Ao assistir a notícias e comentários fico, quase sempre, com a sensação de que a Europa se transformou numa sala de espera sem médico: cadeiras alinhadas, silêncio desconfortável e um relógio onde as horas vão passando, mas que não avança no tempo. É uma sala limpa, climatizada, civilizada, mas onde ninguém sabe ao certo quem chamou quem, nem para quê. Curiosamente, confirmei esta ideia após a leitura de A Ira de Deus sobre a Europa, de Rentes de Carvalho: um livro que não se limita a apontar falhas, mas que obriga a encarar o desconforto de perceber que, enquanto europeus, deixamos de ser os protagonistas da nossa história.

Este livro, cuja primeira edição foi em 2016, e que relata a experiência de Rentes de Carvalho enquanto emigrante na Holanda, permite-nos ver um país rico, organizado, mas profundamente cansado de si, à semelhança de uma Europa que trocou a coragem pela comodidade e a alma pela eficiência.
Portugal não tem a riqueza holandesa, mas partilha do mesmo torpor: por lá, a tolerância deu lugar à indiferença; por cá, tornou-se desistência. Lá, a burocracia é perfeita, mas desumana; cá, é caótica, mas igualmente desumana. A Holanda de Rentes é o laboratório de uma Europa exausta, e Portugal é a versão pobre do mesmo cansaço — mais emocional, mais queixoso, mas igualmente paralisado — e que entre o fado e a fadiga continua a adiar o despertar. No entanto, esta exaustão não chega com estrondo, chega com uma sucessão de pequenos gestos de desistência: o adiamento constante, a normalização do absurdo, a crença ingénua de que alguém — Bruxelas, Berlim, “a Europa” virá resolver o que não queremos enfrentar.
Tornámo-nos especialistas em transformar problemas sérios em debates mornos, em substituir coragem por relatórios e em trocar memória por distração. A Europa parece ter-se habituado ao conforto como quem se habitua a um sedativo: primeiro acalma, depois adormece, por fim impede qualquer gesto de lucidez.
Entre a ordem sufocante da Holanda e a desordem resignada de Portugal, o continente inteiro parece oscilar entre estes dois modos de cansaço, cansaço este que não mata, mas que já começa a impedir de viver. E talvez seja esse o ponto mais perturbador da leitura de Rentes de Carvalho: perceber que a Europa não está a ser atacada, foi desistindo, lentamente, educadamente, e quase sem dar por isso.
O autor não oferece soluções, oferece-nos um espelho, e, por vezes, isso é mais difícil de suportar do que qualquer profecia. O espelho não mente: mostra-nos que, se não despertarmos, continuaremos nesta sala de espera infinita, aguardando um futuro que já não está à nossa espera.
Ao terminar o livro, e pela atualidade que estamos a viver, concluo que a ira de Deus não terá sido, de todo, um castigo, mas um aviso de que nós, Europa, enquanto continente, viríamos a ser o último reduto na luta pelos princípios da dignidade, liberdade, igualdade, solidariedade, cidadania e justiça. E este aviso surge, não porque o mundo tenha decidido começar a abandonar-nos, mas porque fomos nós que, distraídos, deixamos cair a responsabilidade e a honra de os defender.
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.
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