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Nick Cave e Adília Lopes: Dois buscadores… ou em como a arte salva

| 02/02/2025

On the shore of the lake
The old man sat and watched a woman bathing
With its golden touch, the light was such
That the moment was worth saving

And he sang the song of the lake
The song of the lake
And all the king’s horses and
Oh, never mind, never mind

And he knew that he would dissolve
If he followed her into the lake
But he also knew that if he remained upon the shore
He would in time, evaporate

He sang the song of the lake
The song of the lake
And all the king’s horses
Oh, never mind, never mind

(Nick Cave)

Nick Cave atua em Lisboa, para apresentar com os Bad Seeds o novo disco Wilg God. Foto © Nick Cave/site/divulgação.

Nick Cave atuou em Lisboa, para apresentar com os Bad Seeds o novo disco Wild God. Foto © Nick Cave/site/divulgação.

 

Ofereci a mim própria como prenda de Natal o último CD de Nick Cave, “Wild God”. Com muita pena não tinha podido ir ao seu último concerto (Outubro) na MEO Arena. O CD inicia-se com esta magnífica “Song of the Lake”: “the light was such/that the moment was worth saving/and he sang the song of the lake.
Para além da excelência da sua música e palavras/poemas, a inquietação tão sofrida no meio dos acontecimentos trágicos da sua vida (morte de dois filhos) sempre me comoveu. Nicholas Edward Cave (Warracknabeal, 22 de Setembro de 1957) é um músico, compositor, escritor, argumentista australiano. Tornou-se conhecido pelo seu trabalho na música rock (rock “da pesada”), com os Nick Cave and the Bad Seeds. Em Inglaterra (Brighton, 2015) perdeu um filho de quinze anos quando fazia uma escalada. A dor foi aliviada com a composição de várias canções. Os temas da dor, amor, religião, violência… morte estão dolorosamente presentes na sua música. Mais tarde perdeu outro filho diagnosticado com uma esquizofrenia e consumo de drogas. Sobre a morte afirma: “Essa ideia de que a arte derrota tudo simplesmente não se aplica mais a mim. Em vez de me deixar amargo, de alguma forma fez o oposto. Isso me deixou muito mais conectado com as pessoas em geral,” (…). “Há o evento cataclísmico inicial [onde] eventualmente nos reorganizamos para nos tornarmos criaturas perdidas à medida que envelhecemos, [e] isso faz parte da estrutura fundamental do que somos como seres humanos.” (…) “Somos coisas de perda. Este não é um elemento trágico para as nossas vidas, mas sim um aprofundamento que traz um significado incrível”. A transformação (eventualmente lenta) da morte em vida perpassa muitas das composições musicais de Nick Cave.

Há já algumas semanas a poetisa Adília Lopes entrou na plenitude de Deus. Tal como Nick Cave, desde cedo foi confrontada com a dor e o sofrimento, a ausência de sentido, a perda, a noite escura. Como Nick Cave a arte foi a sua “salvação”, trouxe-lhe “aprofundamento”, fé, solidariedade, “transformação da morte em vida”. Eu costumava chamar-lhe a “Senhora das coisas pequenas”, título de um poema que escrevi na minha juventude, dedicado a Maria, Nossa Senhora. Relembro que, quase no final do velório de Maria de Lurdes Pintasilgo (2004), aparece a Adília Lopes que se colocou vacilante ao lado do caixão com uma simples flor de sardinheira na mão – há lá flor mais doméstica? -, com certeza trazida da varanda de sua casa. Numa troca de olhares disse-lhe baixinho: “Adília, ponha a flor nas mãos da Maria de Lurdes que ela de certeza gostará”. Passados momentos o caixão foi selado. Foi a última flor que Maria de Lurdes levou com ela. Nunca consegui esquecer a expressão da “mulher-poetisa” (como ela gostava de dizer) debruçada sobre a Maria de Lurdes como se estivesse ao balcão da sua varanda. Adília, a “senhora das coisas pequenas…”

Adília Lopes (1960-2024). Foto: Direitos reservados.

Deus é a nossa
mulher-a-dias
que nos dá prendas
que deitamos fora
como a vida
porque achamos
que não presta

Deus é a nossa
mulher-a-dias
que nos dá prendas
que deitamos fora
como a fé
porque achamos
que é pirosa

(…)

“Deus é a nossa mulher a dias”, que formulação fulgurante! Há muitos anos que leio a poesia de Adília Lopes. Como um embalo, um hino às coisas pequenas da vida, com um meio sorriso nos lábios ao entender o seu humor subtil, irreverente, por vezes mordaz. São suas estas palavras: «há sempre uma grande carga de violência, de dor, de seriedade e de santidade naquilo que escrevo». Como Nick Cave. Adília era católica praticante e na sua poesia perpassava essa profunda dimensão espiritual. Os temas do quotidiano, principalmente “femininos” e domésticos, são tratados com humor e auto-ironia, candura e crueza, inteligência e intencionalidade. Segundo Valter Hugo Mãe, “Adília transporta uma profunda religiosidade para o que escreve, e define-se a si própria como «tímida desenrascada» ou «freira poetisa barroca». Tolentino refere-se a ela como uma das últimas beguinas.

Nunca escondeu que tinha uma psicose esquizo-afectiva. Com a coragem de se afirmar quem era prestou, a meu ver, um importante serviço às pessoas que sofrem de doença mental, ultrapassando o anátema e a “vergonha” de tal condição. Admiro-a também por isso. Em 2000, reuniu pela primeira vez a sua produção literária num só volume, “Obra”, com ilustrações de Paula Rego (1935-2022). Foi tão interessante constatar a proximidade de muitos poemas de Adília com a pintura desassombrada, irreverente, enérgica e desafiadora de Paula Rego.

 

O mal é banal
O mistério
maior
é o mistério
do bem

(Adília Lopes)

 

Nick Cave é mais recente nas minhas descobertas. A sua face é bastante diferente do comum, dorida, tez alta, sobrancelhas profundas, cabelo muito escuro. Afirma: “Dizem-nos constantemente que existimos no pior dos tempos”. Nick Cave contrapõe a “este estado catastrófico do mundo e seus fãs, “receosos e deprimidos”, a esperança. Desta vez fala de “esperança” no ano que agora começa: “é compreensível que se sintam alarmados com o corrente estado das coisas”. E continua: “É compreensível que se sintam alarmados com o corrente estado das coisas, receosos e deprimidos. Dizem-nos constantemente, sem esperança, que existimos no pior dos tempos, no fim dos tempos, realmente”, “muitos sentem-se impotentes face a essa terrível iminência – expressões como ‘Feliz Ano Novo’ soam vazias, como ressaca de tempos melhores que já não voltam… aqui estamos no início de um novo ano e muitos, como vocês, sentem-se sem esperança”.

Música. Nick Cave.

 Nick Cave. Foto: Direitos reservados (reproduzida do blogue do músico The Red Hand Files)

Continuando, o músico defende que “a esperança é essencial à nossa sobrevivência”: “conquistamos essa vitalidade de espírito rejeitando a implacável promoção do desespero e abrindo os nossos olhos para a beleza das coisas, por mais em perigo, degradado ou difícil de amar que o mundo nos pareça. Tentamos ver o mundo não como ele nos é apresentado e vendido, mas como imaginamos que pode ser. Não viramos a cara ao mundo, olhamo-lo diretamente e permitimos que o espírito da esperança nos inspire a agir”.

Dizendo que a esperança é “a energia da mudança”, Cave assume que também se deixou afetar pelo medo e tristeza nos últimos dias de 2024, mas que a convivência com o neto bebé no Natal mudou o seu estado de espírito. “Magistral na sua cadeira alta, vi [o meu neto] a ser alimentado pelos pais e a questão que me colocaram desfez-se na visão daquele pequeno rapaz, com a cara coberta de abacate. Uma afirmação radiante dessa pequena palavra – esperança. Nesse dia de Natal, vi a vitalidade da esperança em ação”.

 

(…) From the North down to the South
For no-one’s left in doubt
There’s no fear about
If we all hold hands and very quietly shout
Hallelujah
God is in the house
God is in the house
Oh, I wish He would come out

(Nick Cave).

 

Dois artistas que são testemunho de fé, de confiança no ano/mundo que está para vir. Uma dolorosa e teimosa esperança. Haverá algo de mais cristão? De salvífico?

Adília Lopes sublinha a necessidade de “devolver à vida o que pertence à vida”.  Como afirmei anteriormente o distúrbio de humor levou a uma “descida aos infernos”, como ela afirmou, certa vez. A consciência da depressão e da dificuldade de as pessoas lidarem com as doenças mentais, levou-a a tornar este facto público quer na sua obra quer em entrevistas: de sublinhar o seu livro “Clube da poetisa morta” (1997). Segundo ela teve “uma vida prosaica” e assaz obscura, muito centrada no seu espaço doméstico mas também nas suas múltiplas leituras e extensa cultura. A “fina ironia” expressando “um profundo desamparo” é a expressão da sua profunda originalidade. Não tenho medo de a apelidar de “mística”:

 

Ficar à escuta

Ficar
à escuta

À escuta
do silêncio

 

Teve uma vida intensa e discreta, considerando que era “uma freira poetisa barroca portuguesa”. Paula Rego identificou um “impressionante paralelo” entre o seu imaginário e os poemas de Adília Lopes: “Fizeram-me logo lembrar a minha juventude, com as criadas, as bonecas, as mães ultraprotetoras…”Adília Lopes é de um grande romantismo e ao mesmo tempo de um grotesco e de um cómico transbordantes”.

Segundo Valter Hugo Mãe  “o que nos desarma em Adília Lopes é a impressão de que a mulher-a-dias desatou a escrever poesia”:

 

O poema não deve ser raciocinado

O poema
não deve ser
raciocinado
deve ser
extasiado

 

“A estranheza que nos causa é a da erudição inesperada de uma doméstica, com todas as suas questões práticas e filosóficas passadas pela estética crua de versos sem um propósito de beleza, apenas a pragmática anotação dos tópicos”, continua Valter Hugo Mãe. (…) “A poesia de Adília Lopes surpreende exatamente pelo despido modo de dizer, tornando todas as coisas em pontos de uma enumeração ferida no seu potencial emotivo. O que se diz, por mais importante, impertinente, descarado, íntimo, indizível, torna-se simples e sincero como se ficasse imediatamente destituído da sua característica inicial. O que se diz é vertido para o poema como um atributo do poema que não pode mais regressar à realidade, sob pena de sucumbirmos à despudorada tentação de estarmos a ler, afinal, um diário que não é mais secreto”.

Adília Lopes, poesia

Adília Lopes (1960-2024). Imagem retirada do vídeo do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, com Adília Lopes a ler poemas seus na Capela do Rato, em Lisboa, em 2 de Maio de 2010.

 

Textos ensanguentados

Textos
ensanguentados
como feridas

Gralhas
ensanguentadas

Textos
gelados
como árvores
no Inverno

Textos
como árvores
cortadas
aos bocados (…)

Textos
brancos
como a noite

Textos
brancos
como a neve

Textos
sagrados

Textos
bifurcados
como ramos

Textos
unos
como troncos

 

Nick Cave permanece uma figura de culto na cena da música alternativa. A beleza da sua voz e composições tornaram-se referência obrigatória.

Miguel Azevedo descreve os concertos em que participou como “dois momentos quase litúrgicos e de comunhão entre pregador e seus discípulos”. “As mortes dos filhos, a violência, as drogas, os amores e desamores, a religião, os arrependimentos e as crenças de uma das figuras mais negras da história da música,

a pregar aquela sua doutrina de dor e amor, que tantos fiéis mobiliza (…). Mas afinal, [diz Miguel Azevedo], que figura é esta que constantemente é posta à prova pela vida e que tanto deambula entre o infortúnio e a devoção, o sofrimento e a contrição, a angústia e a contemplação, o pesar e o consolo?”

 

Frogs

Ushering in the week, he knelt down
Crushed his brother’s head in with a bone
It’s my great privilege
Oh babe, to walk you home

In the Sunday rain
Hop inside my coat
In the Sunday rain
The frogs are jumping in the gutters

Oh, leaping to God, amazed of love
And amazed of pain
Amazed to be back in the water again
In the Sunday rain
In the Sunday rain
Gets you right down to your soul

Oh Lord, oh Lord

(…)
It’s Sunday morning and I’m holding your hand

Amazed of love and amazed of pain
Amazed to be back in the water
Back in the water again
Take that gun out of your hand
(…)
Lord, kill me in the Sunday rain
Kill me! Kill me in the Sunday rain

Hop inside my coat
Sunday morning and I’m holding your hand
Frog-marching us home to a bed made of tears
(…)

Hop inside my coat, hop inside my coat

 

A utilidade do sofrimento é a oportunidade de nos tornarmos seres humanos melhores. É o motor da nossa redenção. O que fazemos com o sofrimento? Segundo Cave a morte não é o fim: “temos duas escolhas: ou transformamos [o sofrimento] em outra coisa, ou nos agarramos a ele e, eventualmente, o passamos para outras pessoas”. “Há sempre dor ao nosso redor. Isso é uma das únicas coisas que está garantida na vida”.

 

Death is not the end

When you’re sad and when you’re lonely
And you haven’t got a friend
Just remember that death is not the end

And all that you held sacred
Falls down and does not mend
Just remember that death is not the end
Not the end, not the end
Just remember that death is not the end

When you’re standing on the crossroads
That you cannot comprehend
Just remember that death is not the end

(…)

And at night we are on our knees
As quiet as a mouse
For God is in the house
God is in the house
God is in the house
And no one’s left in doubt
God is in the house

(Nick Cave)

 

Ávido leitor da Bíblia, que cita várias vezes, Nick Cave diz-se no entanto crítico da religião organizada, “reservando-se ao direito da possibilidade de acreditar na existência de um Deus qualquer”. “Há algo de divino a acontecer nas minhas músicas”, afirma. A sua intuição é real.

Adília, por seu lado, formula o seu desejo de Deus, da plenitude, da libertação de um corpo sofrido, da paz interior:

 

Deixa o dia de ontem

Deixa
o dia de ontem
com Deus

E vive
em paz
a espera

A cada dia
basta
a sua pena

E
o amanhã
é
como o arco-íris

Um anjo
está contigo
quando desanimas

Um anjo
está contigo
quando te alegras

Sempre
um anjo
está contigo

E
o arco-íris
brilha
como a água
que corre

(Adília Lopes)

Nós balbuciamos: Assim seja, Nick Cave e Adília Lopes: os dois ensinaram-nos que a arte salva.
Ámen!

Teresa Vasconcelos é professora do ensino superior e integra o movimento do Graal; contacto: t.m.vasconcelos49@gmail.com

 

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