AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Peça de Catarina Laranjeiro e Tânia Dinis

Operariada: memória das operárias têxteis

| 10/02/2025

 

A peça “Operariada” foi apresentada no início deste ano, em Riba de Ave e em Guimarães. Em palco, duas personagens, as criadoras, Catarina Laranjeiro e Tânia Dinis, envergam aventais brancos e, numa alusão clara ao trabalho executado pelas mulheres nas fábricas têxteis durante a segunda metade do século passado, circulam, sob jogos de luzes e de contrastes, de forma silenciosa e ziguezagueante como outrora faziam as mulheres entre o espaço doméstico e o laboral.

Trata-se de uma performance dura e exigente, porque arrasta o público até aos fios, às canelas, aos teares, aos números, às faltas, aos juízos de valor e às dificuldades por que passavam os operários, mas expande o campo ocular de quem vê uma realidade que hoje é extemporânea. A densidade psicológica das mulheres que intervêm prende a atenção do espectador até ao fim. Este segue com as protagonistas nos caminhos até à fábrica, almoça com elas, faz a “meia hora” de pausa e contorce o corpo, quando lhes gritam e as ameaçam. Seguindo os relatos vivenciais de cada uma das participantes, o espectador é desafiado a acompanhá-las nas suas jornadas individuais e coletivas. Uma voz off guia o público, transmitindo testemunhos na primeira pessoa: casos de abuso de poder, assédio, desrespeito pelas necessidades básicas das mulheres, castigos aplicados por incumprimentos que decorriam da sua condição de mães, entre outros aspectos do quotidiano que marcavam as suas vidas e rotinas diárias.

Cartaz de anúncio da peça em Riba D’Ave e Guimarães.

Na minha perspectiva, esta performance deveria ser apresentada noutras cidades, porque a sua interpretação em Riba de Ave e em Guimarães, berço por excelência da indústria têxtil, permite-nos fazer memória, memória agradecida de tantas pessoas que “teceram” as suas existências com fome, fadiga e incompreensão, mas parece-me imperioso levar este trabalho a outros palcos, pelo país fora, para que se conheça e melhor se compreenda a história e os fios que se entrelaçaram nas vidas que deram forma à indústria têxtil no Vale do Ave.

Se o tema é aparentemente banal e do conhecimento de todos que privaram com operários dessa geração, o mesmo não se poderá dizer dos jovens, a quem esta realidade já não diz nada, porque é distante e remete para um Portugal que não conheceram. Hodiernamente, o mundo globalizado em que vivemos traz outros desafios ao mundo profissional, é certo, mas as condições laborais são respeitadas e a mulher tem um estatuto e uma visibilidade na sociedade e na família que não tinha naquela época. O silêncio das autoras em palco, durante a interpretação, evoca a afonia a que estavam votadas as mulheres na época retratada, aspeto que não escapa ao olhar atento do público, que se foca na linguagem popular, no calão, nas interjeições e nas tiradas cheias de mágoa, de humor e de sentido crítico evidentes nos relatos das entrevistadas.

 

Cidália Teixeira nasceu em Guimarães, em 1978. Licenciada em Ensino de Português e Alemão e doutorada na área do Desenvolvimento Curricular, é Docente e Diretora Pedagógica do Colégio de Nossa Senhora da Conceição. É membro da Comunidade de Vida Cristã e pertence à Equipa Nacional de Formação da CVX (Comunidade de Vida Cristã).

 

(A Foto de destaque representa um momento da performance. DR)

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Entre a linguagem do púlpito e a ‘voz’ da sacristia

Imprensa católica no PREC

Entre a linguagem do púlpito e a ‘voz’ da sacristia novidade

A comunicação social originou os maiores confrontos, durante e após o PREC, entre a hierarquia da Igreja Católica e vários Governos. Mas nem sempre por causa dos jornais diocesanos e dos boletins paroquiais que foram a sua voz mais dileta – sustentou o jornalista e investigador Alexandre Manuel na sua intervenção no colóquio Liberdade de imprensa: revolução e democracia em Portugal, organizado pelo Centro de Estudos de História Religiosa em parceria com o 7MARGENS.

Missão aMar em Porto Belo: agindo Deus, quem impedirá?

[Testemunho]

Missão aMar em Porto Belo: agindo Deus, quem impedirá? novidade

Ultrapassando os receios e as dificuldades logísticas e financeiras, fomos preparando a missão e finalmente pudemos partir para o Brasil no dia 24 agosto, para continuar a servir e a pescar. Sim, em certo sentido, também somos “pescadores de homens” como o nosso patrono São Pedro, e fomos impelidos pela urgência do apelo de Jesus “vai e reconstrói a Minha Igreja”, dirigido a São Francisco de Assis e a todos nós, que somos a Igreja. [Testemunho do padre Tiago Fonseca]

Bispos portugueses debatem crise da habitação, processo sinodal e proteção de menores

Reunidos em Fátima na próxima semana

Bispos portugueses debatem crise da habitação, processo sinodal e proteção de menores novidade

A crise da habitação e as condições de vida dos portugueses vão estar entre os temas de reflexão da 216.ª Assembleia Plenária da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), que arranca na próxima segunda-feira, 9 de novembro, em Fátima. Os trabalhos incluem ainda o ponto da situação do processo sinodal, a definição de uma nova fase do processo de proteção de menores e adultos vulneráveis e uma reflexão na sequência do encontro de outubro, em Roma, sobre a exortação apostólica Amoris laetitia.

Que propósito último, enquanto Humanidade, devemos perseguir?

[Entre Margens]

Que propósito último, enquanto Humanidade, devemos perseguir? novidade

Sem prejuízo dos propósitos particulares que, em liberdade, cada ser humano tem direito a perseguir, julgo que há propósitos comuns que têm a ver, desde logo, com a preservação dessa mesma liberdade. Se há um ou mais propósitos comuns à espécie, eles têm a ver, precisamente, com aquilo que torna a vida do ser humano, não apenas possível, mas significativa e com sentido. [Texto de Rúben Azevedo].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.