Ataques constantes de colonos israelitas apoiados pelo seu exército estão a obrigar a comunidade palestiniana de Shi’b al-Butum, em Masafer Yatta (Sul da Cisjordânia, não muito longe de Hebron) a abandonar a sua aldeia e as suas terras. Para além desta, nove outras comunidades da região estão em risco iminente de deslocação forçada, uma vez que os militares israelitas declararam as suas aldeias parte de uma zona de treino militar.
A política de violência contra as comunidades de pastores da Cisjordânia, nas zonas mais próximas da fronteira com Israel, tem sido uma constante das últimas décadas e intensificou-se desde o ataque terrorista do Hamas a 7 de outubro de 2023, denuncia a Amnistia Internacional (AI) em comunicado enviado esta quinta-feira, 27 de fevereiro, à redação do 7MARGENS. A resistência dos pastores das aldeias palestinianas da região de Masafer Yatta à brutalidade das incursões dos colonos israelitas protegidos e apoiados pelo exército é o tema do premiado documentário No Other Land que está nomeado para os Óscares, cuja cerimónia decorre na noite deste domingo em Los Angeles.
As famílias palestinianas de Shi’b al-Butum, aldeia em que viviam 300 pessoas, têm sido sujeitas ao terror causado pelos “colonos israelitas que invadem as suas terras, vandalizam e roubam os seus bens, assediam-nos e agridem-nos fisicamente com total impunidade”, afirmou Erika Guevara Rosas, diretora principal da AI. Num vídeo datado de 19 de julho de 2024, certificado pela organização, “um grupo de oito colonos, acompanhado por um soldado, atacou membros da família Najjar que estavam sentados no exterior da sua casa [em Shi’b al-Butum] e bateram-lhes com paus enquanto o soldado assistia. As imagens de vídeo mostram também o soldado a apontar a arma à família palestiniana e depois a disparar para o ar. Dois membros da família foram hospitalizados devido aos ferimentos.”
Além dos constantes ataques violentos às pessoas, adultos e crianças, “as demolições de casas, as restrições de acesso à terra e a expansão ilegal dos colonatos pelas autoridades israelitas” são as principais armas da imposição do terror que estrangula economicamente as comunidades e as obriga a fugir, deixando para trás as suas aldeias e as suas terras, refere o comunicado da AI.
Quatro ataques diários
“Entre 7 de outubro de 2023 e 31 de dezembro de 2024, o Gabinete de Coordenação dos Assuntos Humanitários das Nações Unidas – citado pela AI – documentou 1.860 incidentes de violência de colonos que levaram à deslocação de mais de 300 famílias (1.762 pessoas, incluindo 856 crianças) e registou um aumento do número de ataques violentos de colonos na Cisjordânia, de uma média de dois por dia em 2022 para quatro por dia em 2024”.
Segundo a AI, o que está agora a acontecer em Shi’b Al-Butum é uma réplica fiel do que já aconteceu em muitas aldeias da região e dá, como exemplo a aldeia de Zanuta que a Amnistia Internacional visitou em março de 2024 quando já estava totalmente abandonada. “Devido à violência diária dos colonos apoiada pelo exército israelita a comunidade viu-se obrigada a fugir e deixar a aldeia e abandonar as suas terras em 22 de outubro de 2023. O Supremo Tribunal de Israel ordenou que os residentes de Zanuta fossem autorizados a regressar à sua comunidade em julho de 2024. No entanto, depois de algumas famílias terem regressado em agosto de 2024, os ataques dos colonos recomeçaram rapidamente, obrigando os residentes a partir mais uma vez. As últimas famílias deixaram Zanuta em 18 de outubro de 2024”.
Um antigo residente de Zanuta, Adel A-Tal, contou à AI: “Os colonos estavam armados e continuavam a atacar-nos. Éramos a última família que lá estava. Todos os outros tinham partido, por isso tivemos de partir também, para segurança dos nossos filhos e do nosso gado. Tínhamos medo, era um terror.”
A situação das aldeias palestinianas da região de Masafer Yatta é o tema do documentário No Other Land, que conta a história de dois jornalistas, o palestiniano Basel Adra e o israelita Yuval Abraham, que decidiram unir-se para denunciar a violência e as consecutivas demolições das habitações daquelas aldeias pelo exército e colonos israelitas.
O documentário foi escrito e realizado entre 2019 e 2023 por quatro ativistas políticos – Basel Adra e Hamdan Ballal (palestinianos) e Yuval Abraham e Rachel Szor (israelitas) –, ganhou o prémio de melhor documentário Festival de Cinema de Berlim (2024) e é candidato a ganhar a mesma distinção na cerimónia dos Óscar que terá lugar na noite do próximo domingo, dia 2 de março (madrugada de dia 3, hora de Lisboa).
(Imagem de destaque: Um habitante de Masafer Yatta, fotografado na região do sul da Cisjordânia que tem enfrentado ameaças de expulsão e ordens de demolição desde 1981. © MSF)
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