A peça “Operariada” foi apresentada no início deste ano, em Riba de Ave e em Guimarães. Em palco, duas personagens, as criadoras, Catarina Laranjeiro e Tânia Dinis, envergam aventais brancos e, numa alusão clara ao trabalho executado pelas mulheres nas fábricas têxteis durante a segunda metade do século passado, circulam, sob jogos de luzes e de contrastes, de forma silenciosa e ziguezagueante como outrora faziam as mulheres entre o espaço doméstico e o laboral.
Trata-se de uma performance dura e exigente, porque arrasta o público até aos fios, às canelas, aos teares, aos números, às faltas, aos juízos de valor e às dificuldades por que passavam os operários, mas expande o campo ocular de quem vê uma realidade que hoje é extemporânea. A densidade psicológica das mulheres que intervêm prende a atenção do espectador até ao fim. Este segue com as protagonistas nos caminhos até à fábrica, almoça com elas, faz a “meia hora” de pausa e contorce o corpo, quando lhes gritam e as ameaçam. Seguindo os relatos vivenciais de cada uma das participantes, o espectador é desafiado a acompanhá-las nas suas jornadas individuais e coletivas. Uma voz off guia o público, transmitindo testemunhos na primeira pessoa: casos de abuso de poder, assédio, desrespeito pelas necessidades básicas das mulheres, castigos aplicados por incumprimentos que decorriam da sua condição de mães, entre outros aspectos do quotidiano que marcavam as suas vidas e rotinas diárias.

Cartaz de anúncio da peça em Riba D’Ave e Guimarães.
Na minha perspectiva, esta performance deveria ser apresentada noutras cidades, porque a sua interpretação em Riba de Ave e em Guimarães, berço por excelência da indústria têxtil, permite-nos fazer memória, memória agradecida de tantas pessoas que “teceram” as suas existências com fome, fadiga e incompreensão, mas parece-me imperioso levar este trabalho a outros palcos, pelo país fora, para que se conheça e melhor se compreenda a história e os fios que se entrelaçaram nas vidas que deram forma à indústria têxtil no Vale do Ave.
Se o tema é aparentemente banal e do conhecimento de todos que privaram com operários dessa geração, o mesmo não se poderá dizer dos jovens, a quem esta realidade já não diz nada, porque é distante e remete para um Portugal que não conheceram. Hodiernamente, o mundo globalizado em que vivemos traz outros desafios ao mundo profissional, é certo, mas as condições laborais são respeitadas e a mulher tem um estatuto e uma visibilidade na sociedade e na família que não tinha naquela época. O silêncio das autoras em palco, durante a interpretação, evoca a afonia a que estavam votadas as mulheres na época retratada, aspeto que não escapa ao olhar atento do público, que se foca na linguagem popular, no calão, nas interjeições e nas tiradas cheias de mágoa, de humor e de sentido crítico evidentes nos relatos das entrevistadas.
Cidália Teixeira nasceu em Guimarães, em 1978. Licenciada em Ensino de Português e Alemão e doutorada na área do Desenvolvimento Curricular, é Docente e Diretora Pedagógica do Colégio de Nossa Senhora da Conceição. É membro da Comunidade de Vida Cristã e pertence à Equipa Nacional de Formação da CVX (Comunidade de Vida Cristã).
(A Foto de destaque representa um momento da performance. DR)










