
Ativistas da rede rede Mesravot. Os cartazes brancos dizem “Liberdade para os prisioneiros de consciência”, e o preto “Não mataremos nem seremos mortos ao serviço dos colonos”. Foto © Mesravot.
Há jovens, em Israel, a fazer objeção de consciência, recusando-se a prestar serviço nas forças armadas, devido à política de ocupação de territórios palestinianos. Alguns dizem mesmo: “Fomos nós que criámos este monstro”.
Um caso é o do Mesravot, uma rede de ativistas e objetores (refuseniks). Uma das suas ativistas, Ella Keidar, de 17 anos e residente em Telavive, e Yehelich Cialic, coordenador da rede, responderam a algumas perguntas de Anna Polo, uma colaboradora da ONG Mundo sem Guerras e sem Violência, publicadas no site da Pressenza – Agência Internacional de Imprensa.
Ella Keidar, que fala das consequências de se assumir como refusenik, responde que alguns “são condenados a prisão militar por algumas semanas ou alguns meses, e há problemas familiares que alguns … enfrentam”. Mas no caso da rede Mesravot, a principal consequência é que a recusa não é uma questão meramente pessoal. “Estamos a transformar a nossa recusa numa ação política, falando à imprensa, divulgando a nossa recusa e agindo diretamente com outros ativistas, israelitas e palestinianos, o que nos coloca em perigo, especialmente com o clima político repressivo do momento”, explica a jovem.
À pergunta sobre as diferentes razões que levam jovens israelitas a não se alistar no exército, Ella Keidar refere o caso dela: “o que me levou a mim e aos meus amigos não só a não participar numa força militar violenta e ocupante, mas também a trabalhar ativamente contra ela, foi a esperança de podermos mudar a realidade deste lugar”.
Naturalmente que a situação criada pelo ataque do Hamas em 7 de outubro, no que se refere aos pacifistas e objetores, não poderia deixar de ser considerada. Segundo a entrevistada, já antes daquela data, “o apoio não era muito grande”. Mas agravou-se depois daquela data e a sociedade israelita “aceita muito menos” as ideias e posições dos que contestam os meios violentos”. Por isso, ainda que “ativos”, tiveram de adotar formas de ação mais “cautelosas”, “por medo de represálias civis e da repressão estatal”.
O Mesravot desenvolve atividades de entreajuda entre os seus membros, apoiando-se na recusa em combater, e dá apoio jurídico aos refuseniks que vão parar à prisão militar. Além disso, os membros participam em atividades públicas de sensibilização para o antimilitarismo e para a recusa de servir no exército.
Apesar do perigo, decorrente do atual contexto de guerra, o Mesravot tem desenvolvido atividades conjuntas com jovens ativistas da paz palestinianos e israelitas, como é o caso de uma carta que dirigiram à ONU e uma declaração conjunta para a paz subscrita por “muitas organizações da sociedade civil”.
Também por iniciativa de uma assembleia popular e de várias organizações da sociedade civil, dizem os entrevistados, em Telavive e Jaffa, foi criada “uma guarda civil mista árabe-judaica para impedir a violência e o racismo contra os palestinianos e para proteger os civis”. Apesar de todas as dificuldades, desabafa: “Penso que, apesar desta situação horrível, ainda há esperança”.

Ella Keidar (à direita) e o coordenador da Mesravot, Yehelich Cialic: “O único caminho” para a justiça e paz “é o de uma real colaboração judaico-palestiniana”. Foto © Mesravot.
Para eles, “o único caminho viável” para assegurar uma solução de “verdadeira justiça e paz é o de uma real colaboração judaico-palestiniana”, explicando: “há milhões de judeus israelitas e milhões de palestinianos nesta terra e ninguém quer sair. Temos de encontrar a nossa forma de viver juntos, através do reconhecimento mútuo, de uma verdadeira solução política, da soberania palestiniana, de reparações institucionais e do direito de regresso”.
O coordenador da rede Mesravot, Yehelich Cialic, tem um percurso político ligado também ao sindicato comunista que está ligado ao Partido Comunista Israelita, o único partido judaico-palestiniano no parlamento israelita, que é constituído por 90 por cento de palestinianos e 10 por cento de judeus. Numa entrevista dada ao site italiano AlaNews, este refusenik israelita refere que aprendeu árabe e trabalhou em “presença de proteção” na zona dos colonatos, que significa “documentar violações de direitos humanos, violência dos colonos, destruição de casas, negação de acesso a terras agrícolas” a palestinianos, e outros atos levados a cabo por militares e funcionários da administração das forças ocupantes.
Explica que o Exército do seu país se habituou a tornar a morte corriqueira, criando uma ideia de impunidade. “Somos o exército mais poderoso de sempre, somos Israel, podemos fazer o que queremos”, retrata Cialic, acrescentando: “fomos nós que criámos este monstro”.
O ativista defende que mais armas nas mãos das Forças de Defesa de Israel “para matar palestinianos como vingança…não resolveriam nada. Não me protegeriam. Digo-vos isto como israelita”. Para ele, “a única forma de evitar mais derramamento de sangue e mais sofrimento” passa por um cessar-fogo e a reabertura de negociações com as diferentes fações palestinianas.









