes da conferência nacional "Boas práticas no cuidado pastoral de pessoas homossexuais e transgénero", em Itália. Foto © Projeto Gionatta LGBT Roma
Participantes da conferência nacional "Boas práticas no cuidado pastoral de pessoas homossexuais e transgénero", em Itália. Foto © Projeto Gionatta

Conferência em Roma

Dioceses católicas de Itália reuniram 200 responsáveis pela pastoral LGBT+. Um arcebispo disse que se ‘converteu’

| 06/09/2026

 

Um sinal expressivo de que a Igreja Católica italiana caminha ao lado das pessoas LGBT+ foi dado este fim de semana em Roma, na primeira conferência nacional que reuniu quase duzentos agentes pastorais de várias dioceses italianas, juntamente com uma dezena de bispos e arcebispos, sob o tema “Boas práticas no cuidado pastoral de pessoas homossexuais e transgénero”.

A iniciativa decorreu no auditório da Cúria Generalícia da Companhia de Jesus, cujo secretário deu as boas-vindas aos participantes. A intervenção de abertura coube ao padre Gianluca Carrega, coordenador do ministério LGBT+ da Arquidiocese de Turim, o qual começou por sublinhar que, na Igreja Católica, “muitas vezes partimos de princípios excelentes, mas depois, quando se trata de colocá-los em prática, enfrentamos grandes dificuldades”. Por isso, acrescentou, observar as boas práticas permite ser otimista, porque “às vezes a realidade supera a teoria e condiciona-a”.

Mais do que uma “conferência sobre pessoas LGBT+”, esta iniciativa foi oportunidade para partilhar e escutar as boas práticas que algumas Igrejas locais já têm no terreno em conjunto com pessoas LGBT+ e as suas famílias. Descrevendo o que se passou, Innocenzo Pontillo, voluntário do Projeto Gionata, anota: “em última análise, foi precisamente assim que nasceram quase todas as viagens relatadas: não [para debater] um documento imposto de cima para baixo, mas [para falar] de encontros com pessoas reais. Amigos que cresceram em paróquias, na catequese, na Ação Católica, em coros e na Cáritas, que durante anos se calaram sobre uma parte importante de suas vidas para não se afastarem da Igreja”.

Nesta mesma linha, o padre Marco Torre, diretor do Serviço Pastoral da Família da Diocese de Chiavari, lembrou que o caminho sinodal fez com que muitas comunidades cristãs percebessem que um amigo que conheciam há muito “tinha permanecido em silêncio durante anos”. Não porque não tivesse nada a dizer, mas porque ninguém lhe fizera compreender que podia falar.

Anna Maria Massari (à esq.), membro da Coordenação para a Pastoral Inclusiva da diocese de Florença. Foto © Projeto Gionatta LGBT Roma Itália

Anna Maria Massari (à esq.), membro da Coordenação para a Pastoral Inclusiva de Florença. Foto © Projeto Gionatta

De entre as várias dioceses presentes, a de Florença esteve em destaque, não fosse ela uma das pioneiras neste campo. Anna Maria Massari, membro da Coordenação para a Pastoral Inclusiva dessa Diocese, recordou que o nascimento das iniciativas no setor remonta a 2001, com o surgimento do grupo cristão Kairos, por iniciativa do qual surgiram as primeiras vigílias de oração pelas vítimas da homotransfobia , ao acolhimento nas paróquias, ao surgimento do Kairos Pais e do Kairos Jovens queer, à Coordenação diocesana e, finalmente, ao projeto Casa Andrea , que proporciona escuta e abrigo temporário a jovens LGBT+ e pessoas transgénero.

O que moldou essa história, recordou Annamaria Massari, foi “a vontade dos jovens do grupo, o fato de baterem a tantas portas, o desejo de fazerem parte da Igreja”. Um dos desafios, no presente, é acolher e reconhecer casais LGBT+ e suas famílias, capazes de viver e testemunhar o Evangelho.

O arcebispo de Florença, Gherardo Gambelli, fez, por sua vez, uma intervenção na Conferência, na qual sublinhou a necessidade de passar de uma mentalidade excludente de “dentro ou fora” para uma mentalidade de envolvimento e reconhecimento, lembrando que o discernimento deve começar com a realidade e as narrativas daqueles que vivenciaram o sofrimento. “A realidade é mais importante do que as ideias”, observou.

O arcebispo recordou a passagem de Atos 11:16-18, na qual o apóstolo Pedro faz, em Jerusalém, perante os fiéis circuncidados, o relato do chamado Pentecostes dos pagãos em Cesareia nestes termos: “Então lembrei-me da palavra do Senhor, quando disse: ‘João batizou em água, mas vocês serão batizados no Espírito Santo.’ Ora, se Deus lhes deu o mesmo dom que nos deu quando cremos no Senhor Jesus Cristo, quem seria eu para resistir a Deus?’ Ao ouvirem isso, eles se acalmaram e começaram a glorificar a Deus, dizendo: ‘Então Deus concedeu também aos gentios o arrependimento e a vida!’”.

A exemplo do acontecido na diocese de Chiavari, muitas das boas práticas com pessoas homossexuais e transgénero na Diocese de Florença estão intimamente ligadas ao caminho sinodal vivido nos últimos anos, por iniciativa da Conferência Episcopal italiana. Segundo o arcebispo Gherardo Gambelli, elas são “fruto do discernimento comunitário que aprendemos e redescobrimos nos últimos anos, desde o discurso do Papa Francisco em Florença, em 2015”.

“Ao acompanhar a jornada sinodal das Igrejas na Itália, alguns membros do grupo Kairos puderam dar seu testemunho, o que gradualmente desfez muitos preconceitos, medos, reservas e estereótipos”, asseverou o responsável católico.

Francesco Savino, bispo de Cassano all'Jonio e vice-presidente da Conferência Episcopal Italiana. Foto disponível no site da Rede Global de Católicos do Arco-Íris (GNRC).

Francesco Savino, bispo de Cassano all’Jonio e vice-presidente da Conferência Episcopal Italiana. Foto disponível no site da Rede Global de Católicos do Arco-Íris (GNRC).

A síntese final dos trabalhos foi feita pelo padre Luca Lunardon, especialista em teologia pastoral, que partiu do relatório final do Grupo de Estudos nº 9 do Sínodo Universal. Na descrição de Innocenzo Pontillo, o teólogo lembrou que “Jesus nunca encontra as pessoas com base em preconceitos ou rótulos, mas sim na singularidade das suas histórias”. E derrubou uma crença ainda difundida: a de que não é preciso colocar primeiro a vida em ordem para encontrar o Senhor. É o oposto que acontece: “Primeiro encontras Jesus, talvez de uma maneira inesperada e não convencional, e então a tua vida é convertida e transformada”, acrescentou.

Quando falhamos em traduzir essa visão evangélica clara em escolhas pastorais, “o problema não são as situações que não conseguimos compreender, mas nós mesmos como Igreja, como estruturas, como experiência eclesial”, segundo Lunardon.

Marcante foi também a intervenção final do arcebispo de Cassano all’Jonio, também vice-presidente da Conferência Episcopal Italiana, Francesco Savino, que começou por recordar o Jubileu de 2025 que vivenciou com pessoas LGBT+ em Roma, descrevendo-o como “uma experiência epifânica, uma grande revelação” e “uma das mais belas experiências” que ainda guarda com carinho.

“Eu converti-me”, afirmou o hierarca, explicando que também os pastores devem aceitar ser convertidos “pelos acontecimentos, pelos sinais dos tempos, pelas pessoas, pelas histórias e pelos rostos”. Para ele, as boas práticas não são “protocolos a serem arquivados”, mas sim os nomes e as histórias de homens e mulheres que bateram às portas das comunidades, muitas vezes com medo e feridas profundas, e que, por vezes, encontraram alguém com a coragem de abrir. Quando a Igreja se faz carne, disse ele, o Evangelho recupera a credibilidade. Porque hoje, a questão não é apenas o que a Igreja ensina, mas se ela ainda é credível ao ensinar.

Cruz colorida. LGBTI

Um cruz colorida que remete para o universo LGBT+. Foto: Direitos reservados.

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