Uma manifestação de apoio à hierarquia católica, também convocada para reclamar a devolução da Rádio Renascença ao Episcopado, colocou Braga, no dia 10 de Agosto de 1975 – assinalam-se hoje 50 anos – no centro da actualidade política nacional e internacional. “Mais de cem mil pessoas manifestaram-se ontem em favor do Episcopado Português”, registaria, no dia seguinte, a manchete do Diário do Minho, então dirigido por Domingos da Silva Araújo.
A primeira página do jornal referia uma afirmação do Arcebispo Primaz, Francisco Maria da Silva, que, na ocasião, tinha dito: “Quem nos governa há-de tomar consciência do que o povo quer e do que o povo não quer”. A uma participante, Beatriz Lima, que interveio “em nome de milhares de mulheres cristãs da Arquidiocese de Braga”, era atribuída, noutro título, uma declaração mais contundente: “É repugnante haver quem pretenda injuriar a Igreja através da Hierarquia”. A primeira página servia ainda para divulgar um comunicado da Comissão Organizadora da Manifestação de apoio ao Episcopado em Braga. A única fotografia da capa apresenta o prelado enquanto discursava.
Uma nota de cinco linhas no final da última página dava conta do extraordinário impacto mediático da manifestação bracarense: “De realçar a enorme cobertura dos órgãos de informação tanto nacionais como estrangeiros. Entre os estrangeiros pudemos reconhecer os da Suécia, Dinamarca, França, Noruega, Brasil, Alemanha, Espanha, Canadá, Inglaterra, América do Norte, etc.” Alguns dos jornalistas encontravam-se, aliás, na lista de feridos identificados na notícia “Incidentes na sede do P. C. em Braga”.
O que se sabe hoje sobre o que se passou nesse dia e nos seguintes é muito diferente daquilo que durante anos foi a verdade dos factos.

O povo encheu as ruas de Braga para se manifestar. Foto © Arquivos RTP
Tal sucede, em grande medida, graças às revelações de José Sanches Osório, membro do Movimento das Forças Armadas e da sua primeira Comissão Coordenadora e, a seguir, descontente com o rumo da revolução, participante, no exílio, na fundação do Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP), um agrupamento que congregava pessoas da extrema-direita civil e militar e que, com o Exército de Libertação Português (ELP), colocou o Norte do País “a ferro e fogo”, atacando à bomba, a tiro ou incendiando as sedes do PCP e de outros partidos de esquerda e de sindicatos ao longo do Verão Quente de 1975. O modo como as coisas realmente se passaram foi recordado, neste início de Agosto, numa conversa do oficial militar com Nuno Ribeiro, jornalista do Público [1].
José Sanches Osório, que foi deputado do CDS entre 1979 e 1983, já tinha, aliás, contado a verdadeira história numa entrevista concedida ao jornalista João Paulo Guerra em Abril de 1999: “Eu e determinadas pessoas fizemos uma denúncia falsa ao COPCON, dizendo que o arcebispo de Braga, que ia participar num congresso eucarístico em S. Paulo, levava divisas de contrabando. De maneira que o arcebispo foi retido e revistado pelo COPCON no aeroporto da Portela. A denúncia falsa foi nossa, para lhe provocar a reacção que ele veio a ter, que foi convocar a manifestação de Braga. Depois explicámos-lhe o assunto e pedimos-lhe desculpa. E o arcebispo de Braga absolveu-nos.”
A artimanha funcionou
Na conversa publicada pelo Diário Económico [2] – e reproduzida no blogue de João Paulo Guerra, Jornalismo: Diz que é uma espécie de democracia – José Sanches Osório revelou a autoria da ideia: “Foi, foi de facto do engenheiro Jorge Jardim”, que “tinha contactos frequentes com o major Otelo Saraiva de Carvalho”. Agora, ao Público, acrescentou um nome: “A denúncia foi numa carta do engenheiro Jorge Jardim e de Valdemar Paradela de Abreu”. Os elogios a Jorge Jardim são constantes. “Uma personalidade notável”, registou João Paulo Guerra. Nuno Ribeiro escutou que “Jorge Jardim foi utilíssimo, tinha uma imaginação extraordinária e a experiência de operações militares em África”.
A artimanha funcionou. Ou, dito de outro modo, o rastilho foi aceso. O MDLP conseguiu que o Arcebispo de Braga fosse humilhado e que se criasse a ideia de que a responsabilidade tinha sido dos comunistas e dos seus aliados. D. Francisco Maria da Silva ter sido retido e revistado, segundo José Sanches Osório, terá contribuído para quebrar a resistência que o prelado tinha manifestado em apoiar a actividade do MDLP, tarefa que delegou no cónego Eduardo Melo Peixoto.

O povo pedia a devolução da Rádio Renascença ao episcopado. Foto © Arquivo RTP
José Sanches Osório recorda a conversa com o Arcebispo de Braga: “Ele disse-nos que não nos podia ajudar, que era um problema que o transcendia, mas que nos ia apresentar alguém, era o cónego Melo.” A conclusão é óbvia: “A denúncia falsa foi o detonador para pôr o arcebispo a colaborar”.
As várias entrevistas de José Sanches Osório têm revelado diversos detalhes sobre como começou a acção bracarense contra o PCP: “O funcionamento da organização da manifestação [de Braga] foi pôr uma cidadã a dar um tiro com uma pistolinha que tinha na mala e, depois, vários outros espalhados tacticamente entre a multidão de manifestantes, que gritavam: ‘Olha o PC, olha o PC.’”. Têm, todavia, sido omissas relativamente a um pequeno pormenor: quando e como é que ele, Jorge Jardim e Valdemar Paradela de Abreu, estando no exílio, souberam que o Arcebispo de Braga ia ao Brasil.
Um “imenso vexame”
A passagem de Francisco Maria da Silva pelos serviços aduaneiros do Aeroporto de Lisboa no dia 11 de Junho de 1975 foi controversa. Para o Arcebispo, foi um imenso vexame. O próprio o atestou numa “crónica” publicada nas páginas do Diário do Minho [3]. A descrição é feita “com indignação e alguma tristeza”.
A certo momento, “quando já o cansaço nascido da monotonia da espera se apoderara de todos, uma voz ecoa ao alti-falante: o passageiro Francisco Silva queira contactar com a alfândega”. Apresentaram-se dois. “Mas um agente, com um gesto apontando para mim, resolve a dificuldade: era eu o visado”. O prelado conta que era “acusado de ser portador de divisas”, razão por que iria ser revistado de novo. O relato prossegue:
“Conduzem-me, então a um subsolo, onde me encontro com dois agentes, os quais ordenam: – tire o casaco.
– Ordem cumprida, ainda a sorrir.
– Mexem e remexem,
Eu, no íntimo, comentava: estão a admirar um casaco novo, bem feito.
Em seguida: – tire os sapatos.
Imediatamente o fiz.
– Então dentro de mim nasce a revolta e pergunto: – querem também as meias? – Não – respondem.
– As calças – exclamam!
– Ergo-me, faço o gesto de cumprir, fecho os olhos, levanto o pensamento a Deus, deixo inspeccionar, e oiço dizer: basta!”
A narração chega ao momento em que, nada tendo sido encontrado, foram pedidas desculpas.
Os verdadeiros culpados pela humilhação, José Sanches Osório, Jorge Jardim e Valdemar Paradela de Abreu, também pediriam desculpas e, neste caso, sabemos que foram aceites, como o oficial militar atestou, ao tornar público que o prelado bracarense os absolvera.
“Apetece-nos chorar”
O texto de Francisco Maria da Silva suscitaria uma “Carta aberta ao sr. arcebispo de Braga” [4], subscrita pelos trabalhadores alfandegários do Aeroporto de Lisboa, que também se acharam desconsiderados. Disseram ter tratado com correcção o prelado, garantindo que, “no fim, procurando ser dignos, verdadeiros e justos, pediram-lhe desculpa pelo incómodo”. De resto, julgaram que foi Francisco Maria da Silva que “tentou amesquinhar os homens que correctamente o trataram, denegrindo a sua missão, achincalhando o seu trabalho”.

O anúncio da manifestação foi feito na imprensa. Foto © Direitos Reservados
Os trabalhadores alfandegários lamentaram, particularmente, uma observação do Arcebispo Primaz sobre eles terem ficado deslumbrados a “admirar um casaco novo, bem feito”. Para os autores da “carta aberta”, “o sr. Arcebispo tem de facto uma grande aptidão para o humor negro! A nós, não nos faz sorrir, sinceramente, apetece-nos antes chorar, ao imaginarmos o sr. Arcebispo de Braga, nas aldeias da sua Arquidiocese, olhando os pobres, sorrindo-lhes e pensando, ‘como estão felizes a contemplar as minhas vestimentas, coitados, como é simples contentar estes cordeirinhos’”.
As repercussões internacionais da manifestação bracarense foram muitas e uma delas ficou registada no Diário de Lisboa. “O Arcebispo de Paris critica o de Braga”, dizia o título de uma notícia de 16 de Agosto de 1975. O Cardeal François Marty, então presidente da Conferência Episcopal Francesa, afirmara, na catedral de Notre-Dame, a propósito de Portugal, que “a concórdia vale mais do que a violência e a justiça vale mais do que a força”.
Cinco décadas depois, não se pode dizer que o propósito se tenha tornado irrelevante.
[1] Nuno Ribeiro – “Verão Quente de 1975: um país a ferro e fogo”. Público, 3 de Agosto de 2025
[2] João Paulo Guerra – “O arcebispo de Braga absolveu-nos”, entrevista a José Sanches Osório, major do MFA e ex-dirigente do MDLP. Diário Económico, 19 de Abril de 1999
[3] [D. Francisco Maria da Silva] – “Romagem ao Brasil”. Diário do Minho, 31 de Julho de 1975
[4] “O Minho à procura do tempo perdido”. Diário de Lisboa, 14 de Agosto de 1975
Nota final: Quem pretender aprofundar o conhecimento deste período, beneficiará com a leitura de Quando Portugal Ardeu. Histórias e segredos da violência política no pós-25 de Abril, de Miguel Carvalho. Oficina do Livro, 2017










