Pressão mineira no Parque Natural de Montesinho

| 23 Fev 21

“Vou falar-lhes dum Reino Maravilhoso. Embora muitas pessoas digam que não,
sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo.
O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original
diante da realidade, e o coração, depois, não hesite…
Começa logo porque fica no cimo de Portugal,
como os ninhos ficam no cimo das árvores
para que a distância os torne mais impossíveis e apetecidos.”
(Miguel Torga)

Montesinho, Parque natural, natureza, António Sá

Montesinho: a exploração de volfrâmio e estanho ameaçam o parque. Foto © António Sá

 

O projeto Valtreixal da empresa canadiana Almonty pretende abrir uma mina a céu aberto numa área de 247 hectares (cerca de 500 campos de futebol), em território espanhol, mas a 5 km da fronteira com o Parque Natural de Montesinho, para explorar volfrâmio e estanho. A exploração situa-se na Reserva da Biosfera Transfronteiriça Meseta Ibérica, que abrange territórios de Trás-os-Montes e de Castela Leão, numa área total de 1.132.606 hectares. Esta região de montanha abriga espécies selvagens, ameaçadas, e de rara beleza, tais como o lobo ibérico, a cegonha preta, o veado e o corso.

“Este tipo de explorações mineiras a céu aberto é uma enorme agressão à paisagem. A perturbação do meio vai muito para além da enorme ferida que se abrirá naquelas encostas forradas a urzes, giestas e carquejas. As explosões ouvir-se-ão a quilómetros e afastarão a fauna” diz António Sá, fotógrafo da natureza e empresário turístico, habitante do Parque Natural de Montesinho.

António Sá em Montesinho: “Este tipo de explorações mineiras a céu aberto é uma enorme agressão à paisagem.” Foto © António Sá

O projeto prevê fazer explodir 1,7 mil toneladas de dinamite durante 19 anos para extrair o minério, criando uma cratera estéril de quase 2 quilómetros de comprimento e centenas de metros de profundidade. A legislação atual obriga o promotor a fazer um plano de recuperação da paisagem, de plantação de árvores e a realizar o enchimento parcial da zona explorada com os resíduos inertes provenientes da extração. Contudo, o ruído proveniente das explosões continuadas, da utilização de maquinaria pesada na extração e do tráfego de várias dezenas de camiões por dia é inevitável. Mais de 23 milhões de metros cúbicos de resíduos mineiros serão gerados, alguns dos quais perigosos para a saúde e que serão aterrados in situ.

A paisagem descrita por António Sá perderá definitivamente o seu encanto e valor, pois no fim de vida da mina ficará uma escombreira visível de Bragança, apesar de a cidade se situar a quase 20 quilómetros de distância. “Para mim, é como se apagássemos aquela zona do mapa”, conclui António Sá.

O ZASNET, entidade gestora desta área, obteve a classificação de reserva da biosfera da UNESCO, selo que lhe tem valido o reconhecimento mundial e uma nova capacidade para atrair turistas da natureza, bem como novos moradores. “O reconhecimento emitido pela UNESCO serve para destacar e recompensar” os esforços locais “e para ajudar a atrair fundos. São territórios destinados a promover o desenvolvimento sustentável, a conservação da natureza, ao mesmo tempo que promovem o desenvolvimento social e apoiam a educação e a investigação científica” – refere a exposição do ZASNET em que este contesta a instalação da mina, exposição também assinada pelo presidente da Câmara de Bragança.

 

Conflito entre indústria e património natural

Passeio em bosque misto – carvalho e castanheiro-bravo, em Carrazedo (Bragança): desvalorizar este património terá consequências diretas para a economia local. Foto © António Sá.

 

A estratégia de desenvolvimento da região assenta na qualidade de vida e no património natural. O combate à desertificação humana aposta fortemente na qualidade do ambiente, e em produtos endógenos, tais como o mel e as castanhas de Montesinho, o cabrito e os cogumelos. Desvalorizar este património terá consequências diretas para a economia local, nomeadamente ao nível do alojamento e da restauração e também na produção e consumo destes produtos.

“Tudo aqui anda à volta da qualidade do ambiente. Os lameiros são tão importantes para as ovelhas como para as espécies silvestres, como o corço. Estes prados seminaturais abrigam uma flora quase exclusiva. É um tipo de paisagem onde a ação do homem é crucial. As bolotas dos bosques de carvalho e de azinheira alimentam javalis e corços (presas naturais do lobo) e também os rebanhos” – sintetiza o fotógrafo António Sá, sem disfarçar a sua paixão por esta paisagem viva.

Porém, o conflito entre as possíveis utilizações do solo não tem vencedor à partida. A União Europeia mantém, por um lado, uma política de ordenamento territorial que cria zonas protegidas. Mas por outro lado, quando nessas zonas jazem minérios necessários para alimentar a indústria e promover a autonomia da União, a proteção é frágil.

A iniciativa “Matérias-Primas” (novembro de 2008) da Comissão Europeia refere: “O bom funcionamento da economia da UE depende fortemente do acesso a preços módicos às matérias-primas minerais…uma concorrência crescente, devida à utilização dos solos para outros fins, e um ambiente altamente regulado…são necessárias estratégias para proteger o acesso a estes depósitos para utilização futura.”

Tais estratégias passam, como se pode ler na mesma comunicação, por colocar os interesses da indústria acima de que quaisquer outros: “A indústria suscitou preocupações quanto aos objetivos por vezes contraditórios de proteção das zonas de Natura 2000 e de desenvolvimento das atividades extrativas na Europa. A Comissão sublinha que não está prevista qualquer exclusão absoluta de operações extrativas no quadro jurídico de Natura 2000”.

As organizações ambientalistas não entendem como compatibilizar o projeto de exploração mineira com o desenvolvimento baseado na conservação da natureza. Foto © António Sá.

 

Perante esta ameaça o ZASNET não percebe como poderá compatibilizar a atividade do projeto Valtreixal com a estratégia de desenvolvimento que tem seguido, baseada na conservação da natureza, na qual tem investido e que começa a dar frutos. No documento em que contesta a instalação do projeto Valtreixal argumenta: “São amplamente conhecidas as consequências bem como os impactos negativos resultantes da exploração de uma Mina de Volfrâmio e Estanho (…) afeta gravemente a população residente (…), os ecossistemas (…) dado que põe em causa os princípios e fundamentos de uma Reserva da Biosfera, com todos os seus preceitos, aprovada e reconhecida pela UNESCO, em 2015.”

Vários grupos de cidadãos, como o Uivo – Por uma Reserva da Biosfera Meseta Ibérica Livre de Minas e o Stop Mina Sanabria, têm surgido nos últimos meses para organizar iniciativas de contestação à instalação da mina.

 

Padre João Felgueiras, 100 anos: várias memórias e três imagens

Missionário em Timor

Padre João Felgueiras, 100 anos: várias memórias e três imagens

O padre João Felgueiras, padre jesuíta e missionário em Timor-Leste desde 1971, atravessou a época colonial portuguesa (até 1975), a ocupação indonésia (1975-1999) e os anos da independência (2002 até hoje). Completando 100 anos neste 9 de Junho (viveu 50 anos em Portugal e outros 50 em Timor-Leste), o jesuíta foi o centro de uma pequena homenagem em Díli, que incluiu a publicação de um livro com vários depoimentos. Dele se extraem vários elementos que a seguir se coligem acerca da vida deste homem e padre que, durante a ocupação indonésia, apoiou a resistência timorense e que chegou a enviar recados para os políticos portugueses (ver texto de Adelino Gomes no final).  

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Crónica

Isto não é gozar com quem…?

[Segunda Leitura]

Isto não é gozar com quem…?

Ler jornais é saber mais. Vamos, então, a alguma leitura. Esta notícia, por exemplo: “Relação diz que pontapés e palmadas não são violência doméstica” (JN, 28/5/2021). O caso diz respeito a um homem que foi condenado, em primeira instância, a ano e meio de prisão e ao pagamento de uma indemnização de mil euros, por ter sido o autor destes atos de violência para com a sua companheira.

Breves

Ano de S. José em Coimbra

Dia do Ambiente assinalado com plantação de cedro do Líbano

A Paróquia de S. José, em Coimbra assinalou, no passado sábado, o Dia Mundial do Ambiente com a plantação de um Cedro do Líbano no jardim junto à igreja.  Um momento que contou com a presença de Helena Freitas, professora do Departamento de Botânica da Universidade de Coimbra, e de um grupo de crianças da catequese, do Grupo ASJ – Adolescentes de São José e de vários paroquianos.

Vaticano

Papa “magoado” com restos mortais de 215 crianças no Canadá

O Papa Francisco confessou-se magoado com a descoberta dos restos mortais de 215 crianças numa antiga escola católica para crianças indígenas no Canadá, pedindo respeito pelos direitos e culturas dos povos nativos. No entanto, não apresentou um pedido de desculpas, como pretendem o Governo daquele país e dirigentes de comunidades autóctones.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

É notícia

Protestantismo

Colóquio internacional sobre Lutero

“Lutero – 500 anos: herege e inimigo do Estado” é o título do colóquio que tem lugar às 21h00 desta terça-feira, 25 de maio, via zoom, organizado pela Sociedade Portuguesa da História do Protestantismo.

Médicos Sem Fronteiras denunciam a perda de vidas civis em Gaza

Considerando “indesculpáveis e intoleráveis os ataques aéreos israelitas feitos nos últimos dias contra a população e infraestruturas civis em Gaza”, a organização internacional médica-humanitária Médecins Sans Frontières / Médicos Sem Fronteiras (MSF) confirma que a clínica que opera em Gaza foi danificada na sequência dos bombardeamentos de domingo, 16 de Maio. Uma sala de esterilização ficou inutilizável e uma zona de espera foi destruída.

Do interior ao Médio Oriente e ao mundo, quatro jornalistas explicam como gastam a sola dos sapatos

Jornalismo com maior transparência, originalidade e com histórias contadas a partir de pessoas concretas, gastando as solas dos sapatos. Com esse ponto de partida, tendo como pano de fundo a mensagem do Papa para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, que se assinalou neste domingo, 16 de Maio, o 70×7, programa da Igreja Católica na RTP2, foi este domingo ao encontro de quatro jornalistas, que procuram dar prioridade à ideia de contar histórias.

Entre margens

Moçambique

Ventos, baladas e canções do matrimónio

Tive que escrever um texto sobre Balada de Amor ao Vento, o primeiro romance da primeira romancista moçambicana, Paulina Chiziane. Folheando o livro, encontrei algumas anotações feitas, há algum tempo. Tenho o hábito de borrar nos meus livros, com os pensamentos que me ocorrem, no momento da leitura.

Futebol

A república do ludopédio

Os ingleses inventaram o ludopédio (futebol) e continuam a driblar-nos com ele. Mas isso só é possível porque persistimos em ser provincianos. Deslumbramo-nos com tudo o que vem de fora e nem sequer nos damos ao respeito.

Cultura e artes

Livro

As casas e os espaços dos primeiros cristãos novidade

Esta obra apresenta uma coletânea de textos dos quatro primeiros séculos sobre os espaços que os cristãos criaram para celebrar a sua fé, desde homilias a catequeses pascais, de cartas a escritos teológicos. O leitor é introduzido neste património literário por um amplo estudo de Isidro Lamelas.

Concerto em Lisboa

Música de Pärt e Teixeira para um tempo de confiança

Hinário para um tempo de confiança, obra musical de Alfredo Teixeira, sobre textos de frei José Augusto Mourão, e The Beatitudes (As bem-aventuranças), do estoniano Arvo Pärt, raramente interpretada em Portugal, são as duas peças que marcam o regresso do Ensemble São Tomás de Aquino à sua temporada de concertos, neste sábado, 5 de Junho, às 21h, na Igreja Paroquial de São Tomás de Aquino (R. Virgílio Correia, em Lisboa).

Dia Mundial dos Oceanos

“Ilhas de Plástico” no rio Minho apelam à luta ambiental

Artista idealizou como metáfora do tempo um conjunto de 24 esculturas esféricas de grande dimensão forradas com materiais de plástico, garrafas de água, tubos de diferentes cores e feitios idênticos aos utilizados na construção civil. Unidas entre si formam uma mega-instalação flutuante e ondulante, atractiva, pedagógica, capaz de provocar olhares desencontrados. No próximo dia 8 de Junho, Dia Mundial dos Oceanos, estará fundeada no rio Minho.

Sete Partidas

Aquele que habita os céus sorri

Parceiros

Fale connosco