
Homem verifica os danos na casa da família palestiniana Nofal, atingida a 10 de janeiro de 2024. Foto © AFP via Getty Images.
A Amnistia Internacional (AI) acusou Israel de “ataques ilegais” em Rafah, no território palestiniano da Faixa de Gaza, que provocaram “um enorme número de vítimas civis, existindo um risco real de genocídio”
Segundo a organização de defesa de direitos humanos, as “novas provas” recolhidas “demonstram como as forças israelitas continuam a desrespeitar o direito humanitário internacional, destruindo famílias inteiras com total impunidade”.
Num comunicado divulgado na segunda-feira, a AI nota que morreram “pelo menos 95 civis (dos quais, 42 crianças)” em quatro ataques ilegais em Rafah, que é, como recorda a organização, uma província definida pelos israelitas como “segura”. “Supostamente segura”, como referiu a AI.
De acordo com a organização, “mais de um milhão de pessoas [encontram-se] encurraladas numa área de 63 km2, na sequência de sucessivas vagas de deslocação em massa”. Esta operação — três em dezembro de 2023, após o fim da pausa humanitária, e um em janeiro de 2024 — terá “consequências devastadoras”, advertiu a AI.
“Existem famílias inteiras dizimadas por ataques israelitas, mesmo depois de terem procurado refúgio em zonas consideradas seguras e sem qualquer aviso prévio por parte das autoridades israelitas. Estes ataques fazem parte de um padrão contínuo das forças israelitas, que viola de forma descarada o direito internacional e contradiz as afirmações das próprias autoridades do Estado de Israel de que estão a tomar precauções acrescidas para minimizar os danos causados aos civis”, sublinhou Erika Guevara-Rosas, diretora sénior de investigação, defesa, política e campanhas da Amnistia Internacional.
Para a Amnistia, “os quatro ataques são provavelmente ataques diretos contra civis e objetos civis e devem ser investigados como crimes de guerra”. “A AI não encontrou qualquer indicação de que os edifícios residenciais atingidos pudessem ser considerados objetivos militares legítimos ou de que as pessoas que se encontravam nos edifícios fossem alvos militares”, sintetiza o texto da organização.
Pelo contrário, notou a Amnistia: “As provas recolhidas pela AI indicam que os militares israelitas não avisaram eficazmente, ou mesmo de forma alguma — pelo menos as pessoas que viviam nos locais atingidos — antes de efetuarem os ataques. Tal como aconteceu com os outros ataques, as autoridades israelitas não apresentaram uma razão para este ataque.”
“Corpos pequenos em pedaços”
As provas foram recolhidas em visitas aos locais dos quatro ataques, com captação de fotografias e vídeos da destruição e entrevistas a 18 pessoas, incluindo 14 sobreviventes e quatro familiares que participaram nas operações de salvamento. O Laboratório de Evidências de Crise da Amnistia analisou imagens de satélite, fotografias e vídeos para localizar geograficamente e verificar os ataques e a destruição resultante.
No extenso comunicado divulgado, como a própria organização reconhece, há “vários testemunhos aterradores de sobreviventes”. Islam Harb, de 30 anos, por exemplo, perdeu três dos seus quatro filhos: “Ouvi uma explosão enorme. Não me lembro de ter visto nada, ouvi apenas um som tão forte e perdi a consciência. Acordei no hospital e a primeira coisa de que me lembro foi de perguntar pelos meus filhos. Só Leen, de 4 anos, sobreviveu; a minha família passou dias a tentar retirar os restos mortais dos escombros. O corpo do meu irmão Khalil [de 25 anos] foi encontrado em pedaços a 200 metros de distância da casa, devido à força do impacto. Os corpos pequenos dos meus filhos ficaram em pedaços.”
Já morreram mais de 28 000 palestinianos e mais de 60000 ficaram feridos, desde o início da ofensiva israelita há quatro meses, no meio de uma catástrofe humanitária sem precedentes, resumiu a Amnistia, que lembrou que “as sucessivas vagas de deslocação em massa transformaram Rafah na zona mais sobrelotada da Faixa de Gaza. A população desta província quintuplicou em relação à população de antes da guerra”.










