Carlos Sarmento Pereira (1925-2024) faleceu no passado dia 27 de dezembro. Marido, pai de sete filhos, avô de catorze netos e bisavô de doze bisnetos, privilegiou sempre a Família! Foi professor, dono da Casa Pereira das Violas, bracarense e braguista aficionado. Cidadão e humanista, deixou-nos um legado único. Segue-se o testemunho da neta Sofia, pianista e docente no Conservatório de Música Calouste Gulbenkian.

Carlos Sarmento Pereira. Foto: Direitos reservados.
No seguimento do falecimento do meu avô, a vinte e sete de dezembro de 2024, pediram-me que escrevesse algo, na perspetiva da minha vivência e das minhas memórias com ele.
Desde pequena que sempre me senti muito ligada ao meu avô, aos meus avós. As minhas memórias passam muito por todos os momentos de convívio e de confraternização familiar, alguns passeios e viagens, muitas lembranças associadas à sua casa e à sua loja, bem como recordações dos verões em conjunto, todos os anos, na praia de Moledo.
Em criança estudei no Colégio e Escola Primária D. Pedro V, na Avenida Central, escola frequentada, ao longo de gerações, por várias pessoas da minha família, incluindo o meu avô, que lá terá realizado a sua “escola infantil” na década de 1930. Situada na mesma rua fica a Casa Pereira das Violas, fundada em 1918 pelo meu bisavô, Manuel Pereira (que não conheci). Em pequena, eu e os meus primos, quando terminávamos as aulas, percorríamos a avenida, íamos ao encontro do nosso avô na loja, e dali seguíamos para sua casa, onde almoçávamos e fazíamos os trabalhos da escola.
Entre as memórias da minha infância ficarão para sempre o brincar e o jogar entre carrinhos de linhas, fivelas, fitas e botões! A Casa Pereira das Violas, hoje designada como uma das “Lojas com História” da cidade de Braga, era uma das grandes paixões do meu avô (não a primeira, a maior de todas era a minha avó!). Dado o seu curso de contabilista, área da qual foi professor, sempre empreendeu na retrosaria todo o conhecimento que tinha sobre os números e a gestão, função esta que exerceu, presencialmente, até maio de 2024.
Em casa dos meus avós existia um piano e muitas partituras. Sempre gostei de explorar esse instrumento e foi nele que descobri que uma das minhas vocações passava também por aí. Apesar do piano ser antigo, o avô adorava que se tocasse nele e, possivelmente, porque a sua mãe (minha bisavó) havia sido professora de piano, o avô sempre incentivou a Música!
Ao recordar o meu avô é inevitável pensar no imenso amor que tinha por Braga e o seu Clube. Ao longo do seu percurso o avô sempre acompanhou os jogos, ora no estádio, ora pela rádio, ora pela TV. Quando o resultado era positivo, geravam-se dias de conversa sobre o mesmo assunto; quando o Braga perdia, o melhor mesmo era que ninguém lhe falasse nisso. Nada se sobrepunha ao seu Sporting Clube de Braga, do qual era o sócio número 40!
Ao longo da vida, fiz algumas viagens com o meu avô – a Caminha, a Cerveira, a Tui, a S. Miguel-Açores, a Fátima, entre outras –, e para onde quer que fôssemos, o avô levava sempre consigo a sua máquina fotográfica! O tempo de parar para tirar fotografias fazia parte dos seus rituais, e todos nós sabíamos que tínhamos de lhe proporcionar espaço a escolher onde devíamos colocar a nossa mão direita, a nossa mão esquerda, as nossas pernas e para onde deveríamos e de que forma deveríamos olhar! Tudo muito estilizado, mas, como expressava, “a mostrar o sorrisinho muito naturalmente!”.
O meu avô não conseguia compreender como hoje nos limitamos a guardar as fotografias digitalmente e, em consequência disso, imprimia-as, datava-as e oferecia-nos esses seus deliciosos registos. Os meus avós tinham uma casa de férias em Moledo do Minho, a qual se repartia pelos vários agregados familiares durante o Verão, para que todos pudéssemos usufruir um pouco desse lugar. Desde que nasci, durante a primeira quinzena de agosto estava sempre com eles.

Sofia com o avô. Foto: Direitos reservados
Apesar de estarmos de férias, o meu avô gostava de incutir em nós o ritmo da praia! Quem chegasse depois das nove e meia da manhã ao areal ouvia um sermão: “Isto não são horas de se chegar à praia! Moledo não é para ficar a dormir na cama, há que aproveitar muito bem a praia, enquanto se pode estar exposto ao sol!”. Todas as manhãs o avô percorria a pé todo o areal, e quando chegava ao fundo da praia, no lugar mais próximo da ínsua, parava para a contemplar, e começava a fazer um encadeamento de exercícios físicos para trabalhar pernas e braços. Acompanhei-o muitas vezes nestas suas caminhadas, e ele dizia-me: “Vamos, Sofia, faz como eu, temos de trabalhar os músculos!”.
Entre a leitura dos jornais, as conversas com os amigos que paravam na barraca para estar com ele, e as habituais entrevistas que o avô nos ia fazendo sobre a nossa vida e os nossos objetivos durante este tempo de paragem, passámos dias cheios, junto ao mar.
O meu avô acreditava que uma parte de nós permanece viva após a morte, a parte que não é física nem material, o nosso Espírito. Nos últimos anos, quando reunia a família de seis filhos, catorze netos e doze bisnetos, fazia um discurso alusivo ao momento, em que pedia sempre um minuto de silêncio em oração pelo seu filho e a sua esposa falecidos, José e Maria, e dizia: “em espírito eles estão aqui connosco!”.
O nosso último encontro familiar foi o Natal passado, vivemo-lo em pleno. Na ceia de vinte e quatro e no almoço de vinte e cinco de dezembro, o avô voltou a discursar, lembrando a importância da união e da alegria na família. Nesse discurso o avô despediu-se, disse emocionado que seria o seu último Natal, e entregou aos filhos um trabalho escrito chamado “Ponto Final”. Na sua última redação escreveu: “O fim definitivo, dada a minha idade, aproxima-se. Todos vos levarei no coração. Na eternidade, Deus há-de permitir que nos voltemos a juntar. Deus seja bendito!”.
Faleceu passado dois dias.
Até já, querido avô!
Sofia Sarmento, pianista natural de Braga, realizou a sua formação em Portugal e Inglaterra, tendo participado em festivais e concertos internacionais. Premiada em diversos concursos, especializou-se em música contemporânea, e colaborou em projectos multidisciplinares, tais como o cinema e a dança. É docente no Conservatório de Música Calouste Gulbenkian.






