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"Principal figura da Igreja Protestante moçambicana, Zedequias Manganhela foi encontrado morto na noite de 10 para 11 de dezembro de 1972, na cela n.° 6 do pavilhão 7 da cadeia da Machava." Foto: DR

Livro sobre a PIDE

O estranho «suicídio» do pastor Zedequias Manganhela

 

Um dos líderes cristãos de Moçambique, o pastor Zedequias Manganhela, da Igreja Presbiteriana, terá sido assassinado, em dezembro de 1972, pela PIDE/DGS, a polícia política do Estado Novo, durante o tempo que passou na prisão da Machava

Esta é uma das histórias que o jornalista José Pedro Castanheira recupera no segundo volume de Histórias da PIDE, que leva o subtítulo Quando era a DGS de Caetano. (volume 1: ver 7MARGENS)

O livro será apresentado nesta quarta-feira, 16, a partir das 18h30, no auditório do Liceu Camões, em Lisboa, com intervenções da historiadora Maria Inácia Rezola, responsável da Comissão Comemorativa 50 anos do 25 de Abril, e por Fernando Marques Mendes, antigo padre do Macúti, um dos que denunciou os massacres cometidos pelo Exército português na então colónia de Moçambique. É como convite à leitura que o 7MARGENS reproduz a seguir, com autorização do autor e da editora (Tinta-da-china), o texto sobre a morte do pastor Zedequias Manganhela.

 

O estranho «suicídio» do pastor Zedequias Manganhela

Principal figura da Igreja Protestante moçambicana, Zedequias Manganhela foi encontrado morto na noite de 10 para 11 de dezembro de 1972, na cela n.° 6 do pavilhão 7 da cadeia da Machava. Segundo a DGS, apareceu enforcado. As autoridades portuguesas insistiram sempre na tese do suicídio, firmemente rejeitada pelo pastor protestante suíço Marcel Vonnez: «Quando recebi o telefonema no dia 11 de dezembro, a dar a notícia, e a PIDE estaria certamente à escuta, comentei logo: não foi suicídio. Nunca acreditei que tivesse sido suicídio. Conheci-o muito bem, viajei com ele por todo o território de Moçambique, não era homem para se suicidar. Sempre confiou em Deus, sempre teve fé e esperança, e suicidar-se seria cortar a ligação a Deus. Esta também era a convicção da viúva.»

O serviço fúnebre decorreu no grande templo de Khovo, no centro de Lourenço Marques. Vonnez, seu amigo, vizinho e pastor da mesma igreja, foi um dos concelebrantes: «No dia do funeral havia uma multidão, silenciosa e digna, que enterrava o seu mártir e dizia interiormente ‘Viva a Frelimo!’» O rosto do cadáver estava retocado, por forma a disfarçar os sinais da violência. Era apenas visível uma mão, estranhamente coberta por uma luva. Só mais tarde Vonnez percebeu porquê: as unhas teriam sido arrancadas sob tortura.

Semanas depois, no âmbito de um inquérito mandado instaurar às circunstâncias da morte, a viúva de Manganhela pediu a Vonnez para a acompanhar na exumação do cadáver. À entrada da morgue, porém, o suíço foi proibido de entrar. A viúva não se demorou mais do que 15 minutos. À saída, os seus olhos falavam por si e transmitiam a certeza de que o marido fora torturado até à morte. «Não tenho dúvidas em como ele foi assassinado.»

Posteriormente, a filha mais velha do líder da Igreja Protestante moçambicana recolheu o testemunho de um enfermeiro que recebera o seu pai na enfermaria da prisão no dia da morte. «Segundo esse enfermeiro, ele tinha sido torturado e já agonizava quando chegou à enfermaria.»

As autoridades portuguesas, no entanto, sempre se esforçaram por sustentar a tese oficial do suicídio, mesmo depois de um inquérito mandado instaurar pelo Governo de Marcello Caetano. Foto: Zedequias Manganhela. DR

As autoridades portuguesas, no entanto, sempre se esforçaram por sustentar a tese oficial do suicídio, mesmo depois de um inquérito mandado instaurar pelo Governo de Marcello Caetano. O próprio inquérito, apesar de confirmar o suicídio, não deixou de referir que ele terá ocorrido «só depois de constante tortura, tratamento comum infligido aos presos da Machava».

Indiscutível, pois, é o facto de Manganhela ter sido submetido durante meses a um regime de isolamento total e alvo de prolongada e violenta tortura. Segundo os historiadores Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus (Nacionalistas de Moçambique. Da luta armada à independência, Texto Editores, 2010), o principal carrasco foi o inspetor Francisco Lontrão, um histórico da PIDE/DGS que participara na Guerra Civil de Espanha, voluntário nas forças fascistas do general Franco.

Nascido em 1912, desde sempre ligado à chamada «missão suíça», Manganhela era o presidente da Igreja Presbiteriana de Moçambique (IPM). Eram conhecidas as suas relações de amizade e admiração por Eduardo Mondlane, igualmente protestante, fundador e primeiro presidente da Frelimo, assassinado pela PIDE a 3 de fevereiro de 1969 através de uma carta-bomba enviada para a sede do movimento de libertação em Dar-es-Salam, na Tanzânia.

Em 1966, num encontro que tiveram em Genebra, Mondlane chegou a convidá-lo para vice-presidente daquele movimento. Manganhela não aceitou o convite, para não comprometer politicamente a Igreja de que era o líder e por não se achar com competência para o cargo. Segundo aqueles historiadores, Manganhela tentou convencer Mondlane «a não fazer guerra», ao que este terá respondido que «os colonialistas portugueses não deixariam Moçambique de sua livre vontade». Na opinião de Marcel Vonnez, «certamente Manganhela queria a libertação do seu povo».

 

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