Entre máquinas fotográficas, espiritualidade e contemplação da Natureza, o arquivo de Idalino Simões revela um mundo em desaparecimento – e uma sensibilidade que o procura resgatar.
Foi há muito tempo que esta conversa com o padre Idalino Simões começou. Muito antes, sequer, destes recentes encontros no seu gabinete, no segundo andar do recém-reformado Seminário Maior de Coimbra. Nesta sua pequena, mas muito acolhedora sala de trabalho, ecoam histórias de muitos tempos e lugares, contadas através das muitas máquinas fotográficas com que Idalino olhou e retratou o mundo – tendo sido a primeira uma Nikkormat, que o irmão lhe trouxe de uma viagem ao Japão.
Conheço o padre Idalino desde o sempre da minha existência. Posso até dizer que ele já me conhecia antes mesmo de aqui chegar, por ser um amigo e guia espiritual da família. Foi no álbum de bebé da minha irmã Sofia, em retratos dos seus primeiros dias de vida, que lhe vi as primeiras fotografias.
Tive sempre muita pena que ele não tivesse tido a oportunidade de me vir visitar também a mim à maternidade e capturar, em 35mm, a forma delicada com que, numa escala de cinzas, retratava as feições de um rosto ou estas pequenas mãos de quem tudo iria, um dia, querer conhecer do mundo pelo toque. Muitos anos passados, e agora que os nossos caminhos se cruzam quase semanalmente pelos jardins do Seminário Maior, surgiu a possibilidade de conhecer melhor este homem, através desta paixão partilhada pela fotografia – à qual acrescentamos ainda outras camadas, como a do encanto e admiração pelo que é simples, pelo que é belo, pelo que é natural.
Foi durante a preparação para uma conversa que teríamos no Semente Atelier, em Novembro de 2024, que perguntei ao padre Idalino o que é que ele, acima de tudo, gostaria de partilhar com as pessoas que nos viessem ouvir. Respondeu-me sem hesitar:
Gostava, sobretudo, de partilhar esta relação que nós temos com a Natureza. O Papa Francisco, na sua encíclica Laudato Si’, vem chamar a atenção para a realidade de que a Terra Mãe está doente. Isso leva-me a pensar que precisamos reencontrar outros caminhos. A minha relação com a Natureza é uma relação de contemplação. Dizia-me, um dia, alguém: “Um japonês é capaz de estar sentado a olhar uma flor por meia hora.” Nós não conseguimos. Estamos, muitas vezes, no culto do feio, do distorcido, e não a olhar as coisas como elas são. Estamos a olhar para elas com óculos perfeitamente negros, incapazes de olhar a beleza que está por trás das coisas.
Compartilho com ele esta sensação angustiante de que, por vezes, uma venda preta nos tapa os olhos. Quando fechamos os olhos para o mundo, não somos capazes de sentir a sua beleza. O arquivo fotográfico criado ao longo de décadas pelo Idalino dá-nos conta da fragilidade dessa beleza e das mudanças reais ao longo do tempo – constatação de um mundo em desaparecimento, que ele tenta, a todo o custo, capturar para as gerações que não mais o poderão ver.
Entre as muitas categorias deste arquivo, há colecções de artefactos, marcas etnográficas, elementos arquitectónicos, geografias extintas (como a antiga União Soviética, que visitou na década de 60), entre estados, marcas do real e abstrações contemplativas, como o caso da sua vasta colecção de reflexos sobre as águas. Ainda como referência à sedução pela água, existe toda uma categoria dedicada ao mar. Podemos olhar o mar como força e sustento, plasmado nas fotografias da Praia de Mira, nos anos 60, nas quais os trajes da viuvez contrastam fortemente com a espuma branca do desconhecido. Mas, décadas depois, em 2017, na praia de Peniche, o mar que encontramos nas fotografias de Idalino é mar dos questionamentos, dos naufrágios geopolíticos. Um mar branco, talvez contemplativo, mas não de paz.
Seguindo o recorte criado para a exposição que se encontra patente até ao dia 30 de Abril no ISCAC [Bencanta, Coimbra], onde são apresentadas 20 fotografias seleccionadas do seu arquivo, podemos continuar a reflectir sobre o mundo e sobre as respostas plausíveis de ser encontradas na Natureza e nos elementos – por vezes mais orgânicos, por vezes mais geométricos – que nos rodeiam. Para esta selecção de fotografias, tivemos por base a leitura do Cântico das Criaturas, escrito por Francisco de Assis em 1225, há exactos 800 anos.

Padre Idalino Simões, fotografado em Novembro de 2024. Foto © Inês Moura
Da leitura deste cântico, fomos buscar alguns elementos fulcrais na contemplação do universo: a luz, o sol, a lua, as estrelas, o fogo, o vento, as nuvens, o tempo, a terra, a morte – traduzidos nas fotografias do Idalino em texturas, jogos cromáticos, grafismos ou contrastes de luz e sombra. A simplicidade do instante está sempre lá, tanto na forma como isola um elemento e o destaca por oposição a um fundo negro, como quando eterniza uma manhã de nevoeiro, vista da estrada entre Ferraria de São João e São João do Deserto (2012). É admirável a memória cronológica e a exactidão com que nos revela os lugares e datas por onde passou. Mesmo quando se trata de reflexos abstractos, o Idalino não deixa de citar o nome do rio, a praia ou a ilha em que se encontrava.
Talvez a fotografia seja mesmo, para si, o objecto de estudo primordial de uma criação enciclopédica, que ainda não está de todo terminada. Se hoje a ternura da idade não o deixa fotografar tanto como gostaria, é notória ainda a sua predisposição para continuar a olhar e a perpetuar a beleza que não se cansa de identificar ao seu redor.
Exposição de fotografias do padre Idalino Simões
ISCAC – Coimbra Business School/Politécnico de Coimbra
Quinta Agrícola – Bencanta – 3045-601 Coimbra
Até 30 de Abril










