O irmão Matthew, prior de Taizé, esteve com o Papa Leão XIV, tendo ambos partilhado preocupações e reflectido sobre “que sinais de solidariedade [podem] oferecer e como abrir caminhos para o diálogo” e manifestando a consciência clara de que “as armas não produzem o resultado que é a paz”.
Em entrevista ao Vatican News, portal de notícias do Vaticano, o responsável da comunidade monástica ecuménica fundada pelo irmão Roger em 1940 afirmou ser necessário criar espaços de escuta e de encontro como elemento essencial para ultrapassar a lógica do confronto.
O irmão Matthew esteve em audiência privada com o Papa Leão, na manhã de sábado, 21 de Março, no Vaticano – foi a segunda vez que isso aconteceu, depois de uma primeira audiência em Julho passado. Durante o encontro, ambos os responsáveis manifestaram “a sua profunda preocupação com a paz, um tema caro ao coração do Papa Leão, bem como com todas as vítimas inocentes dos conflitos armados em todo o mundo”, diz um curto comunicado enviado às Redacções.
“Expressaram igualmente o desejo comum de progredir no caminho da reconciliação entre os cristãos, reflectindo ao mesmo tempo sobre a forma de transmitir a fé às gerações mais jovens”, acrescenta o documento.
Agora, na entrevista ao Vatican News, o prior de Taizé esclarece que a conversa referiu de forma particular os conflitos que continuam a marcar o mundo contemporâneo, com destaque para a Ucrânia e o Médio Oriente. Ambos manifestaram inquietação perante o sofrimento das populações atingidas pela guerra e sublinharam a urgência de encontrar caminhos que conduzam a uma paz duradoura, conta.
“No mundo de hoje, por vezes sentimos que as pessoas em posições de responsabilidade ou os políticos se limitam a gritar uns com os outros. Como podemos aprender a ouvir novamente?”, pergunta, na entrevista citada.
“Ouvir não significa que tenhamos de concordar em tudo, mas cria um espaço onde podemos dar passos juntos que nunca esperávamos. Ouvir os outros e respeitá-los, mesmo quando discordamos, é um verdadeiro sinal para o mundo de hoje.”
Unidade entre cristãos e atenção aos jovens

O irmão Benoît, de Taizé (segundo à direita), durante a visita à Ucrânia: a preocupação com as vítimas das guerras vem desde o início da comunidade, lembra o irmão Matthew. Foto © Taizé.
Outro tema relevante da audiência foi o compromisso com a unidade dos cristãos e a coesão no interior da própria Igreja Católica. Com o Papa, o irmão Matthew debateu o desejo de avançar no caminho da reconciliação, num tempo em que as divisões continuam a ser um desafio significativo para as comunidades cristãs.
A preocupação com os jovens foi outro assunto abordado. O irmão Matthew refere que o Papa vincou a sua atenção à realidade dos jovens, marcada, em muitos casos, por experiências de isolamento agravadas após a pandemia, sentindo “que não precisam de contacto com os outros”. A partir do que se vive em Taizé é possível avaliar muito do que se passa: “Acolhemos uma grande variedade de jovens com experiências diferentes. Muitos vêm de situações de isolamento, mas, através da experiência que oferecemos, redescobrem a importância da vida com os outros, da vida em comunidade.”
“Nos primeiros dias, nem sempre é fácil entrar em contacto com os outros, mas quando percebem que estão num ambiente seguro, algo se abre dentro deles”, acrescenta na entrevista. “A experiência da oração, especialmente o silêncio, surge como um elemento transformador. Apesar de viverem num contexto saturado de estímulos e informação, muitos jovens manifestam um forte desejo de silêncio e interioridade.” Até porque há “um anseio profundo de estar na presença de Deus, mesmo quando não têm palavras para o expressar”.
O actual prior de Taizé recorda ainda a história do início da comunidade, durante a Segunda Guerra Mundial, para relacionar com a actualidade do seu carisma. O facto de a origem de Taizé ter sido em tempo de conflito constitui um apelo permanente à presença junto das “fracturas da família humana”, diz, não só em Taizé, mas também em regiões marcadas pela violência e pela divisão.
“Podemos pensar que estas guerras estão longe e não nos dizem respeito, mas têm consequências directas sobre nós”, diz ainda, alertando contra o risco da indiferença, os impactos económicos e as implicações para a liberdade e para a convivência entre povos.
Referindo-se à visita que fez à Ucrânia no Natal, o irmão Matthew sublinha a resiliência das populações afectadas pela guerra da Rússia contra aquele país.
Solidariedade na Ucrânia

Jovens animadores com o exarca greco-católico de Donetsk, bispo Ryabukha, durante a visita de dois irmãos de Taizé ao país, em Março 2026, em Dnipro. Foto © Taizé
Outros dois irmãos da comunidade regressaram da Ucrânia há poucos dias. “Dissemos aos jovens que encontrámos: ‘não temos nenhuma mensagem para vos transmitir, a não ser a da nossa solidariedade espiritual através da oração e da nossa presença’”, conta o irmão Benoît em entrevista à agência católica italiana SIR.
Durante cerca de duas semanas, com o irmão Andreas, os dois membros de Taizé percorreram várias cidades ucranianas, onde testemunharam os efeitos de um Inverno rigoroso, agravado por múltiplos ataques russos a infraestruturas energéticas. Em algumas zonas, bairros inteiros permaneceram dias sem eletricidade, aumentando as dificuldades já causadas pela guerra.
Apesar disso, o irmão Benoît sublinha também a força e a resiliência das populações locais, destacando sobretudo o papel dos jovens e dos voluntários.
Durante a visita, os dois irmãos de Taizé contactaram também com cristãos de diferentes confissões: ortodoxos, greco-católicos, católicos latinos e protestantes. Todos dão um exemplo concreto de unidade em contexto de sofrimento, diz, e a proximidade entre diferentes Igrejas é um sinal de resistência espiritual e de solidariedade perante a violência.
Apesar das dificuldades, o irmão Benoît destaca ainda o compromisso de muitas pessoas em apoiar os mais vulneráveis. Redes de ajuda organizadas por voluntários continuam activas, assegurando apoio a quem mais precisa, num esforço que considera expressão de uma fé vivida no quotidiano.
Para o irmão Benoît, a experiência confirma que a esperança nasce desses gestos e da proximidade com quem sofre, diz na entrevista, retomada também num artigo publicado na página oficial de Taizé.
A ida à Ucrânia insere-se numa série de contactos regulares da comunidade com o país, e foi uma confirmação de que, mesmo em contexto de guerra prolongada, persistem sinais de humanidade que impedem o desespero. “É precisamente no meio da escuridão que a luz se torna mais visível”, diz o irmão Benoît.










