
Adriano Moreira faleceu aos 100 anos de idade. Foto © Agência Ecclesia/MC
Inspirado pelo pensamento social católico, admirador de personalidades como o padre, teólogo, filósofo e paleontólogo jesuíta Teilhard de Chardin, o líder da Democracia Cristã italiana Alcide de Gasperi ou o bispo português da Beira (Moçambique), Sebastião Soares de Resende, Adriano Moreira foi o político português que mais se assumiu como da corrente democrata-cristã. Académico reconhecido, passou pela política enquanto ministro do Ultramar no Estado Novo e líder do CDS já durante a democracia. Adriano Moreira morreu em Lisboa neste domingo, 23 de Outubro, mês e meio depois de completar 100 anos, a 6 de Setembro.
Reagindo à sua morte, numa declaração aos jornalistas divulgada pelo Patriarcado de Lisboa, o cardeal Manuel Clemente disse que Adriano Moreira tinha uma “preocupação fortemente humanista” inspirada no pensamento social católico. A última conversa que o patriarca tivera com ele foi há cerca de 15 dias, quando o professor manifestou o desejo de conversar sobre o futuro da doutrina social da Igreja.
Portugal fica devedor de Adriano Moreira e de “pessoas como ele”, disse ainda o cardeal-patriarca: “Pessoas íntegras, que se mantêm fiéis ao seu pensamento, quando é assim tão verdadeiro como o pensamento social cristão.”
Com um vasto currículo, autor de vários livros, centenas de conferências e crónicas, Adriano Moreira era um vigoroso defensor do diálogo inter-religioso proposto pelos papas Francisco e João Paulo II, inspirado na tese de Hans Kung segundo a qual não haverá paz no mundo sem paz entre as religiões”. Essa ideia ficou plasmada em muitas das crónicas que assinou nos jornais e, desde há anos, no Diário de Notícias. Mas também os alertas do Papa contra o “credo do mercado” mereciam os aplausos e a sintonia de Adriano Moreira. Em Dezembro de 2013, meses depois da eleição do Papa Francisco, escrevia numa dessas crónicas: “A primeira Exortação Apostólica do Papa Francisco, com o título Evangelii Gaudium, assume corajosamente o mundo atual de desafios sem passado equivalente, e, pelo que respeita sobretudo aos ocidentais, com os valores humanistas substituídos pelo credo do mercado.
A sua admiração pelo bispo Soares de Resende, que defendia já na década de 1950 mais direitos para Moçambique e os moçambicanos, antecipando as consequências trágicas de não o fazer, levou-o a publicar um extenso volume, Profeta em Moçambique, com todos os documentos principais que D. Sebastião produziu enquanto bispo da Beira. (ver crónica de um dos filhos no DN)
E nas aulas, perante alunos que divergiram da sua interpretação mais estrita das encíclicas papais, ele incentivava: “Continuem. Precisamos em Portugal dos nossos teólogos da libertação.”
A seguir, fica uma entrevista publicada no número 1 da revista Fátima XXI, em Maio de 2014, que aborda várias das questões que Adriano Moreira aprofundava nas suas reflexões.
Entrevista: “Cada pessoa é um fenómeno único na história da humanidade”
Fátima é “um dos lugares do mundo de mais forte inspiração”, diz Adriano Moreira, nesta entrevista sobre a fé, o seu modo de ver o mundo e o papel da Europa. Insistindo em que cada pessoa é um fenómeno “que não se repete na história da humanidade”, o professor universitário diz que “o valor das coisas foi substituído pelo preço das coisas” e que “os valores fundamentais foram subvertidos pelos valores instrumentais”.
Confessando que a teóloga mais importante da sua vida foi a sua mãe, o antigo ministro do Ultramar e antigo líder democrata-cristão diz que o Papa Francisco “chama todos à nova evangelização, confronta o credo do mercado e o facto de os ideologismos da Guerra Fria terem sido substituídos por um condenável novo-riquismo”. E acrescenta que a doutrina social da Igreja coincidiu com o socialismo democrático na construção do Estado social. Este, diz, é a luta para acabar com a negação da dignidade aos mais fracos e marginalizados. E essa “luta continua”.
“Esquecer o Estado social é também esquecer que o problema português se traduz cada vez mais na falta de pão na mesa e no esquecimento de que a fome não é um dever constitucional”, avisa este
Nascido em Macedo de Cavaleiros a 6 de Setembro de 1922, Adriano Moreira é membro da Academia das Ciências de Lisboa. Autor de uma vasta obra, diz que os homens são iguais em dignidade e que não devem ser olhados “pela maneira como ganham a vida, sim pela maneira como vivem”.
ANTÓNIO MARUJO – O que é para si, hoje, ter fé?
ADRIANO MOREIRA – A teóloga mais importante da minha vida foi a minha mãe. Já escrevi isso num livro de memórias e digo-o pelo seguinte: éramos uma família muito modesta, naturalmente católica, numa aldeia de Trás-os-Montes. O meu pai emigrou para Lisboa, onde eu fui educado toda a vida. Andei no liceu Passos Manuel.
Simplesmente, o lugar onde vivíamos não tinha templo e, portanto, toda a minha educação religiosa foi feita pela minha mãe e a definição que ela me deu de Deus é que Deus é companheiro. Esta é uma definição que eu nunca esqueço e me acompanhou para sempre.
– Como é que essa companhia se torna presente no quotidiano para alguém como o senhor, envolvido, ao longo da vida, em tantas actividades públicas e políticas?
– Deus é uma referência que está sempre presente, sobretudo quando se trata de assumir responsabilidades, tomar decisões que afectam o outro: uma sociedade mais justa, momentos difíceis da vida.
– A fé hoje pode ser vivida de uma forma plural?
– Há um facto que é pouco meditado, talvez por ser pouco conhecido. As Nações Unidas foram o resultado de um grande projecto de pacifistas depois de uma guerra tremenda, talvez a guerra que mais vidas humanas custou – avalia-se em pelo menos 50 milhões de mortos – e que inspirou os fundadores das Nações Unidas.
Um grande secretário geral da ONU, Dag Hammarskjöld, que morreu num atentado, organizou uma sala despida, só com uns bancos de madeira ao redor, uma espécie de altar que era uma pedra translúcida e uma luz que vinha do tecto sobre esse altar. Essa sala chamava-se “sala de meditação para todas as religiões”.
– Concretizando esse pluralismo e também uma das ideias da ONU, a de ser um projecto de paz…
– Esse projecto de paz apoiou-se nos relatórios de meados do século XX, das Nações Unidas, nos quais se dizia que havia duas ameaças equivalentes no mundo: uma, a energia atómica; e a outra, a miséria. Isto foi sintetizado pela visita de Paulo VI à Assembleia Geral das Nações Unidas, onde ele deu a definição da paz, referindo-se ao segundo termo: “O desenvolvimento é o novo nome da paz”.
Este perigo hoje, aumentou até para nós, ocidentais. Se, no século passado, a fronteira da pobreza, nos relatórios, passava o Sul do Saara, neste momento passou para o norte do Mediterrâneo. Era bom meditar nas palavras de Paulo VI. E também não é difícil encontrar analistas que tratam da situação internacional e, segundo eles, se não houver paz entre as religiões, não haverá paz no mundo.

João Paulo II no seu primeiro discurso na ONU, em 1979: servir o bem comum como propósito da ação política. Foto: Direitos reservados.
“O desenvolvimento é o novo nome da paz”
– Antes da questão da paz, tomo o exemplo que deu, do Papa Paulo VI. Tem falado do que chama de “teologia do mercado” e já escreveu mesmo que “há um novo credo de mercado”. No seu livro “Legado Político do Ocidente”, dizia que as pessoas se sentem longe dos centros de poder que não têm cobertura legal, citando o exemplo do G-20. São esses centros de poder que estão a empobrecer o mundo e a criar mais miséria?
– Certamente estão a contribuir para isso de maneira muito importante. Talvez possa enriquecer o sentido do discurso que fez o Papa Paulo VI, se se ler o “Farewell Address” do Presidente [Dwight] Eisenhower, dos Estados Unidos, que foi o comandante-chefe da invasão da Europa contra o nazismo e general de cinco estrelas. No discurso de adeus que os presidentes dos Estados Unidos fazem quando terminam o mandato, dizendo ao povo americano o que pensam da situação da nação e sempre pedem “God bless America”, disse ele: “Fui presidente de um complexo militar industrial que não consegui dominar. Esse perigo existe.”
Esse perigo diz respeito à definição do desenvolvimento como sendo o novo nome da paz – como disse Paulo VI: o esgotamento mundial dos recursos não renováveis; a degradação do meio ambiente; a explosão demográfica, em muitos lugares, exigindo um socorro à alimentação; os conflitos armados muito alimentados pela privatização das actividades que chamam de defesa e que, por exemplo em África, inclui crianças a combater; tudo somado aos acidentes da natureza – tsunamis, terramotos, epidemias, etc. – fazem com que neste momento, mais de metade dos quase 200 estados que existem não têm capacidade para dar resposta a estes desafios.
– Porquê?
– A sociedade do bem-estar, de esperança, de dignidade humana respeitada está extremamente deteriorada e essa deterioração teve e tem expressão na degradação da escala de valores. Para mim, este exemplo chega. O valor das coisas foi substituído pelo preço das coisas. E os valores fundamentais foram subvertidos pelos valores instrumentais. A eficácia, que tem a sua melhor expressão no lucro, é valor superior a qualquer dos valores fundamentais.
Por isso é que eu falo nesses centros de decisão, que ou não tem cobertura legal ou são desconhecidos. O que se tem traduzido em movimentações tais que os mais importantes textos legais que regulam a ordem internacional, com reflexos na ordem interna, são violados.
– Quer dar um exemplo?
– Sim. As Nações Unidas dizem que todos os estados são iguais. Mas uns são mais iguais que outros – no Conselho de Segurança, as superpotências têm direito de veto. A França e a Inglaterra têm alguma capacidade para ter direito de veto, neste momento? Julgo que não. E por isso é que algumas das intervenções dos Estados Unidos foram unilaterais com consequências preocupantes, quer na NATO, quer na União Europeia, porque as votações foram muito diferenciadas a esse respeito.
Esta questão ainda é agravada por este facto: a Carta das Nações Unidas e a Declaração dos Direitos do Homem foram escritas apenas por ocidentais, pois os ocidentais é que tinham as colónias e a hegemonia sobre essas regiões. Mas aconteceu que, com a descolonização, pela primeira vez na história da humanidade, todas as áreas culturais do mundo passaram a falar em liberdade e a dar sentido diferente aos textos.
– Ou seja, passou a haver diferentes modos de olhar para esses textos fundadores?
– Quem lida com os textos, sabe que eles mudam de sentido consoante a perspectiva. Tal facto provocou um desencontro na aplicação da escala de valores que orientou a elaboração desses textos.
Por isso é que, do ponto de vista internacional – num momento em que a principal crise é financeira e económica, depois de ter acabado a ilusão de que o norte do mundo era composto por sociedades afluentes, consumistas, unilaterais (como disse Marcuse), e que tinham sempre dinheiro para qualquer projecto e às vezes o que não tinham era projecto para o dinheiro –, a situação torna evidente cada dia que os órgãos legalmente previstos não estão a funcionar.
– O que é que deveria ser posto a funcionar?
– A crise é global; mas ainda não vimos convocar o Conselho Económico e Social das Nações Unidas. Nunca foi convocado. A crise é financeira – quem é que manda? O G-20? A mim parecem-me G2+18. Não há nenhum tratado a instituir o G-20. Na Europa – que corresponde a uma regionalização em marcha, cheia de dificuldades e riscos de que o projecto continue – o que estamos a verificar é que quem assume o poder directório é a Alemanha, em geral acompanhada pela França. Mas há um Tratado…
Esta situação é que me leva a dizer que a situação mundial é de anarquia, não de legalidade. Há uma anarquia, na qual temos esperança de encontrar uma solução de saída. Mas ela vai ser acompanhada de sacrifícios brutais e Deus queira, se o novo nome da paz é o desenvolvimento, que a pobreza e a miséria, que se estão a multiplicar em tantos lugares do mundo, não venham a agravar conflitos e violência que já existem em muitas circunstâncias.

Nyanchau Teny, de dois anos, em Rumbek, Sudão do Sul, a beber uma infusão de folhas de árvore que permite tratar tosse, diarreias e vómitos, resultados da má nutrição. Foto © UNHCR/Rocco Nuri
Dignidade humana é premissa do estado social
– Esse quadro que descreve não torna mais urgente os apelos que, praticamente desde João XXIII, mas sobretudo João Paulo II e Bento XVI fizeram, quer da reforma das Nações Unidas, quer da reforma das instituições financeiras internacionais?
– Com certeza. E um dos legados importantes do Papa Bento XVI é a encíclica Caritas in veritate, que é uma grande defesa do estado social e que está a ser posto em causa em toda a parte. O que só é possível, a meu ver, porque a escala de valores vigente desafia a escala de valores em que se apoia a defesa do estado social: quando o estado social, além de ser uma criação da doutrina social da Igreja, converge com a atitude do socialismo democrático europeu e mundial – na medida em que se tornou mundial – e, às vezes, dá-me a impressão que até o manifesto de Karl Marx aponta para aí.
– Como é que alguém que vem da Democracia Cristã me diz essas coisas?
– Pelo seguinte: porque quem escreve e fala, sobretudo quando usa o poder da palavra contra a palavra do poder, nunca prevê o “consequencialismo”. A Lutero aconteceu-lhe isso: acha que ele previu as consequências do que disse quando pregou as teses na porta da Igreja? Não. E os crimes do sovietismo, o próprio Karl Marx terá previsto que ia acontecer isso? Provavelmente não. Gosto de pensar que não previu o que ia acontecer.
Como digo, por vezes lembro-me de aproximar isso. Mas, quanto à coincidência dessas duas forças no Estado social, não tenho a menor dúvida, é a minha firme convicção: doutrina social da Igreja e socialismo democrático convergiram para o Estado social.
– Mas essa convergência também está posta em causa…
– Por isso mesmo, um dos defeitos, se quiser apenas referir-se a expressões verbais, foi que a economia deixou de se chamar economia política. Há pouco tempo escrevi um artigo depois de ter revisto a intervenção do Presidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt. Quando ele propôs o “New Deal” não foi por ter lido os economistas do seu tempo, que já falavam na necessidade do investimento público. Disse que tinha um desafio com a história, porque é preciso que haja valores a envolver a acção e que respeitem a dignidade humana como nós a entendemos.
Há uma premissa para tudo isto: a dignidade humana. Se eu admitir – e julgo que os cristãos não podem admitir outra coisa – que cada um de nós é um valor que não se repete na história da humanidade, isso transforma socialmente cada homem num valor insubstituível. Tem de ser essa a premissa para tudo isto. E volto a lembrar que julgo que têm razão aqueles que dizem que, se não houver paz entre as religiões, dificilmente haverá paz no mundo.

Adriano Moreira aplaude, em 2018, a iniciativa de todas as religiões se terem juntado numa posição única contra a eutanásia. Foto © Ricardo Perna
O diálogo no lugar do combate e o respeito no lugar da tolerância
– Na análise que faz, onde entra a trilogia dos valores da Revolução Francesa? Porque também os cita em textos seus…
– Os valores da Revolução Francesa – como os valores da Revolução [americana]de Filadélfia, que a antecede – são fundamentais, claro. Mas são valores políticos. A liberdade não é um direito adquirido, é o direito de construir a sua vida, a sua maneira de estar no mundo, a sua responsabilidade. Mas o que a doutrina social da Igreja trouxe de fundamental foi aquilo que por vezes os franceses chamam “les droits-préstation”, por causa da dignidade. Também há o direito a prestação. Como na vida internacional nasceu, já no nosso tempo, o direito de intervenção, apesar de se dizer que os estados são iguais e que ninguém pode intervir na legislação interna. Mas as Nações Unidas já criaram o poder-dever de intervenção – que é uma prestação.
Esse desenvolvimento foi uma grande luta. Na declaração de Filadélfia, o [Presidente dos EUA, Thomas] Jefferson, amigo do abade [português] Correia da Serra, disse: “Todos os homens são iguais, com igual direito à felicidade”. Mas ele acrescentou uma vírgula: “Mas os índios não, mas os escravos não, mas as mulheres não, mas os trabalhadores não.” Esta luta para apagar os “nãos” ainda não acabou em todos os lugares. A luta continua.
– É ainda uma herança do que se passava na Antiga Grécia, em que a democracia era apenas para os cidadãos.
– Só e apenas. Esta luta é que me leva a inquietar-me e a dizer sempre que reprovo isso, que não se pode apagar a ideia do Estado social. O Estado social é o conceito que vai apagando os “nãos” e é importante notar isto: na Constituição Portuguesa, é uma “principiologia”, não são imperativos absolutos, porque diz, por exemplo, a saúde e o ensino, na medida da possibilidade – portanto, é uma “principiologia”.
Porque é que se nega essa “principiologia”? A obrigação é tratar das capacidades, não é negar as “principiologias”. Isso seria, a meu ver, um retrocesso na organização social, na justiça social e no respeito pela dignidade das pessoas. Nesta data, em que anunciam cinco suicídios por dia e o desemprego cresce imparável, esquecer o Estado social é também esquecer que o problema português se traduz cada vez mais na falta de pão na mesa e no esquecimento de que a fome não é um dever constitucional.
– Sobre a igualdade que referiu, São Paulo veio dizer que não há judeu nem grego, não há escravo nem senhor, não há homem nem mulher…
– Sim, mas isso diz respeito à dignidade da pessoa. Independentemente dessa referência, há uma coisa importante, mesmo nas lutas sociais de hoje: é que os homens não se distinguem pela maneira como ganham a vida, sim pela maneira como vivem. A dignidade é igual, seja qual for a maneira como se ganha honestamente a vida. Isto é muito importante para uma sociedade funcionar regularmente.
– E é importante também para sintetizar as diferentes perspectivas de igualdade que existem: a igualdade do voto, a igualdade económica…
– É a sociedade aberta. Mas isso, como sabemos, está a ser negado em muitos países. E a crise brutal em que estamos vai atingir muitos destes sonhos, propostas, desejos, valores, futuros… sobretudo, futuros.
– Falamos de uma realidade que sentimos muito porque é a nossa realidade europeia. Já disse que o valor das coisas foi substituído pelo preço das coisas, o que também se sente com muita premência na Europa. Mas, apesar desses limites, concorda com quem diz que a Europa foi a zona do mundo que levou mais longe valores do Evangelho como a justiça, a dignidade da pessoa, a construção social solidária?
– A Igreja é universal. Tem, por isso mesmo, uma actividade universal. Hoje não se pode falar de Europa e mesmo de Ocidente sem falar nos valores cristãos. Mas isso não foi admitido na Constituição Europeia, que se chama Tratado de Lisboa. O que me parece é que o que está em decadência não é só a Europa, é o Ocidente que está em decadência. É preciso voltar à leitura dos homens que avisaram a tempo que isso aconteceria, por exemplo, [Arnold] Toynbee.
– Em que sentido?
– É preciso voltar ao velho Toynbee para que, designadamente, os americanos percebam que o Atlântico não é um acidente: duas guerras mundiais já devem ter-lhes ensinado que é uma espécie de lago ocidental e que a responsabilidade deles com a Europa é total e comum.
Dissidências e diferenças que haverá sempre, como há dentro da própria Europa, exigem uma coisa: é que se ponha o diálogo no lugar do combate e que se ponha o respeito no lugar da tolerância, porque eu só preciso de ser tolerante para as coisas de que não gosto.

Assembleia da República. Foto © Joaomartinho63, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.
A inspiração do nome do Papa Francisco
– Essa ideia de universalidade da Igreja ficou mais explícita com a eleição do Papa Francisco? Que sinais viu nesta escolha?
– Em primeiro lugar lembro o que chamei a nova mensagem de Assis, para referir a convocação que João Paulo II fez de todas as religiões para o diálogo na cidade santa. Mas agora, o Papa Francisco, ao assumir a inspiração do santo, chama todos à nova evangelização, confronta o credo do mercado e o facto de os ideologismos da Guerra Fria terem sido substituídos por um condenável novo-riquismo.
– Quando falamos de crise de valores, de que crise falamos? Há quem considere que a crise de valores está centrada na moral individual e familiar – formas de família, despenalização do aborto… Outros insistem que a crise é sobretudo porque se perdeu o valor do outro, a referência solidária do outro. De que crise de valores falamos?
– Esquecemo-nos que é preciso colocar o respeito no lugar da tolerância. Há valores fundamentais sobre os quais não pode haver tolerância. Naturalmente, isso acontece em todas as áreas culturais. Uma das tarefas que, justamente, neste momento merece atenção e agradecimento a quem se dedica a elas é encontrar um paradigma comum. Enquanto o Ocidente teve a proeminência de governar o mundo, a mundialização era mundializar a europeização do mundo. No fundo, andou-se à procura disso. Hoje sabe-se que não pode ser assim.
A busca do paradigma comum é fundamental, mas ela torna-se mais difícil quando a pertença às igrejas institucionalizadas está a ser diminuída. Em Portugal, as pessoas dizem com frequência que são católicas, embora não-praticantes. Mas, ao dizerem isto, estão a aceitar a filiação. As estatísticas dizem agora que a filiação a uma Igreja institucionalizada, sobretudo na Europa e no Ocidente, em geral, está a diminuir e a diminuir severamente.
– Mas as pessoas não se desligam de Deus…
– O apelo à transcendência está todavia a aumentar e isso é que dá origem a estas redes de organizações com as quais se preocupam as autoridades espirituais e políticas. Mas tudo isto desafia, no fundo, aquela iniciativa tão simples do secretário-geral das Nações Unidas: a sala de meditação para todas as religiões, para encontrar os valores comuns. Para mim, um valor comum é este: cada homem é um fenómeno que não se repete na história da humanidade.
– E esse princípio é inegociável?
– É inegociável e irrenunciável.
– Mas esse afastamento das pessoas em relação ao religioso instituído, em contraste com o crescimento da busca da espiritualidade, do apelo à transcendência, não se relaciona também com a crise das instituições religiosas?
– Tomando o exemplo do cristianismo, há sempre três perspectivas a considerar. Uma é a da fé – o Cristo da fé; outra é o Cristo da história – em relação ao qual aparecem muitas vezes divergências de opinião, como é natural; a outra é a crise da própria Igreja, como agora está a acontecer. Neste momento, é esta instituição religiosa que está a ser objecto de ataques e feridas reais que todos conhecem e isso deve ser enfrentado.
Na ordem internacional, acontece algo parecido: os países, como acontece a Portugal, têm que fazer funcionar harmoniosamente a sociedade civil, o poder e a circunstância internacional. Se isso não funcionar de uma maneira harmoniosa, começamos a ter preocupações com a viabilidade pacífica das comunidades. Portugal está a aproximar-se de um momento desses, isso é já evidente.
– Disse há pouco que há riscos de que o projecto europeu continue. Estamos a trair os princípios dos pais fundadores?
– O movimento europeu começou – escrevi um livro sobre o tema, “A Europa em formação”, creio que um dos primeiros em Portugal – porque houve pessoas que tiveram a inspiração de passar as ideias a factos. A doutrina antiga (do pacifismo, da comunidade europeia, etc.) tem séculos. Porque a Europa não tem limites geográficos ou físicos, costumo dizer que conheço a Europa quando vejo um campanário – pode ser ortodoxo, protestante ou católico, mas, se vir um campanário, digo “a Europa está aqui”.
A Europa destruiu-se a si própria, porque as chamadas guerras mundiais não foram mundiais, foram guerras civis europeias, nossas, com efeitos nos outros povos, e por isso foram chamadas mundiais.
– O que teve consequências…
– Essa circunstância tornou já evidente que a verdadeira hegemonia exige não apenas o poder militar estratégico, mas o poder financeiro e económico. Os próprios Estados Unidos, neste momento, estão a dar-se conta disso: o seu poder financeiro está numa crise enorme. Também na Europa o poder financeiro está numa crise enorme. Em compensação, a China, neste momento, dá sinais de querer, ao lado do poder financeiro (ela que é proprietária da dívida soberana dos EUA), mostrar que tem o poder estratégico: já tem a bomba, pôs um porta-aviões no mar…
Haverá muitos Pacíficos, não haverá apenas o Pacífico dos Estados Unidos, como sendo o seu mar. Esta circunstância faz com que, na minha opinião, a organização da ordem vai ter que tratar, designadamente no Conselho de Segurança (que terá de ser alterado), não apenas com países individualmente capazes, mas com regionalismos organizados. A Europa, se persistir no projeto, é o primeiro regionalismo organizado sem forma final definida: quem deve estar no Conselho de Segurança não é a França nem a Inglaterra, é a Europa que lá deve estar.

Adriano Moreira nunca escondeu admiração pela figura do Papa Francisco. Foto © DR
O credo dos “pais fundadores” da Europa
– Para isso, ela tem que estar mais unida, o que não tem acontecido nos últimos anos.
– Há sinais de fractura, de facto. Às vezes, dá a impressão que a coligação do Norte, do tempo de Catarina da Rússia, está outra vez a querer definir-se, em relação à fronteira da pobreza do Sul, que vai coincidindo com o Limes romano. Se assim for, acabou-se a voz da Europa no mundo. E, se os europeus não perceberem isto, se o Ocidente não perceber que a questão é consigo, o mundo será outro, mesmo se ninguém consegue prever o que será.
Fazer juízos de certeza é impossível, fazer juízos de probabilidade é uma audácia e juízos de possibilidade devem ser acompanhados sempre da cautela de imaginar que pode acontecer outra coisa e não aquilo que se tinha imaginado.
– Essa sua leitura significa, então, que há uma traição aos ideais europeus dos pais fundadores?
– Há seguramente um desvio. Os pais fundadores tiveram a capacidade de transformar o sofrimento da guerra em sabedoria, talvez até em santidade, a favor da paz. A evolução para o “credo do mercado” não estava no seu projeto.
– Volto ao que já repetiu duas vezes: sem paz entre as religiões não pode haver paz no mundo. Essa ideia de Hans Küng, que foi consagrada, de alguma maneira, pelo Papa João Paulo II no espírito de Assis, é-lhe é muito cara nas suas intervenções?
– Sim, eu sigo essa ideia.
– Essa afirmação é o contrário do choque das civilizações ou é muito mais do que isso?
– É muito mais do que isso. Houve dois equívocos grandes. O primeiro é o de Francis Fukuyama quando disse que acabou a história – era o fim da história como a entendia, com o americanismo a fazer acabar o mundo do conflito ideológico. Caiu o Muro de Berlim, ficou só uma ideologia válida, que seria a americana. Ou seja, a história acabava porque iríamos todos ter direitos do homem no sentido americano, democracia no sentido americano, mercado no sentido americano. Mas ele agora escreveu outro livro, “A origem do poder”, que parece já mais próximo da realidade.
Essa busca do paradigma comum tornou-se muito mais evidente quando os movimentos terroristas que levaram à queda das Torres Gémeas colocaram valores religiosos nos objectivos estratégicos. É claro que, se nós fizermos isso, a paz está em perigo. Por isso atribuo fundamento à afirmação de que, que se não houver paz entre as religiões, não haverá paz no mundo, e isso é fundamental. A busca do paradigma comum é fundamental e Hammarskjöld merece a pena ser lembrado, de vez em quando.
– E o segundo equívoco?
– Foi ter ignorado, ou não ter antecipado, que a liberdade de todas as áreas culturais do mundo falarem pela primeira vez em liberdade, iria alterar a proposta de ordem mundial que os ocidentais definiram no fim da II Guerra Mundial.
– Nesse sentido, Fátima pode ser um lugar de construção da paz religiosa? O diálogo inter-religioso pode passar por Fátima? Ou de que modo olha para este lugar?
– Como um dos lugares do mundo de mais forte inspiração.





