Católicos portugueses pouco entusiasmados?

Das “baixas expectativas” à “oportunidade de uma Igreja aberta” – Inquérito sobre o Sínodo

| 21 Set 2021

Inquérito aos movimentos: pouco interesse na dinâmica sinodal? Foto © Antenna | Unsplash

 

Um dos desafios a que o próximo Sínodo da Igreja Católica quer meter ombros é o de colocar pessoas, comunidades e estruturas em escuta. Como explicava há dias o Papa Francisco, não se trata apenas de uma tarefa, mas de uma atitude a cultivar, um modo de ser Igreja. Que pode assumir várias formas.

O 7MARGENS entendeu auscultar um conjunto de 63 movimentos e associações católicas, procurando contemplar diversidade de carismas e de setores e mesmo de atitudes perante o futuro. A auscultação decorreu na segunda metade de julho, num momento em que já se conhecia o cronograma e dinâmica do Sínodo. Enviámos três perguntas abertas:

  1. Que expectativas lhe suscita este desafio sinodal no que respeita à Igreja Católica em Portugal?
  2. Para que a Igreja Católica em Portugal acolha este desafio como uma oportunidade de renovação (pessoal, comunitária e de modos de funcionar) norteada pela Boa Nova de Jesus, que devem fazer os leigos? E que recomendações faria aos bispos portugueses?
  3. Que características e âmbito entende dever ter a escuta que as igrejas diocesanas são chamadas a realizar, até à primavera de 2022?

 

O primeiro dado a sublinhar é a percentagem muito reduzida de respostas. Dos 63 movimentos convidados, responderam nove, mesmo depois de insistências por telefone – pouco mais de 14 por cento. É difícil encontrar explicações para o silêncio de tantos grupos: um período em que alguns dirigentes já se encontravam de férias? O tema que não suscitou suficiente interesse? Haverá, por outro lado, algum significado no tipo de instituições que responderam? E poderá a fraca participação indiciar, de alguma forma, expectativas reduzidas para o Sínodo cuja abertura se aproxima e que culminará com a assembleia episcopal de 2023?…

 

Como vamos de expectativas?

A primeira questão incidia precisamente sobre as expectativas do desafio sinodal, tendo como referência a Igreja em Portugal. Para a organização católica O Ninho, que desenvolve na cidade de Lisboa o seu trabalho de estudo do fenómeno da prostituição e de acolhimento e inserção de pessoas prostituídas, as expectativas “não são muito altas”. Esclarece a sua visão observando que “a participação plena na vida da Igreja, por parte de todas e todos, sem aceção de ninguém, tem vindo a enfraquecer”.

O Ninho reconhece que novas associações e movimentos têm surgido, mas orientados, em alguns casos, por posicionamentos integristas e de secretismo. Refere como dificuldades “a preponderância do clero na condução da vida da Igreja” e uma “participação laical (…) mais centrada no ritualismo”, excetuando uma “elite de leigos” que, no entanto, “são, normalmente, submissos ao poder dos clérigos” Em suma, para O Ninho, “em Portugal, ainda há um longo caminho a percorrer para se entrar no dinamismo de uma Igreja sinodal”

As Oficinas de Oração e Vida (TOV, da sigla em espanhol)), com comunidades de oração presentes em 16 das dioceses do país, esperam que o Sínodo seja “uma oportunidade para, efetivamente, fazermos itinerário em comunidade – realçando a dimensão colegial da Igreja, cuja base é a participação ativa de cada batizado na missão sacerdotal e profética de Jesus Cristo, segundo a sua vocação”. Para isso haverá que “valorizar a co-responsabilidade e o diálogo entre os diferentes intervenientes”.

“Temos uma grande expectativa”, anotam por sua vez as Fraternidades Leigas Dominicanas, o ramo laical da Ordem dos Pregadores. Justificam de forma clara o motivo, deixando também, nos subentendidos, questões muito interessantes: “O desafio de sermos leigos pregadores nem sempre é fácil… quer pela questão da nossa formação teológica quer pelo lugar que nos é (ou não) dado”.

No caso da Ação Católica para os Meios Independentes (ACI), resume-se a abertura à iniciativa do Papa desta forma: “Sonhamos com uma Igreja aberta a todos, que siga o seu pastor, que seja cada vez mais e melhor um caminho de integração e de exemplo de vida coerente, generosa e cheia de alegria e de Vida! Temos de ser o verdadeiro ‘sal da Terra’ e a ‘luz do mundo’!!!.”

CBCEUA Bispos EUA

Os bispos reunirão a partir das reflexões e contributos dos movimentos e leigos, que deverão produzir uma síntese em cada diocese. Foto © USCCB.

 

No caso das Equipas de Jovens de Nossa Senhora, o maior desafio que enfrenta a dinâmica sinodal parece ser “a falta de comunicação entre os diversos grupos e movimentos católicos de Portugal”.  Para este movimento, presente em 11 dioceses e integrando à roda de 3000 jovens e casais em pequenos grupos-comunidades, uma igreja sinodal de comunhão e participação requer “oportunidades de escuta entre os responsáveis dos diversos grupos”, com a presença dos bispos para “nos orientar a favor das necessidades da Igreja”.

A Cáritas, organização sociocaritativa voltada para o desenvolvimento humano integral e a defesa do bem-comum, que cobre praticamente todo o território nacional, vê o Sínodo, “vivido em ‘pós’ pandemia”, “com muita expectativa”, na linha do caminho que, “desde sempre, o Papa Francisco propôs de “relação direta, frontal e de abertura ao mundo”. Preocupada com a transformação da sociedade, a Cáritas acredita que a Igreja “terá a ganhar quanto maior for a sua relação de proximidade com as comunidades locais”, em particular as mais vulneráveis.

Finalmente, a Obra Católica Portuguesa de Migrações, departamento da Conferência Episcopal, com presença em 17 dioceses, tem face ao processo sinodal a expectativa de que “sejamos capazes de crescer no diálogo e na construção de pontes”, “de ser internamente fraternos e conjugar esforços”, “conhecer melhor e valorizar os diferentes ministérios e carismas” e “não ter medo de mudar e inovar sem perder a memória, valores e princípios que nos edificam”.

 

Texto com os contributos de António Marujo, Eduardo Jorge Madureira e Jorge Wemans

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