A força da inércia nas igrejas católicas em Portugal, que escuto, desde que o Papa Francisco convocou o Sínodo, tem sido contrariada só pela força gravitacional que não depende da força humana. Ora bem, sendo a força de inércia, consequentemente seguida pela Igreja, só a força do Espírito Santo conseguirá vencê-la. A inércia compromete o verdadeiro espírito do Sínodo, resultando numa participação superficial e sem impacto real nas orientações futuras da Igreja. Corre-se o risco de perpetuar uma Igreja fechada em si mesma, incapaz de dialogar com a sociedade contemporânea e de responder aos desafios atuais, especialmente no que toca à juventude, à inclusão e à transparência, ao que dizem ser o problema das mulheres, que não o é, antes uma questão de direitos humanos e de dignidade da pessoa humana. É o seu encerramento a toda a humanidade.

Marcha pela ordenação de mulheres, promovida pela Women’s Ordination Conference, assinalando o início do Sínodo sobre a sinodalidade. Roma, 6 Outubro 2023. Foto © António Marujo/7MARGENS
O Sínodo sobre a sinodalidade, convocado pelo Papa Francisco, representa uma iniciativa ambiciosa da Igreja Católica nos últimos tempos, com o objetivo de promover uma Igreja mais participativa. No entanto, ao observar a realidade das comunidades portuguesas, é notória uma inércia e resistência em relação ao processo sinodal. Constitui, assim, uma força de resistência da “padrocentria” e dos seus “acólitos”, mordomos da incapacidade de compreender uma impossibilidade do propósito da escuta do Povo de Deus, que é no seu todo um contributo para o desiderato cultural e vocacional. Vocacional enquanto capacidade séria de produzir um comportamento conforme os Evangelhos ensinam. A ideia central da sinodalidade é ouvir quem nunca teve voz, nem vez, na Igreja Católica, a começar pelo caminho junto com os mais carenciados de comunhão.
Esta “força de inércia” faz-se sentir sobretudo na comunidade LBGT+, no acesso ao casamento, deixando de proibir o casamento dos “clérigos” – exceto o diaconado masculino no momento da ordenação. Um caso peculiar, dado que estamos, quando escrevo, no mês de defesa da Criação, não conheço quaisquer iniciativas concretas, para além da oração – sempre imprescindível, neste ou noutros casos – contrariando a Laudato sì‘ e outros documentos da própria Igreja. Outros casos se poderiam enumerar, só que é tão extensa a lista que as “forças de inércia” são superadas pelo amorfismo “contemplativo” e “condicionante” da Igreja onde vivemos. Caminhar todos/as juntos/as, partilhando as nossas situações, preocupações e esperanças, é um caminho muito longo, desafios do presente e do futuro, que não podemos contar (de quantidade).
A falta de informação, uma resistência à mudança, o “clericalismo”, a “falta de formação”, a contínua desmotivação para “tudo” o que é referente à Igreja Católica, em contraste com uma falta de formação e abertura ao diálogo, são algumas forças do complexo de “forças da inércia” existentes na Igreja em Portugal, mas tudo isto constitui um desafio real para repensar e superar a apatia e a resistência, obtendo a novidade do Espírito, para “caminharmos juntos e juntas”.
Joaquim Armindo é diácono católico da diocese do Porto, doutorado em Ecologia e Saúde Ambiental.










