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Prefácio ao livro "Teorbas da Palavra"

O espaço nártex da homilia. A fração comunitária da Palavra de Deus

| 01/08/2026

No primeiro dia da semana, estando nós reunidos para partir o pão, Paulo, que devia partir no dia seguinte, começou a falar com eles (διελέγετο) e prolongou a sua pregação (λόγον) até à meia-noite. Havia bastantes lâmpadas na sala de cima, onde estávamos reunidos.

Ora, um jovem chamado Eutico, que estava sentado numa janela, adormeceu profundamente, enquanto Paulo se alongava no seu sermão (διαλεγομένου ἐπὶ πλεῖον). Dominado pelo sono, caiu do terceiro andar e levantaram-no já morto. Paulo desceu e, lançando-se sobre ele, apertou-o nos braços e disse: «Não façais barulho, pois a alma ainda está nele.» Depois, voltou para cima, partiu o pão, comeu e falou (ὁμιλήσας) demoradamente até de madrugada. Só então se retirou. Quanto ao jovem, levaram-no vivo, o que foi motivo de grande consolação.

Atos 20, 7-12

Dois mil anos depois, da escuridão do passado, chega até nós, com o poder milagroso da vida que nenhuma morte pode quebrar, uma noite sem data nem morada, em que se celebra uma missa como tantas outras, interrompida repentinamente por um acontecimento dramático.

Partido de Filipos em direção a Jerusalém, Paulo para sete dias em Trôade, uma península no noroeste da Anatólia, que deve o seu nome à mítica cidade de Tróia. Paulo não é um turista nem um intelectual. Não visita ruínas em busca de emoções literárias. Não vai à procura das sombras de Heitor e Aquiles, ou dos vestígios do sangue antigo dos guerreiros caídos em batalha nas águas do Escamandro. Em vez disso, concentra-se inteiramente na pequena comunidade já recolhida em volta dele numa estadia anterior (At 16,8-11), para lhe transmitir o anúncio (kerigma) de Cristo Jesus, de quem é «apóstolo por mandato de Deus» (1Tim 1,1). Os dias são escassos: «obedecendo ao Espírito, sem saber o que lá o espera» (At 20, 22), Paulo tem de ir a Jerusalém e não pode atrasar a viagem. No entanto, a urgência do que fica por dizer insta-o: na última tarde antes de partir, Paulo «prega sem parar» (διαλεγομένου ἐπὶ πλεῖον), inflamando os seus interlocutores com a mesma febre da Palavra que queima a sua vida.

Desce a noite. Acendem-se as lâmpadas na sala sobrelotada, onde está reunida a pequena comunidade. O ambiente torna-se ofegante: um jovem senta-se no parapeito da janela para apanhar uma lufada de ar fresco, mas, cansado pela hora tardia e pela excitação acumulada, adormece, cai do terceiro andar e morre na hora[1]. No meio da consternação geral, Paulo permanece sereno e apela à calma: «Não fiqueis inquietos». Com um abraço, ele não devolve a vida ao rapaz, mas reencontra-a nele («a vida ainda está nele»)[2]. A seguir, retoma a liturgia interrompida e continua a «conversar» até ao amanhecer, no meio do consolo geral.

[Capa e badanas: fotografias © Joaquim Félix de Carvalho [2019]: esculturas de Manuel Rosa, apresentadas no Centro Internacional das Artes José de Guimarães [em Guimarães, durante a exposição «Clareira»]

A sabedoria narrativa do autor esculpe uma página inesquecível, que nos transmite com simplicidade a essência da celebração eucarística: partir o pão e a Palavra, o corpo do Verbo, e construir nesta partilha a «consolação» (παρεκλήθησαν) viva, ativa e eficaz, de ser uma comunidade salva. Paulo está no centro da cena, mas não é o seu centro. Este consiste propriamente na celebração de uma condição de comunhão da comunidade que é expressa inequivocamente pelo termo ὁμιλέω.  Traduzida para português pelo vocábulo «falar», em grego a palavra designa, antes de mais, o estar juntos, em companhia, e, portanto, subordinadamente, o discorrer sobre um assunto comum considerado muito importante[3].

A fala de Paulo que dura toda a noite, até de madrugada, não é então um monólogo solitário, uma catequese verticalmente unidirecional, em que o povo fica passivamente a ouvir. O discurso (logos) de Paulo é pelo contrário um homileó: uma conversa, um confronto dialógico (dialegomai), não puramente conceptual, mas impregnado de uma profunda tensão espiritual e emocional, porque nele está em jogo o que mantém unidos, o que faz comunidade. É precisamente o mesmo tipo de fala em que estão envolvidos os dois discípulos a caminho de Emaús, quando «conversavam entre si (ὡμίλουν) sobre tudo o que acontecera» em Jerusalém, de forma que «enquanto conversavam (ἐν τῷ ὁμιλεῖν) e discutiam (συζητεῖν), aproximou-se deles o próprio Jesus e pôs-se com eles a caminho» (Lucas 24, 14-15). Homileó, falar da Palavra de Deus e do que acontece com Ela e por Ela, significa falar em comunidade daquilo que torna comunidade. Significa partir juntos o pão da Palavra para reconhecer, neste gesto, Jesus (Lucas 24, 35), e reconhecer-se corpo vivo d’Ele, santificado pela graça do Espírito.

A página dos Atos sobre a celebração eucarística em Trôade destaca, portanto, em termos muito claros, a dimensão comunitária e sinodal da conversa sobre a Palavra de Deus, a homilia, no âmbito da celebração eucarística, salientando que esta é radicalmente mal interpretada quando for reduzida (como aconteceu frequentemente no passado e não deixa de acontecer ainda hoje) a uma lição catequética por parte do celebrante, que instrui o rebanho sobre verdades de cuja definição teológica e interpretação teologal o pastor é o único detentor e juiz.

A homilia de Paulo dura toda a noite porque é uma conversa apaixonada com a comunidade, uma troca aberta, não isenta de incidentes dramáticos como aquele em que incorre Eutico, não isenta de dúvidas e perguntas como aquelas que atormentam os dois discípulos em fuga de Jerusalém. A homilia paulina, como a de Cléofas e do seu anónimo condiscípulo, não são um pacote de respostas pré-fabricadas e definitivas às quais o povo deve simplesmente conformar-se. É, antes, uma partilha autêntica do exercício da compreensão e da interrogação, uma escuta comum e dialogante da Palavra de Deus e do seu mistério inesgotável, um avançar juntos mistagógico e teológico, ao qual Jesus «se aproxima e acompanha» (ἐγγίσας συνεπορεύετο), para participar nele com tanta intimidade que faz «arder o coração, de quem conversa pelo caminho», Lc 24, 32).

A Palavra e tudo o que lhe acontece em Jerusalém, na história, é o corpo de Deus partido pela comunidade na homilia (na conversa mistagógica, sapiencial e teológica) que acompanha a partilha do Pão, a celebração da Eucaristia, no momento litúrgico fundador da comunidade eclesial, e só ao realizar efetivamente esta sua dimensão genuinamente homilética – comunitária e dialógica – o celebrante dá pleno cumprimento ao significado litúrgico desta parte do rito eucarístico.

[Dos ferreiros místicos. A dureza faz-se luz. / Folha de videira no outono. Campo em Santa Marta. Fragoso. Fotografia © Joaquim Félix]

O católico que vai regularmente à missa festiva (aquela em que é prevista a homilia) sabe bem como é raro e, portanto, ainda mais precioso, o dom de uma verdadeira homilia, que o coloca na condição de uma conversa interior autêntica com os irmãos em torno da Palavra de Deus e da sua presença no hoje da sua própria experiência (aquele Sitz im Leben da Palavra não na vida do autor da Escritura, mas do seu leitor). Muitas vezes, a pregação fica presa nas areias movediças da automação repetitiva, no hábito que se torna enfadonho (soporífero, diria Swift), do exercício escolar de uma exegese simplisticamente informativa, superficialmente genérica, ou no solipsismo arrogante do pregador, mais preocupado em exibir os seus conhecimentos superiores ou a sua opinião doutrinária do que em partilhar genuinamente a Palavra de Deus na ativação espiritual e recetiva do sensus fidei da assembleia. O resultado é um empobrecimento radical deste momento essencial do rito, o seu desperdício.

Recuperar o autêntico sentido litúrgico da homilia não consiste em fazer dela literalmente um diálogo (algo possível apenas em dadas ocasiões e lugares, em pequenos círculos caracterizados por uma tradição de frequentação e um conhecimento mútuo consolidados). O que é preciso é pensar a homilia como diálogo: articulá-la numa dinâmica acolhedora e hospitalar, que toma em conta o contexto específico da assembleia: o local e o tempo; as pessoas presentes, sejam elas conhecidas ou não; o quadro geral da sociedade e do momento histórico em que ocorre a celebração.

[Se já nem se vê ou sente o que é visível. / Folha de Aloé-das-montanhas (Aloe ferox) junto à igreja da Camacha, Ilha da Madeira. Fotografia © Joaquim Félix]

A homilia introduz, de facto, uma janela de contingência e singularidade radicais numa arquitetura ritual tendencialmente uniforme e imutável, que se altera só liminarmente, com base nas variantes marcadas pelo calendário litúrgico, pelas ocorrências especiais e pela solenidade (entre missas baixas e solenes, de sufrágio ou de ação de graças). Embora as diferenças determinadas pelo espaço físico da celebração, pela participação, o acompanhamento musical, a gestualidade do celebrante e da assembleia, possam ter um impacto significativo do ponto de vista da recepção, a estrutura ritual do rito romano é praticamente intangível e a Liturgia do dia será a mesma, embora em línguas diferentes, em todas as igrejas católicas do mundo, com exceção de ajustes pontuais devidos a necessidades locais específicas. No entanto, as palavras que o padre usa na homilia são diferentes em cada igreja, situando o rito num tempo, num espaço, num contexto comunitário únicos e irrepetíveis. Só a homilia que se apresenta como uma conversa autêntica com essa singularidade histórica e comunitária, que acolhe sinodalmente as instâncias da assembleia, confrontando-se autenticamente com as suas perguntas, em vez de apresentar respostas assepticamente pré-fabricadas, consegue desempenhar eficazmente a sua função mistagógica, teologal e sapiencial de abrir os olhos dos fiéis à Palavra de Deus, fazendo-a «reconhecer» (ἐπέγνωσαν) como presença operante no contexto da sua vida: «Então os seus olhos abriram-se e reconheceram-no» (Lc 24, 31).

Esta medida de contingência e liberdade radical introduzida pela homilia no coração da arquitetura universal do rito é efetivamente cheia de riscos, como ensina a página de Atos 20: as coisas podem correr mal e é isso que acontece muitas vezes, não por ocorrer algo de dramático como em Trôade, mas precisamente por não ocorrer absolutamente nada. Muitas vezes as lâmpadas apagam-se antes do tempo. Os fiéis voltam depressa para casa, sem querer ficar até ao amanhecer, sem levar nada consigo. A sua vida não foi questionada pelas palavras do celebrante. A homilia não foi uma conversa com as suas consciências à luz da Palavra de Deus. Se não adormecer (mesmo que apenas metaforicamente) durante o sermão, como o fiel descrito por Swift, quem assistiu à missa esquece o que foi dito assim que sai da igreja, quando não volta para casa irritado (o que pode acontecer) porque o clérigo andou a expor opiniões pessoais controversas em vez de partilhar a Palavra de Deus.

[Dança de jovens junto à Fontana dei Leoni. Piazza del Popolo. Roma. Fotografia © Joaquim Félix]

Ainda que estatisticamente muito alto, o risco é, todavia, necessário, e nenhum reformador jamais propôs substituir a homilia, muitas vezes acidentada, do sacerdote de plantão, por pacotes de textos padrão, adquiridos no balcão do mais refinado laboratório exegético e teológico da Santa Madre Igreja. A janela de singularidade aberta pela homilia na celebração eucarística é uma imprescindível ponte sapiencial e teologal com a existência do fiel, é um vetor essencial do sensus fidei da assembleia, na sua experiência fulcral de comunidade, e é, portanto, ineliminável. A santidade santificante do rito não se define por sermões perfeitos, mas por homilias autênticas, que «acendem os corações», que movem Jesus a «aproximar-se» e «fazer um trecho do caminho» com os discípulos envolvidos numa conversa (homilia) apaixonada sobre a Palavra e o que lhe acontece em Jerusalém, no mundo. Talvez Jesus repreenda os fiéis por não terem compreendido nada: «Ele disse-lhes: “Ó insensatos e tardos de coração para crer em tudo o que os profetas disseram!”» (Lc 24, 25), mas no final abrir-lhes-á os olhos, revelando-se.

[Andorinhas-das-barreiras (Riparia riparia) iniciando o voo do bando, a partir do cabo dos postes de eletricidade. Barrosa. Fragoso. Fotografia © Joaquim Félix]

O celebrante não fala, portanto, da cátedra, mas sim da estrada em que caminha a sua comunidade, partilhando as suas «alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias», que são também «as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem», como declara, com força inesgotável, o Proémio da Gaudium et Spes. A janela aberta pela homilia no rito da celebração eucarística, janela reflexiva, sapiencial e teologal sobre o presente da comunidade e, portanto, de «toda a família humana», na vocação constitutivamente católica e universal da assembleia cristã, é um recurso profético que germina no coração do culto e que, como tal, deve ser cultivado com amor e inteligência espiritual pelo celebrante e pela assembleia, combatendo a indiferença e a apatia que correm o risco de sufocá-la nos espinhos (Lc 8, 7) do acostumamento à rotina e ao formalismo de uma ordem presbiteral esvaziada, reduzida a corpo separado da comunidade e da história.

Por isso, alegram e dão esperança experiências inovadoras e corajosas de revitalização do instituto litúrgico da homilia, como a que tem vindo a realizar nos últimos anos o Padre Joaquim Félix de Carvalho. Com este terceiro volume das suas Teorbas – homilias que executam com admiração maravilhada e consumada perícia a partitura da Palavra de Deus -, o presbítero da diocese de Braga, Vice-Reitor do Seminário Conciliar de São Pedro e São Paulo dessa cidade, professor de teologia da Universidade Católica Portuguesa e poeta, constrói uma nova etapa do seu percurso, original e coerente, poeticamente imaginativo e teologicamente rigoroso, em repensar as linguagens, o estatuto e a disseminação do instituto da homilia.

[Ensaiar para a flor do salto. Frágil fasquia do tempo. / Mulher vestida de sol (2011). Autora: Ilda David’. Capela Árvore da Vida. Braga. Fotografia © Joaquim Félix]

É necessário devolver à homilia a sua força de ponte entre o interior e o exterior da comunidade e do rito, zona de fronteira não no sentido de separação, mas de articulação fecunda entre celebração e discernimento comunitário, entre contemplação do mistério da Palavra e exercício crítico de escrutínio da experiência individual e coletiva de fé, do tempo atual e da presença cristã nele. É «a unidade da Lei, do culto e da moralidade» que, como lemos num dos textos publicados neste terceiro volume[4], deve resplandecer na celebração litúrgica para se derramar na vida dos fiéis. É a unidade da experiência de fé entre a dimensão espiritual e secular que, na sua complexidade não livre de contradições, deve encontrar expressão no esforço hermenêutico em que se envolve toda a comunidade dos crentes em torno do seu pastor e que, na homilia, conhece um resultado nunca definitivo, nunca absoluto, mas que, se genuinamente dialogante e livre, pode ser extremamente fecundo.

Como destacado por uma bela imagem proposta pelo autor, neste percurso partilhado com a comunidade eclesial de Braga, as homilias surgem como um espaço nártex, que amplia o abraço da Igreja para aquilo e aqueles que estão fora dela, mas não lhe são estranhos: experiências e almas que se encontram no limiar do mistério de Cristo, que são por Ele tocadas, d’Ele às vezes inconscientemente portadoras, por Ele incessantemente chamadas, para Ele encaminhadas, numa transição que o cristão não pode e não deve pretender governar, mas deve acompanhar e acolher com gratidão e esperança, como semente de futuro, fonte de renovação:

Como e em que lugares poderíamos contar
as nossas histórias qualificadas pela bênção de Deus?
Na liturgia romana, durante os primeiros séculos,
os cristãos dirigiam-se para um «ponto de encontro», uma igreja;
depois, seguiam para outra, cantando, onde celebravam a Eucaristia.
Este estilo de celebração ficou conhecido por «liturgia estacional»,
porque celebravam na igreja onde paravam, na «estação». […]

7. Tendo conhecimento deste estilo romano
e de outras formas de «preparação espiritual antes da missa»,
pergunto: nas comunidades de que fazemos parte,
não se poderia realizar um momento de transição,
antes da missa, para contar o que Deus tem feito connosco?
Seria um tempo nártex, em lente, para celebrar com mais gratidão.
A narração das nossas histórias não abriria portas da fé,
para sair de muitas expressões nostálgicas e adversativas?
Aquele que está sentado no trono dizia:
«Vou renovar todas as coisas» (Ap 21,5).
Não estará Ele a renovar já, agora mesmo, algumas?

(24. Do Diário ao tempo nártex
[Domingo v do tempo pascal – c ― 2025. Último dia da semana da vida])

[Todo o meu corpo é luz esplendorosa. Luz religiosa. / Lâmpada suportada por uma vergôntea. Floresta ripícola do Rio Neiva. Fragoso. Fotografia © Joaquim Félix]

No espaço nártex da homilia, o Padre Joaquim Félix de Carvalho acolhe e dá voz às presenças reconhecíveis dos membros da assembleia, sejam eles amigos, conhecidos, parceiros ou simples interlocutores. Acolhe e dá voz às múltiplas linguagens das mais diversas formas de arte: cinema, poesia, música, fotografia… ressoam nas cordas das suas teorbas, tornando a sua melodia mais rica, o seu som mais poderoso. Sequências cinematográficas alternam-se com páginas de literatura, trechos de canções alinham-se com belas fotografias tiradas pelo autor para ilustrar paisagens da alma, intuições espirituais, interrogações morais, constelações emocionais de alegria ou tristeza, de pertença ou descoberta. O enraizamento no horizonte territorial muito concreto que se alonga no Baixo Minho entre Braga e Barcelos, amorosamente acariciado no costume da contemplação, cultivado como um exercício espiritual fundamental, associa-se a um olhar criticamente consciente e eticamente vigilante sobre o cenário histórico mundial, cujos dolorosos acontecimentos atuais são acompanhados com atenção angustiada e a consciência ferida do cristão que não se resigna à violência e à injustiça, mas se empenha incansavelmente pela paz e pela dignidade humanas.

[Capa: fotografia © Joaquim Félix de Carvalho [2019]: escultura de Manuel Rosa, apresentada no Centro Internacional das Artes José de Guimarães [em Guimarães, durante a exposição «Clareira»]

O amor vivo pela beleza, a alegria que brota da frequência assídua das obras de arte e dos seus criadores, são parte importante da experiência espiritual pacientemente edificada pelo Padre Joaquim Félix de Carvalho com a sua comunidade na conversa sapiencial, mistagógica e teológica que são as suas homilias. As palavras e as imagens são para o autor lugares de beleza e revelação do transcendente na paciente tecelagem do pensamento e da comunicação como espaços de visibilidade do Verbo. Uma folha e uma flor, uma dança de jovens numa praça de Roma, são olhares a ser partilhados para abrir os olhos de quem lê e escuta ao reconhecimento da presença de Cristo na terra. As referências artísticas, as imagens cuidadosamente criadas e selecionadas, nunca são uma evocação gratuita de art pour l’art, um exercício estético concebido como fim em si mesmo, um ritual de entretenimento intelectual que nos desliga da consciência da fealdade e do mal que ferem o mundo. Os olhares de beleza que se acendem nas Teorbas deste livro são, pelo contrário, lâmpadas que denunciam tudo o que as contradiz: a violência, o materialismo, a indiferença em relação à natureza e à dignidade de cada ser humano, as feridas causadas pelo mal àquela coisa boa, muito boa e bela, que é a criação aos olhos de Deus, como ensina o primeiro capítulo do Génesis.

Há muita serenidade, mas também a sombra redentora de um sofrimento silencioso na música das teorbas da palavra composta por Joaquim Félix de Carvalho, e não poderia ser de outra forma, porque, como dizia o bom cura de Torcy, no Diário de um pároco de aldeia de Georges Bernanos, quando procurava transmitir ao confrade mais jovem o segredo da pregação: «Je prétends simplement que lorsque le Seigneur tire de moi, par hasard, une parole utile aux âmes, je la sens au mal qu’elle me fait.»[5]

 

 

Editora: https://officiumlectionis.pt/produto/joaquim-felix-de-carvalho-teorbas-da-palavra/

[1] Este episódio é também citado na abertura de «A Sermon upon Sleeping in Church» (1776), uma reflexão ironicamente edificante de Jonathan Swift sobre os efeitos soporíferos da pregação. A interpretação do acontecimento aqui proposta inverte, todavia, o ponto de vista do pastor e escritor irlandês: o rapaz não adormece de tédio, como pretendido por Swift, mas sim de cansaço, devido a um excesso de tensão.
[2] «“Porquê todo este alarido e tantas lamentações? A menina não morreu, está a dormir.”» (Mc 5, 39).
[3] Cfr. https://biblehub.com/greek/3656.htm.
[4] «12. Entrelaçar a Lei, o culto e a moralidade [Domingo xxii do tempo comum ─ b ─ 2024. Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação]».
[5] «Eu simplesmente pretendo, que quando o Senhor tira de mim, por acaso, uma palavra útil às almas, eu a sinta pelo mal que me faz».

 

Teresa Bartolomei é doutorada em Teoria da Literatura pela Universidade de Lisboa, investigadora do Centro de Investigação em Teologia e Estudos de Religião da Universidade Católica Portuguesa e professora convidada.

 

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