Isabel Sofia Carneiro Moita defendeu no passado dia 14 de outubro, na Universidade Fernando Pessoa (Porto), uma dissertação de mestrado subordinada ao tema “Jornalismo Temático e Generalista: O Conclave no 7Margens e no Jornal Público”. Tendo sido aprovado com Muito Bom, reproduzimos abaixo, com autorização da autora, algumas passagens deste trabalho.
A presente dissertação propõe analisar, comparativamente, o uso dos géneros jornalísticos no 7Margens e num jornal generalista, o Público, através de uma seleção de notícias sobre o mesmo tema: o conclave realizado em 2025. A eleição de um novo Papa representa um evento com elevada carga simbólica para os crentes, sendo que será coberto por vários meios de comunicação social com diferentes orientações editoriais. Esta análise focar-se-á na forma como estes dois jornais irão estruturar as suas notícias em torno deste tema, procurando compreender qual o grau de noticiabilidade de cada um dará a este tema e como o leitor será informado. Dado que o jornal 7Margens é um jornal inteiramente online, todas as notícias deste meio serão analisadas no site. Pelo contrário, os textos jornalísticos do jornal Público serão analisados os artigos noticiosos da edição impressa.
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No caso do jornalismo temático, representado nesta dissertação pelo jornal 7Margens, é orientado para um público mais específico, com interesse em temas religiosos, sociais e culturais. Este jornal foca-se no Cristianismo e nas interseções entre a religião e a sociedade. As estratégias usadas por este modelo em comparação com o modelo generalista vão também desde a linguagem usada ao seu público. No jornalismo temático, a linguagem mais especializada e contextualizada conta sempre com referências simbólicas que pressupõem que o leitor tem algum tipo de conhecimento do tema. Os géneros usados que são mais frequentes neste modelo são a crónica, a entrevista e os artigos analíticos. O foco narrativo dos textos jornalísticos são de um tema apenas ou com menor dispersão temática. Por último, neste modelo, existe a construção de um género de comunidade leitora, que não procura apenas informação, mas muitas vezes uma certa reflexão.
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A cobertura do conclave pelo Público e pelo 7Margens revela de forma mais concreta quais são as diferenças claras como cada um faz o tratamento do tema. No jornal 7Margens, este tema tem uma perspetiva mais teológica e pastoral, com foco na implicação eclesial do evento, nos discursos e tensões internas da igreja e nas possíveis repercussões para a comunidade católica. Os textos jornalísticos contam com uma análise mais aprofundada, com recursos a fontes especializadas, entrevistas com teólogos e notícias que vão para além da narrativa factual de um jornal generalista. Pelo contrário, no jornal Público, este tema é tratado como um evento internacional importante, com interesse político. A abordagem deste jornal privilegia a atualidade, a dimensão geopolítica da igreja católica. A profundidade é moderada, pois é pensada para um leitor informado, mas não necessariamente familiarizado com os costumes da igreja católica.

Durante a defesa da dissertação de mestrado, na Universidade Fernando Pessoa (Porto). Foto: Direitos reservados
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Os jornais temáticos, como o 7Margens, são criados com uma missão editorial que privilegia a reflexão e o aprofundamento sobre temas religiosos, espirituais e éticos. Nestes meios, a religião não é tratada como um assunto ocasional ou periférico, mas sim como um eixo estruturante da experiência da sociedade. Por estes motivos, o tratamento que é conferido a acontecimentos como um conclave é marcado por uma análise contextualizada e por uma atenção detalhada a todos os factos, protagonistas e implicações do evento.
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Enquanto o 7Margens dedicou múltiplos artigos sobre a eleição do novo Papa, tratando do perfil de Leão XIV, a continuidade com os ideais de Francisco, as implicações pastorais da sua eleição e o seu pensamento sobre algumas questões controversas, o jornal Público optou por uma cobertura mais sintética, isto é, com foco na factualidade do conclave e as reações institucionais. Esta diferença sublinha o papel específico que o jornalismo especializado desempenha na interpretação e aprofundamento dos fenómenos religiosos, contrastando com o papel informativo dos meios de comunicação generalistas.
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A análise revelou que, embora ambos os jornais tenham noticiado sobre o mesmo acontecimento – a eleição de um novo Papa -, a forma como o fizeram foi profundamente marcada pelas suas orientações editoriais, pelas suas estratégias discursivas e pelos seus públicos-alvo. No caso do 7Margens, ficou evidente uma aposta clara na profundidade: os textos publicados apresentaram contextualização histórica, teológica e pastoral; incluíram vozes especializadas, como teólogos e figuras religiosas relevantes; recorreram a géneros mais densos como a análise, o artigo de opinião e a reportagem interpretativa; e procuraram não apenas noticiar, mas também fazer uma interpretação, esclarecer e provocar reflexão. O enquadramento do Conclave foi feito à luz de várias questões eclesiais estruturantes e de continuidade com o pontificado de Francisco, revelando uma preocupação com o sentido e com o impacto do evento no seio da Igreja Católica e na sociedade.
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Importa sublinhar que estas abordagens não são exclusivas nem antagonistas. Pelo contrário, são complementares e essenciais à pluralidade informativa numa sociedade democrática. Se o jornalismo generalista garante o acesso diário à informação e contribui para a literacia cívica de base, o jornalismo temático assegura a continuidade da reflexão e da interpretação em áreas especializadas, permitindo aos leitores um envolvimento mais profundo com os temas abordados.










