
“Nunca descansou na defesa dos mais explorados e foi o responsável pela edição do Tintim em Portugal.” Foto: Padre Abel Varzim. DR
Assinala-se esta terça-feira, dia 20 de Agosto, o 60.º aniversário da morte do Padre Abel Varzim, ocorrida na aldeia de Cristelo, no concelho de Barcelos, onde nascera em 1902. Foi uma das figuras mais singulares e admiráveis da Igreja portuguesa do século XX.
Nunca descansou na defesa dos mais explorados e foi o responsável pela edição do Tintim em Portugal.
Desde cedo atento às questões sociais, o Padre Abel Varzim doutorou-se em Ciências Políticas e Sociais na Universidade de Lovaina, Bélgica, em 1934, tendo conhecido nessa altura Joseph Cardijn, fundador do Movimento Operário Católico. “De regresso a Portugal, não mais baixou os braços no combate pela justiça social, tendo sido dos mais destacados membros da Igreja a erguer-se contra a ditadura salazarista”, escreveu o arquitecto Nuno Teotónio Pereira, também ele lutador contra o Estado Novo.
Ainda em Lovaina, o Padre Abel Varzim empenhou-se, com o Padre Manuel Rocha, na criação dos organismos operários da Acção Católica Portuguesa. Em Portugal, seria o assistente geral da Liga Operária Católica (LOC) até 1948. Dinamizou o jornal O Trabalhador, nele subscrevendo textos que desagradaram ao regime. Não seria, pois, por acaso que o jornal viria a ser suspenso pela censura.
No escrito para assinalar o 30.º aniversário da morte do padre Abel Varzim, Nuno Teotónio Pereira recordou que, em 1938, o sacerdote foi convidado “por Salazar para integrar as listas únicas da União Nacional para a Assembleia Nacional, pois o regime tinha por costume incluir em todas as legislaturas um ou dois padres na sua lista de deputados”. Mas, no início de 1939, o Padre Abel Varzim questionou o funcionamento dos “chamados sindicatos nacionais”, denunciando “arbitrariedades cometidas no mundo laboral: ‘Estou convencido de que a situação em que se encontram os sindicatos nacionais e de que a facilidade com que muitos patrões abusam dos operários se deve algumas vezes ao próprio Estado'”.
Esta imputação fez com que fosse “alcunhado de comunista e considerado um opositor ao regime”. Acabaria nomeado pároco da freguesia da Encarnação, em Lisboa. A paróquia abrangia o Bairro Alto, uma zona de prostituição, cujas vítimas rapidamente preocuparam o Padre Abel Varzim. Em 1953, fundou um lar para a reintegração social das prostitutas e um posto médico. “Mas as elites da paróquia não descansaram, enquanto também não foi afastado deste cargo”, lembra Nuno Teotónio Pereira. Em Procissão dos Passos – Uma vivência no Bairro Alto , Abel Varzim legou um vibrante testemunho desse seu trabalho sacerdotal.
“Em 1957, cansado, doente e abatido pela maledicência e pela calúnia, regressou à sua aldeia de Cristelo”, recorda ainda Nuno Teotónio Pereira, acrescentando que foi aí “que Francisco Lino Neto o foi encontrar em 1959 para pedir que subscrevesse dois documentos que denunciavam por um lado a subserviência da Igreja face ao Estado e por outro os crimes da PIDE. Assinou-os ambos, integrando um grupo de 47 católicos, entre os quais vários padres, que assim se demarcavam do regime. E na lista das assinaturas, organizada por ordem alfabética, o seu nome aparece simbolicamente em primeiro lugar. Aos signatários foi aberto um processo pela PIDE, mas logo veio uma amnistia, pois o caso era demasiado embaraçoso para a ditadura”.
Nuno Teotónio Pereira e a mulher, Maria Natália, visitaram-no em Cristelo, pouco antes da sua morte. “Mesmo ali, não descansava: tinha organizado a cooperativa SAMI (Sociedade Avícola do Minho), para que os interesses dos avicultores fossem defendidos. E dizia sonhar que mais tarde, sem alteração da sigla, esta associação se pudesse transformar em Sociedade Agrícola do Minho”.
Abel Varzim foi um desses homens imprescindíveis que lutou toda a vida.
O Padre Abel Varzim trouxe o Tintim para Portugal

Desenho de Philippe Dumas incluído no livro Le Senhor Oliveira da Figueira & les aventures de Hergé et Tim-Tim au Portugal.
O sacerdote também se incumbiu de tarefas algo inexpectáveis. Ao seu empenho se deve a publicação das aventuras de Tintim (Tim-Tim, era o nome usado na altura) em Portugal, que foi, aliás, o primeiro país não francófono a acolhê-las. As histórias da amizade com Hergé e da publicação de Tim-Tim no nosso país encontram-se relatadas por Albert Algoud no livro Le Senhor Oliveira da Figueira & les aventures de Hergé et Tim-Tim au Portugal, publicado pelas Éditions Chandeigne em 2021. O “Abbé Abel Varzim” é a primeira entrada do “Glossário de uma longa colaboração”. A acompanhar, encontra-se um retrato do sacerdote desenhado por Philippe Dumas.
“À tout seigneur tout honneur” – “O seu a seu dono” – escreve o autor, lembrando que foi o Padre Abel Varzim, que em Lovaina tinha conhecido Georges Remi, mais tarde famoso como Hergé, quem se encarregou de pedir autorização para reproduzir em O Papagaio as histórias publicadas em Le Petit Vingtième, o suplemento semanal de Le Vingtième Siècle, como é comprovado por uma carta endereçada ao director do jornal belga em 25 de Maio de 1935.
Foram várias as questiúnculas relacionadas com a edição em Portugal de Tim-Tim, apresentado em O Papagaio como “um repórter português residente em Lisboa”, e não como o repórter belga que efectivamente era. A colorização (“foi em Portugal, e não na Bélgica, que as aventuras de Tintim foram pela primeira vez publicadas a cores”) e a remontagem de imagens (“recortadas e montadas unicamente em função do espaço disponível nas páginas do Papagaio“) originaram embaraços entre Hergé e os seus editores portugueses.
Um imbróglio diz respeito ao facto de, a partir de um determinado momento, Adolfo Simões Müller querer levar o Tintim para uma nova revista, Diabrete, que competiria com O Papagaio, que pretendia manter o “repórter português” ao seu serviço. Albert Algoud nota que Abel Varzim manteve as aventuras de Tintim e o concorrente ficou com as histórias de outros heróis de Hergé: Jo, Zette e Jocko, além das de Quick e Flupke.
Assaz curioso é o modo de remuneração do trabalho de Hergé. Albert Algoud conta que, a partir de 1940, estando a Bélgica sob o jugo da Alemanha nazi e, por isso, submetida a severos racionamentos alimentares, o criador de Tintim se disponibilizou a ser pago em sardinhas, chocolate e café. Hergé pede igualmente o envio de bens idênticos ao irmão prisioneiro na Alemanha.
No dia 23 de Fevereiro de 1943, Hergé escreve a Adolfo Simões Müller e ao Padre Abel Varzim sobre a questão dos pagamentos. A este último pede que lhe continue a fazer chegar latas de sardinhas e de frutos secos. A Adolfo Simões Müller pede também alguns cigarros de tabaco inglês, que fariam do criador de Tintim o homem “mais feliz do mundo”.
Albert Algoud dá conta da existência de um recibo datado de 24 de Maio de 1943 comprovativo de que Hergé tinha recebido 40 embalagens contendo 219 latas de sardinhas, com um peso total de 18 kg. A quantidade de latas de sardinhas foi tão elevada que Hergé se tornou suspeito de as negociar no mercado negro, tendo de prestar contas à administração alfandegária, após uma denúncia anónima.
Eram tempos difíceis na Bélgica e em Portugal. Eram tempos difíceis no mundo.









