Como o Brasil destruiu a Marcha para Jesus

| 21 Set 2022

Afastada do espírito original, a Marcha para Jesus no Brasil transformou-se em palanque para disputa política, para atacar adversários e para promoção pessoal. Portanto, reduziu-se agora a uma marcha sem Jesus uma vez que Ele não é cabo eleitoral de ninguém.

O Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, durante a 27ª edição da Marcha para Jesus, em São Paulo, em 2019. Foto © Isac Nóbrega/PR do Brasil.

O Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, durante a 27ª edição da Marcha para Jesus, em São Paulo, em 2019: uma iniciativa transformada em comício político. Foto © Isac Nóbrega/PR do Brasil.

 

A primeira edição da Marcha para Jesus é inglesa, data de 1987 em Londres e partiu de um grupo de três líderes de igrejas ou movimentos cristãos e um artista do meio chamado Graham Kendrick. Nos anos oitenta Kendrick estava no auge da sua popularidade nos meios protestantes e evangélicos anglo-saxónicos e mais além. As igrejas cantavam as suas composições na liturgia do culto um pouco por todo o mundo, de modo que ele escreveu uma série de canções apropriadas para a expressão externa da igreja.

Os organizadores previram que essa edição inaugural da Marcha juntasse cinco mil pessoas e surpreenderam-se ao ver que os números ascenderam ao triplo. Três anos depois o evento estava institucionalizado e já se realizava em meia centena de cidades em todo o Reino Unido, incluindo Belfast (Irlanda do Norte), onde seis mil católicos e protestantes se juntaram.

No início dos anos noventa a Marcha já se realizava em centenas de cidades de duzentos países juntando milhões de pessoas em todos os continentes. Em 2009, o então Presidente Lula da Silva fez integrar a Marcha no calendário oficial do Brasil através de lei federal, definindo-a como Bem Imaterial e Cultural da Nação Brasileira e autorizando expressamente a “destinação de recursos públicos das esferas Municipal, Estadual, Distrital e Federal para apoio na realização do evento”.  

Este evento foi criado com a ideia de ser um momento único para vivenciar a vida cristã na rua, fora dos templos, na unidade dos cristãos e como expressão da alegria conferida pela fé e de proclamação da esperança do evangelho. O site oficial da March for Jesus define-a muito claramente como um evento de carácter estritamente religioso: “é um desfile de louvor pelas ruas da cidade, celebrando o Senhorio de Jesus Cristo e culminando num grande evento de adoração em que os cristãos proclamam publicamente a Glória, a Majestade e a Supremacia do Salvador. É tudo sobre Jesus… e nada mais.”

A mesma fonte diz-nos que a visão geral da organização passa por manter sempre a figura de Jesus como foco principal do evento: “Esta é uma marcha para Ele, e somente com Ele será realizada. Tenha cuidado para que nada distraia do propósito primordial de simplesmente exaltar Jesus, tanto na Marcha como durante o seu planeamento.”

Entretanto, nos últimos anos o Brasil tem vindo a desvirtuar o espírito deste evento por completo. Este ano, por exemplo, foi transformada em comício político em favor da candidatura de Bolsonaro, com a preciosa ajuda do discurso de alguns daqueles líderes religiosos evangélicos que carregam às costas dívidas imensas e que vêm no apoio ao actual presidente uma esperança de perdão das mesmas.

Segundo Boyd, “a história ensina que o melhor caminho para destruir a igreja é dar-lhe poder político” (The Myth of a Christian Religion, Losing Your Religion for the Beauty of a Revolution. Michigan: Zondervan, 2009, p. 13). Nem faltou à festa uma líder que foi presa com o marido, em 2007, ao tentarem entrar nos Estados Unidos com dezenas de milhares de dólares escondidos numa bíblia…

É que mesmo com o perdão de dívidas de que estes pastores mediáticos seus apoiantes beneficiaram no ano passado, ainda mantêm uma dívida bilionária em impostos que pode ser impactada pela nova medida presidencial, isto é, uma isenção fiscal para beneficiar as igrejas evangélicas, principalmente as neopentecostais a que estes líderes pertencem e que são as maiores devedoras de impostos, respondendo por isso a várias acções judiciais em curso.

Entre os devedores está Valdemiro Santiago, da Igreja Mundial, o cunhado de Edir Macedo, R.R. Soares, da Igreja Internacional da Graça de Deus, e Estevam Hernandes, da Renascer em Cristo, todos apoiantes de Bolsonaro, como é óbvio. Segundo o portal Fórum: “Mesmo com o perdão dessas dívidas, um grupo de 16 entidades religiosas deve R$ 1,6 bilhão em impostos, segundo a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional em levantamento realizado setembro do mesmo ano (…) O volume de débitos representa 81% de todas as dívidas de 9.230 instituições evangélicas, católicas, espíritas e islâmicas devedoras em todo o país.”

Em Vitória (Espírito Santo), este ano até surgiu uma pistola gigante integrada na Marcha, num descarado esforço de propaganda de armas de fogo, por parte dum fabricante, em claro alinhamento com a política do governo Bolsonaro mas em flagrante contramão com o espírito do evento. O mais dramático é que antes de Bolsonaro ter sido considerado o “mito messiânico” desses evangélicos, na Marcha para Jesus os pastores oravam pelo desarmamento da população e destruíam armas diante da multidão…

Afastada do espírito original no Brasil, a Marcha transformou-se em palanque para disputa política, para atacar adversários, para promover o armamento da população e para promoção pessoal. Portanto, a Marcha para Jesus é agora uma marcha sem Jesus, uma vez que Ele não é cabo eleitoral de ninguém, sempre combateu o recurso às armas e à violência, e nunca fez nada para se autopromover. Eis como o Brasil destruiu a Marcha para Jesus. Pelo menos no Brasil.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum; este texto foi inicialmente publicado na página da revista Visão.

 

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