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Dois homens formam coração com as mãos, homossexualidade. Foto D-Keine
Dois homens formam coração com as mãos, homossexualidade. Foto © D-Keine

Aos católicos conservadores (2)

O caminho proposto pelo Grupo 9 em relação à comunidade LGBTQ é inevitável

| 31/07/2026

 

Nesta segunda parte da sua carta aberta às irmãs e irmãos católicos conservadores a propósito da reação que tiveram contra o conteúdo do relatório do grupo 9 criado pelo Papa Francisco sobre as “questões emergentes”, o padre James Alison mostra como deviam ser esses setores a aplaudirem com maior veemência as proposições daquele relatório sobre as relações da Igreja com a comunidade LGBT. (A primeira parte pode ser lida num texto anterior do 7MARGENS)

Mãos

‘A “geração de 1986” é um termo que inventei para descrever o número considerável daqueles de entre nós cuja vida adulta na Igreja foi sobredeterminada pela necessidade oficial de manter como válida a afirmação de que “a tendência [homossexual] em si deve ser considerada objetivamente desordenada”.’ Foto © Site Courage Internacional

Agora, tendo tentado mostrar primeiro por que razão a situação atual é insustentável e por que, portanto, qualquer liderança católica sensata teria que tentar alterá-la, gostaria de entrar um pouco mais nos detalhes para mostrar por que algo do que foi sugerido pelos sinais dados pelo Papa Francisco e pelo Grupo de Estudo 9 não só era inevitável, mas, na verdade, é o caminho conservador a seguir.

E para isso vou falar sobre como tem lidado com tudo isto aquela que se poderia chamar de “a geração de 1986”. A “geração de 1986” é um termo que inventei para descrever o número considerável daqueles de entre nós cuja vida adulta na Igreja foi sobredeterminada pela necessidade oficial de manter como válida a afirmação de que “a tendência [homossexual] em si deve ser considerada objetivamente desordenada”. Entre essas pessoas estão, obviamente, além de eu mesmo, muitos dos meus amigos e colegas, meus irmãos (na maioria) e irmãs do Courage e de outros movimentos relacionados, bem como inúmeros responsáveis em todos os níveis da vida da Igreja.

A fonte de confusão e dificuldade tem sido a lacuna de significado entre a lógica apriorística (7) presente no documento de 1986 – a Homosexualitatis Problema que incluía a famosa frase “embora a tendência homossexual não seja, em si mesma, um pecado, é uma tendência mais ou menos forte para atos que são, em si mesmos, intrinsecamente maus e, portanto, ela (a tendência) deve ser considerada objetivamente desordenada” – e a esfera de significado na qual qualquer pessoa moderna se insere e que pode levá-la a aplicar o ensinamento de uma forma ou de outra.

Essa é, de facto, exatamente a mesma lacuna de significado que se abriu entre a lógica a priori da Humanae Vitae e a biologia reprodutiva vivida pelos casais heterossexuais num mundo com uma ginecologia mais desenvolvida. E, entre os heterossexuais, a transição de uma compreensão da biologia e dos atos sexuais baseada no a priori para uma compreensão relacional que acaba de ocorrer de forma massiva.

No entanto, no caso de gays e lésbicas, a lacuna não se abriu entre a lógica e a nossa biologia reprodutiva, mas – independentemente de quem formulou o ensinamento ter percebido isso ou não – entre a lógica e a nossa psicologia, o que, portanto, implicava a nossa própria capacidade de nos posicionar, falar, ser honestos e desenvolver relacionamentos publicamente.

Ou seja, isto entrou diretamente na mesma esfera que a compreensão antropológica em desenvolvimento a partir da década de 1950, que tornou cada vez mais evidente que não há patologia intrínseca no facto de ser gay ou lésbica, e que aqueles que são capazes de se aceitar, “assumir-se” e relacionar-se com os outros – família, parceiros, colegas, locais de trabalho – como realmente são, geralmente são capazes de prosperar de maneiras que aqueles que vivem a mesma realidade de forma furtiva e oculta não conseguem. Isso faz parte do que o Grupo de Estudo 9 chamou de “Realidade Emergente”.

Assim, o novo ensinamento trouxe à esfera pública a possibilidade de algo estar a ser ensinado ser, de facto, sem sentido, se tratado apenas como uma estrutura lógica necessária para sustentar outro ensinamento, sem intenção de ter qualquer incidência real sobre qualquer parte da subjetividade humana; ou, se tratado como uma afirmação na esfera do real, estaria a fazer uma alegação de verdade numa área que poderia estar – e, cada vez mais claramente, de facto está – sujeita à verificação empírica.

 

A anedota de Bogotá

Casamento entre pessoas do mesmo sexo

‘(…) nas décadas de 1980 e 1990, pensadores e grupos católicos começaram a inspirar-se na literatura e nas práticas de grupos evangélicos, como os associados à Exodus International. E, em pouco tempo, escritores católicos respeitados passaram a oferecer versões católicas das práticas evangélicas, às vezes conhecidas como “terapia reparativa”, ou “terapia de conversão”. Imagem: Casamento entre pessoas do mesmo sexo. © Etsy

Os defensores do ensinamento têm, de facto, oscilado entre negar que ele faça uma afirmação de verdade sobre uma patologia (os adeptos mais rigorosos da Lei Natural) e afirmar o(s) tipo(s) de patologia para o(s) qual(is) ele supostamente aponta. Na minha opinião, essa instabilidade oscilante não é culpa de nenhuma das partes: é inerente ao próprio modo de ensino o facto de produzir essa confusão.

Na verdade, os mesmos processos da modernidade que levaram muitas pessoas gays a “assumirem-se” (o desenvolvimento de uma subjetividade relacional e a capacidade de narrar uma história de si perante uma violência cada vez menor), também significavam que haveria, quase inevitavelmente, uma tentativa de, no polo oposto, concretizar a consequência lógica da “tendência objetivamente desordenada” na forma de alguma patologia identificável com evidências psicológicas. No mínimo, “apontar, de modo fácil, que há algo de errado” na maneira de ser das pessoas gays que nos leva a indicar essa forma patológica.

E foi assim que, nas décadas de 1980 e 1990, pensadores e grupos católicos começaram a inspirar-se na literatura e nas práticas de grupos evangélicos, como os associados à Exodus International. E, em pouco tempo, escritores católicos respeitados passaram a oferecer versões católicas das práticas evangélicas, às vezes conhecidas como “terapia reparativa”, ou “terapia de conversão”.

Uma anedota: estava em Bogotá, no verão de 2004, para uma conferência. Naquela época, estavam em andamento as primeiras tentativas de aprovar a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo no âmbito legislativo e judiciário colombianos. Essas iniciativas enfrentavam, sem surpresa, forte resistência eclesiástica.

Fui conversar com um representante da seção de família do CELAM (8). Fui recebido com muita cortesia pelo monsenhor e perguntei-lhe: “Deixando de lado a questão do casamento, o que estão a fazer (no CELAM), se é que estão a fazer alguma coisa, para criar espaço para os católicos LGBT na vida da Igreja?” Ele disse-me que tinham tentado levantar a questão em Roma, mas que o cardeal López Trujillo (um colombiano, que já havia sido presidente do CELAM e depois fora levado para Roma por João Paulo II para assumir a responsabilidade pelas questões da família) havia deixado bem claro que não haveria qualquer tipo de abertura nessa área.

O então presidente do CELAM, o cardeal Errázuriz (chileno), perguntou então à Congregação para a Doutrina da Fé (como era chamada na época): “Tudo bem, mas então o que gostariam que lêssemos para entender melhor essa questão? Podem recomendar alguma literatura que, do vosso ponto de vista, seja aceitável?” Não houve resposta. Alguns meses depois, os dirigentes do CELAM escreveram novamente à Congregação para a Doutrina da Fé (CDF). Nenhuma resposta.

Eles escreveram uma terceira vez e, após uma longa espera, receberam uma carta de resposta, assinada por um dos funcionários de baixa hierarquia da CDF, com uma lista dos nomes de quatro autores cujos livros foram considerados aceitáveis: Joseph Nicolosi (em inglês), Gerard van den Aardweg (em holandês), Tony Anatrella (em francês) e Aquilino Polaino (em espanhol). Todos esses autores promovem uma ou outra forma de “terapia de conversão”. O monsenhor estava tão desolado quanto eu, ao compartilhar a notícia de que isso era, literalmente, tudo o que a CDF podia recomendar como compatível com a sua doutrina.

 

Não existem pessoas gay

Philippe Lefebvre.

‘Foram necessários mais de dez anos de insistência heroica por parte do ilustre biblista dominicano (hoje membro da Pontifícia Comissão Bíblica) Philippe Lefèbvre, OP, para que a hierarquia francesa finalmente ousasse enfrentar o escândalo causado por ter fechado os olhos e os ouvidos para “não ver o mal, não ouvir o mal”.’ Foto: Philippe Lefebvre na conferência Les abus dans la Bible. © CORREF (Conférence des réligieux et relgigieuses de France)

Trago isso à colação porque fica claro que, pelo menos naquela época, aqueles considerados capazes de concretizar na prática o ensinamento de 1986 eram todos defensores públicos de teorias psicológicas amplamente refutadas, que, desde então, só têm sido cada vez mais refutadas. Não é de surpreender que, quando em 2005, a Congregação para a Educação publicou um documento proibindo que homens gays ingressassem no seminário (9), os argumentos utilizados se tenham baseado nas supostas patologias que os homens gays teriam e que os tornariam incapazes de exercer o sacerdócio, de tal forma que nem mesmo homens gays castos deveriam ser admitidos.

O principal artigo que apoiava e interpretava esse ensinamento no L’Osservatore Romano foi escrito por Tony Anatrella, um dos autores mencionados acima. O próprio Anatrella acabou caindo em desgraça devido às práticas de abuso sexual contra seminaristas e outros jovens que lhe foram enviados para serem “tratados contra a homossexualidade”.

Foram necessários mais de dez anos de insistência heroica por parte do ilustre biblista dominicano (hoje membro da Pontifícia Comissão Bíblica) Philippe Lefèbvre, OP, para que a hierarquia francesa finalmente ousasse enfrentar o escândalo causado por ter fechado os olhos e os ouvidos para “não ver o mal, não ouvir o mal”. Para eles, Anatrella tinha sido uma maneira muito conveniente para lidar com o problema dos seminaristas gays, alguém que contava com o apoio de figuras poderosas em Roma.

Para ilustrar a dificuldade, na prática, de encontrar estabilidade de significado após o ensinamento de 1986, vamos analisar, não o caso Anatrella, mas a posição padrão de Nicolosi (10). Essa posição sustentava que não existe algo como uma pessoa gay. O que chamamos de pessoa gay é, na verdade, uma pessoa intrinsecamente heterossexual que sofre de um grave distúrbio do desejo chamado “atração pelo mesmo sexo”, e que isso poderia, em princípio, ser alterado.

É possível perceber imediatamente como tal posição poderia ser atraente como interpretação do ensinamento de 1986. O problema é que ela efetivamente coloca o “paciente” na posição de não se aceitar como alguém com orientação para o mesmo sexo, mas como alguém com algo de errado dentro de si que pode ser corrigido. E quando esse algo de errado não muda, muitas vezes a pessoa vê-se, simultaneamente, odiando-se e, ainda por cima, envolvendo-se em encontros sexuais frequentes, furtivos e anónimos.

 

Saída: terapia de conversão!

A ONU, além de condenar as “terapias de conversão”, apela aos estados-membros que “tomem medidas urgentes para proteger as crianças e jovens de práticas de “terapia de conversão”.

Conheci e ouvi testemunhos de muitas dessas pessoas ao longo do tempo. Aquelas que conheci e ouvi foram, obviamente, pessoas que conseguiram seguir em frente e aceitar-se como eram. Elas descrevem aqueles que ficaram para trás em grupos como o Courage (e há vários grupos deste tipo) como estando tristemente obcecados com uma (elusiva) castidade, ao mesmo tempo que acreditam estar a ser fiéis à Igreja por não se aceitarem como são.

A instabilidade no ensinamento é bastante fácil de perceber na prática: seja qual for a teoria, se a orientação homossexual é tratada como algo de errado e que pode ser mudada, então, quando isso teimosamente não acontece, o homossexual vê-se abrigando dentro de si o que, na verdade, não é mais do que um elemento de depravação radical calvinista, um mal imutável que não leva a nenhuma forma de plenitude. Além disso, torna-se prisioneiro de uma série prejudicial e perigosa de práticas sexuais e de um profundo desespero subjacente que se manifesta na necessidade constante de atacar qualquer pessoa que não concorde com o seu vício por essa dor (11).

Por outro lado, quando o homossexual realmente se aceita e começa a perceber que não há nada de errado com ele, fica claro que é possível aprender a amar e a ser amado; relações estáveis e uma certa sensação de plenitude tornam-se possíveis; e que existe uma diferença entre sexo bom e sexo ruim. Por outras palavras, ele não consegue continuar a concordar que os atos que possa praticar sejam intrinsecamente maus.

Assim, deixa grupos oficialmente reconhecidos, como o Courage, e vai precisar de encarar o facto de que discorda dos ensinamentos da Igreja Católica numa questão que diz respeito à veracidade. Para alguns, essa pode ser uma experiência extremamente desafiadora, tamanha é a tentação de permanecer leal, mesmo que isso signifique não ousar ser humano.

Menciono o Courage aqui porque uma das testemunhas citadas pelo Grupo de Estudo 9 relatou ter sido encaminhada pelo Courage para uma “terapia de conversão”, e a liderança do Courage reagiu indignada com uma carta em que negava que fizessem tais coisas. Essa negação foi obviamente dissimulada: uma rápida análise dos palestrantes principais nas suas conferências anuais, bem como o que vários ex-membros testemunham a respeito das leituras aprovadas que lhes foram fornecidas, contam uma história diferente. No entanto, não quero julgá-los por isso, considerando que esses eram os únicos textos aprovados pela CDF para pessoas que buscavam ser leais ao ensinamento de 1986.

Se se considerar que o ensinamento de 1986 tem alguma incidência na psicologia, então ele tem um impacto prejudicial; se se considerar que o ensinamento de 1986 não incide na psicologia, então trata-se de uma manobra circular e sem sentido para proteger outro ensinamento [o da Humanae Vitae], e o facto de ter sido considerado necessário significa que o próprio ensinamento a ser protegido é posto em dúvida.

É possível perceber por que razão qualquer grupo que busque ser fiel à Igreja e ao seu ensinamento se vê, por sua vez, preso nas garras da instabilidade oscilante, cujo enfrentamento tem sido o destino da “geração de 86”. Como, afinal, isso poderia ser aplicado na prática de alguma forma que não seja, de facto, prejudicial ou sem sentido?

 

Atração indesejada?

José Ignacio Munilla

‘Na esteira do relatório do Grupo de Estudo 9, a defesa do Courage feita pelo bispo Munilla (seu mais veemente defensor espanhol) foi que eles não encaminham pessoas para terapia de conversão, mas apoiam “aqueles que buscam ajuda para a atração indesejada pelo mesmo sexo”.’ Foto: José Ignacio Munilla na Conferência Eucarística, Quito, setembro 2024.  © acidigital

Na esteira do relatório do Grupo de Estudo 9, a defesa do Courage feita pelo bispo Munilla (seu mais veemente defensor espanhol) foi que eles não encaminham pessoas para terapia de conversão, mas apoiam “aqueles que buscam ajuda para a atração indesejada pelo mesmo sexo”. Na prática, essa frase indica aqueles que não aceitam a sua orientação homossexual (nesse caso, a menos que se esteja a trabalhar para ajudá-los a aceitar a sua orientação, está-se a evitar a terapia de conversão apenas nominalmente).

Ou significa que se está a ajudar aqueles que aceitam a sua orientação homossexual, mas escolheram livremente, por conta própria (não sob ameaça do inferno ou da perda do emprego eclesiástico), levar uma vida celibatária, mas estão a enfrentar problemas com a luxúria do tipo que qualquer pessoa heterossexual, gay ou lésbica poderia ter, independentemente de seu estado de vida.

Se for o último caso, então… mesmo essas pessoas celibatárias não acreditam, em termos práticos, que a sua orientação em si mesma seja desordenada no que diz respeito ao seu objeto. Acreditam apenas que, nos seus casos particulares, a sua forma de realização – seja ela escolhida ou concedida por Deus – será a de uma pessoa solteira que aprenderá, esperançosamente com ajuda genuína, a doar-se sem usar ou abusar dos outros espiritualmente, emocionalmente ou sexualmente.

Essas pessoas celibatárias não ficarão assustadas nem ressentidas ao trabalhar honestamente ao lado de outras pessoas com a mesma orientação que, ao contrário delas, têm parceiros e projetos de vida compartilhados. Em outras palavras: elas também terão, de facto, saído do ensinamento de 1986.

Só para deixar isso claro: destaquei o Courage simplesmente por ter sido mencionado no depoimento do Grupo de Estudo 9. Eles (ao lado de outros grupos semelhantes cuja lealdade à promoção do celibato vem acompanhada de um deslizamento reconhecível para a promoção de terapias duvidosas, talvez até mesmo contra o seu próprio bom senso) são o mensageiro, e não a mensagem.

Todos nós, da geração de 86, lutamos juntos contra a instabilidade oscilante do significado que o pensamento a priori não pode deixar de introduzir no mundo do relacional, do conversável e do psicológico. E é aí que estamos. É por isso que estou a escrever esta carta aberta: para pedir àqueles de orientação mais conservadora que percebam que o que Francisco estava a fazer, e o que o Grupo de Estudo 9 está a tentar fazer, é muito mais conservador do que alguns de vocês lhes atribuíram.

Para concluir, gostaria de apontar algumas áreas óbvias em que a aplicação do que o Grupo do Sínodo propõe tenderá a ter resultados mais estáveis, mais conservadores e mais católicos.

 

1. Votos e promessas

Uma percentagem significativa daqueles que professam, ou buscam professar, votos ou promessas em diversas entidades eclesiásticas – clericais ou leigas – tem, de facto, orientação homossexual. De acordo com a sua atual doutrina, a Igreja não pode oferecer-lhes um contexto claro no qual possam fazer tais promessas ou votos.

Os envolvidos precisam de entrar numa espécie de jogo do tipo “não pergunte, não conte”, que pode ser usado contra eles posteriormente, ou podem ser ensinados a recorrer a complexas contorções verbais para se descreverem de maneiras convenientes aos seus superiores (por exemplo, “lidar com a atração pelo mesmo sexo”, em vez de “ser um homossexual profundamente arraigado”).

Aqueles que precisam de ser publicamente honestos geralmente são eliminados, e os melhores dissimuladores, ou contorcionistas, sobrevivem. Vários recém-formados do NAC (12) me descreveram como, ao chegarem a Roma, adotaram a “estratégia do submarino”: isso significava ser completamente obediente a tudo o que lhes fosse mandado fazer e nunca dizer nada que pudesse dar uma pista de como funcionava a sua vida íntima. Dessa forma, eles podiam sobreviver submersos e só então emergir à visibilidade, começando a revelar quem realmente são, após a ordenação, quando os seus bispos teriam de lidar com quem eles realmente são.

Mas a triste verdade é que, após seis ou sete anos vivendo submergidos, aqueles que permanecem, em vez de serem sobreviventes heroicos, com muita frequência tornam-se meramente mentirosos bem-sucedidos: homens de partido com a habilidade comum de sobreviver mentindo. Não é de admirar que uma geração anterior desses “produtos” achou tão natural encobrir abusos sexuais.

Além disso, é claro, há questões de validade relativas aos votos ou às promessas assumidos quando os candidatos foram levados a acreditar que, por haver algo de errado com eles, não tinham outra opção real na vida além do celibato. Talvez, anos mais tarde, eles finalmente percebam que não há nada de errado com eles, que não são heterossexuais “defeituosos” e que foram levados a acreditar em algo falso sobre si mesmos; no entanto, o órgão que recebeu os seus votos ou promessas é obrigado a seguir o ensinamento oficial.

Os seus votos ou promessas são, portanto, potencialmente nulos (13), mas o único órgão que poderia reconhecer essa nulidade está, ele próprio, oficialmente vinculado à sua própria falsidade. Mesmo quando os responsáveis do Dicastério em questão compreendem muito bem que é a pessoa gay ou lésbica em questão que está dizendo a verdade, e não o próprio sistema. Isso é obviamente insustentável.

Fica claro que este mundo só poderá tornar-se sensato, saudável e seguro quando se esperar que os candidatos sejam capazes de ser honestamente eles mesmos, sem medo de repercussões, independentemente da sua orientação; e, se sua vocação incluir o celibato, então esperar-se-á deles uma vida transparente desde o início. Eles receberão ajuda realista de outras pessoas da mesma orientação que aprenderam por experiência própria e são capazes de falar com honestidade.

Isto vale tanto para seminaristas, irmãs, leigos de institutos clericais, membros de confrarias quanto para outros. Só se tornará saudável quando houver uma linguagem compartilhada de veracidade que corresponda ao que as pessoas sabem que são, e não uma linguagem imposta com efeitos colaterais distorcidos. E certamente é isso que todas as pessoas conservadoras desejam: membros professos saudáveis de grupos católicos que sejam capazes tanto de viver quanto de dizer a verdade.

 

2.  A obediência

Homofobia. Homossexualidade

Manifestação em Estrasburgo, em Janeiro de 2013, contra a homofobia. Foto © Claude Truong-Ngoc | WikiCommons

A estrutura canónica católica é hierárquica e depende da obediência compartilhada. No entanto, mais uma vez, cria-se um mundo paralelo bizarro, no qual ninguém consegue dizer honestamente a verdade sobre o que sabe ser verdade – seja sobre si mesmo ou sobre os outros – aos seus superiores, por receio de que esses superiores, que podem ou não estar pessoalmente comprometidos com o ensinamento, mas precisam de o defender em público, decidam tomar medidas ou exijam que eles próprios ajam, de uma forma ou de outra.

O resultado é exatamente o tipo de arbitrariedade que torna impossível a verdadeira sinceridade e, consequentemente, a obediência. De facto, como poderia ser diferente um contexto em que a “verdade apriorística” mantém uma relação tão estranha e oscilante com o que as pessoas aprendem e sabem ser a verdade sobre si mesmas e sobre os outros?

Por que razão deveria, e como poderia, uma pessoa gay ou lésbica honesta ser genuinamente obediente a alguém que ela percebe perfeitamente ser um homofóbico que se odeia, alguém que tornou o ensinamento de 1986 funcional para suas próprias disfunções, que é alérgico à honestidade e recompensa aqueles que entram no seu jogo?

E como e por que razão um superior ou bispo honesto, que sabe que o ensinamento de 1986 é impraticável, deveria ser obrigado a defendê-lo publicamente, quando sabe que isso apenas distorcerá as consciências dos seus subordinados e, muitas vezes, será usado para tentar manipulá-lo – o superior ou Ordinário – a tomar decisões que sabe serem erradas?

Mais uma vez, para que a obediência e a partilha de consciências sejam reais, uma linguagem compartilhada de veracidade é um pré-requisito. Essa é mais uma razão pela qual as pessoas conservadoras deveriam estar encantadas com as propostas do Grupo 9 do Sínodo: elas estão a encorajar-nos a sair do mundo instável de definições estranhas com consequências psicológicas negativas e a entrar num mundo onde possamos aprender, a partir da experiência compartilhada, o que é realmente verdadeiro.

Isto pode então ser vivido de maneira tão direta que o testemunho não seja distorcido. Na verdade, tornar possível um testemunho verdadeiro é o que está aqui em jogo.

 

3. O princípio sem realidade

Um dos efeitos do princípio sem realidade – ou seja, a forma como o ensinamento oficial da Igreja nesse âmbito, até à Fiducia Supplicans, impedia qualquer tipo de discussão sobre como seriam relações de florescimento entre pessoas do mesmo sexo, ou como eles poderiam ser abençoados e celebrados – é revelar a autoridade doutrinária da Igreja como pateticamente fraca e sem nada de útil a dizer.

No mundo apriorístico que produziu as declarações que vimos, uma declaração monológica de uma posição absoluta deveria ser o fim de uma discussão. Num mundo que aprende de forma relacional e indutiva, uma declaração monológica, uma afirmação absoluta do tipo daquela feita em 1986, tem o efeito relacional de dizer apenas isto: “Nós, o órgão que emite a declaração, somos incapazes de entrar numa discussão racional sobre isso”. É uma confissão de impotência.

Isso significa que, na prática, o “ensino” sobre questões relacionadas com os homossexuais passa, com o tempo, a não ser um ensino, mas simplesmente uma barreira contra o desenvolvimento de um ensino, já que este só poderia surgir por meio da experiência, do testemunho, do discipulado e do discernimento ao longo do tempo.

E a barreira contra o desenvolvimento de um ensinamento passa a ser uma forma de manter fora da vida da Igreja um grande número de pessoas que se sentem (e têm razão em se sentir) desprezadas, ao mesmo tempo que permite a entrada daqueles que aprendem a sobreviver a um jogo desonesto.

Se você é conservador, certamente fica horrorizado com isto, pois percebe perfeitamente que isto leva a um fracasso de facto na catolicidade. Faz muito mais sentido partilhar uma Igreja com pessoas que desejam oferecer seus dons sendo elas mesmas, que são muito menos propensas a levar vidas duplas complicadas e furtivas, do que com aquelas que estão presas às oscilações instáveis de significado oferecidas pelo status quo.

O que poderia ser, então, melhor do que um processo de aprendizagem pelo qual descobrimos, juntos, quem somos e como nos encaixamos na vida de nossa Igreja; quais são as formas de plenitude que nos são próprias; e como, e de que maneiras, elas podem ser diferentes da maioria heterossexual? Não se trata de uma questão de ética sexual: trata-se de uma antropologia teológica da aprendizagem: a complexidade “pés na lama” da humanidade reconhecida na sua graça com os seus processos de aprendizagem. E o que poderia ser mais católico do que isso?

 

Quer queiramos, quer não

Gaudium et Spes

‘A [constituição pastoral do Concílio Vaticano II sobre a Igreja no mundo,] Gaudium et Spes, 36, ensinou com autoridade que: “se, por autonomia das questões terrenas, entendemos que as coisas criadas e as próprias sociedades gozam das suas próprias leis e valores, que devem ser gradualmente decifrados, utilizados e regulados pelos homens, então é inteiramente correto exigir essa autonomia.’

É claro que a mudança de paradigma descrita pelo Grupo de Estudo 9 está a ocorrer, quer queiramos quer não. Nesse contexto, a questão de “como nos tornamos verbalizadores da verdade católica nesse universo de significados diferente” será uma questão que exigirá paciência e delicadeza.

A [constituição pastoral do Concílio Vaticano II sobre a Igreja no mundo,] Gaudium et Spes, 36, ensinou com autoridade que: “se, por autonomia das questões terrenas, entendemos que as coisas criadas e as próprias sociedades gozam das suas próprias leis e valores, que devem ser gradualmente decifrados, utilizados e regulados pelos homens, então é inteiramente correto exigir essa autonomia. Tal não é exigido apenas pelo homem moderno, mas também se harmoniza com a vontade do Criador. Pois, pelo próprio facto de terem sido criadas, todas as coisas são dotadas de sua própria estabilidade, verdade, bondade, leis próprias e ordem. O homem deve respeitá-las à medida que as identifica por meio dos métodos apropriados das ciências ou artes individuais. Portanto, se a investigação metódica em cada ramo do conhecimento for realizada de maneira genuinamente científica e em conformidade com as normas morais, ela nunca entrará verdadeiramente em conflito com a fé, pois as questões terrenas e as preocupações da fé derivam do mesmo Deus…”

Fiquei muito satisfeito ao ver que o Papa Leão citou isto cuidadosamente na Magnifica Humanitas, parágrafo 20, e em seguida acrescentou: “Essa afirmação mostra que a criação traz a marca de uma bondade original que a nossa visão humana deve preservar, cultivar e levar à plenitude. Nesse sentido, a Igreja oferece-se de modo a ajudar a interpretar a realidade em toda a sua profundidade. Ela apoia, com humilde firmeza, as escolhas que promovem a dignidade de cada pessoa, a coesão das comunidades e o bem de todos.”

Suspeito que essa humilde e firmeza em apoiar escolhas para uma vida transparente e em ajudar-nos a interpretar a realidade que nos é própria nos mostrará como podemos sair dos becos sem saída que nos foram legados pelos padrões de pensamento por trás da Humanae Vitae, mesmo que a Gaudium et Spes, 36, já estivesse, há cerca de 60 anos, levando-nos em direção a uma metodologia mais indutiva.

 

Obrigado por compartilharem comigo.
Vosso irmão,
James

 

Notas

(7) Utilizo o termo “apriorístico” em vez de “lei natural”, pois o que está em questão é uma vertente específica da lógica da lei natural, e não a lei natural em si, pela qual tenho grande apreço.
(8) Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho, com sede em Bogotá.
(9) Instrução sobre os critérios para o discernimento vocacional de pessoas com tendências homossexuais, tendo em vista sua admissão ao seminário e às ordens sagradas
(10) Em contraste com o que veio à tona sobre Anatrella, conheci vários ex-pacientes ou clientes de Nicolosi que relataram que ele era um homem gentil e amável e que, mesmo depois de lhe terem dito que iam deixar o tratamento – por não terem experimentado nenhuma mudança no seu desejo, ou por se terem apaixonado e encontrado a felicidade –, ele não ficou zangado nem os julgou.
(11) Numa cidade australiana na qual fui convidado a dar algumas palestras em 2010, o bispo local, para minha surpresa, recebeu-me com muita gentileza. Ele alertou-me que havia do tipo de caçador de heresias antigay na região, que poderia tentar atacar-me publicamente durante a minha visita, mas que, se isso acontecesse, eu não deveria preocupar-me: “Sei exatamente onde é o seu ponto de conquista favorito”, disse-me.
(12) North American College (o seminário mantido em Roma pela Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos, para formar os seus seminaristas “de ponta”).
(13) Como seria obviamente no caso de um casamento em que uma das partes já vinha manipulando a outra desde antes da troca de votos.
(14) Ele cita apenas a primeira frase, mas incluí o restante do parágrafo para deixar claro o que o parágrafo expressa.

 

 

James Alison é inglês, presbítero católico e teólogo. Este texto foi publicado inicialmente no seu blogue pessoal e é aqui reproduzido com autorização do autor. O título e os subtítulos são da responsabilidade da redação do 7MARGENS

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