A realidade dos cristãos do Sul do Líbano é hoje feita de contrastes: entre as imagens de soldados israelitas a profanarem os seus símbolos religiosos, que revelam a perseguição e impunidade latente no terreno, e a proximidade e apoio da Igreja Católica e das suas organizações, que tentam travar o que tem sido descrito como uma ameaça à própria existência cristã na região.
Na última semana, foi o próprio Papa Leão XIV que surpreendeu uma dezena de párocos que permanecem nas aldeias da chamada Linha Azul, a zona mais castigada pelos bombardeamentos, com uma videochamada para manifestar a sua proximidade e apoio. O gesto, facilitado pelo núncio apostólico Paolo Borgia — figura descrita localmente como um “herói” pela sua presença física constante nas zonas de perigo e que o Papa recebeu em audiência no Vaticano no passado dia 6 —, foi descrito por um dos padres aos média do Vaticano como um “sopro de esperança e confiança”.

A videochamada do Papa com os padres do sul do Líbano. Imagem reproduzida a partir do site Vatican News.
Contudo, o cenário descrito pelos habitantes e por organizações católicas como a L’Œuvre d’Orient é desolador. Em declarações recentes à EWTN News, Vincent Gelot, diretor da organização no Líbano, alerta que os cristãos estão “presos num torno” entre as milícias do Hezbollah e as operações israelitas que continuam a destruir casas, escolas e conventos.
Recentemente, na aldeia de Debel, um soldado israelita foi filmado a decapitar uma estátua de Jesus Cristo com um machado. O incidente forçou uma rara condenação de Benjamin Netanyahu, mas pouco depois outro vídeo surgia nas redes sociais mostrando um soldado a colocar um cigarro na boca de uma escultura da Virgem Maria, sem que tenha havido qualquer condenação oficial.
E a destruição estende-se a edifícios inteiros: também no sul do Líbano, em Yarun, o exército demoliu um convento das Irmãs Salvatorianas, uma ordem religiosa melquita (greco-católica), denuncia o jornal El País desta segunda-feira, 11 de maio. Precisamente na mesma localidade onde, em 2024, durante a guerra anterior com o Hezbollah, o exército israelita havia derrubado uma estátua de São Jorge com uma escavadora. E perto de outra localidade, Deir Mimas, onde soldados da Brigada Golani encenaram uma paródia de um casamento cristão dentro de uma igreja, um ato que o exército diz estar “sob investigação” desde esse ano.
Perante a violência, a rede de apoio católico intensificou-se. A Cáritas Líbano tem operado clínicas móveis e distribuído ajuda essencial em aldeias isoladas, muitas vezes sob risco direto. Em declarações à EWTN News, Peter Mahfouz, da unidade de emergência da Cáritas, explica que a organização está a trabalhar em estreita colaboração com dioceses, congregações religiosas que administram escolas e clínicas, e outras organizações católicas. “É uma rede construída sobre a confiança que existia muito antes desta guerra, e é exatamente por isso que funciona em situações de emergência”, sublinha.
Ao apoio local somam-se iniciativas da diáspora cristã libanesa, como o comité polaco “Lebanon in Need”, que canaliza fundos diretamente para os parceiros no terreno. Trata-se de uma organização criada pela Fundação Missionária Maronita na Polónia em parceria com a plataforma 4fund.com e que tem promovido a campanha de ajuda #EuropeForLebanon (Europa para/pelo Líbano).
Para o responsável da Cáritas, o que está em causa vai além da sobrevivência de uma única comunidade. “É a própria existência do Líbano que está em jogo”, afirma, descrevendo o país como um raro modelo de liberdade religiosa, liberdade de consciência e liberdade de imprensa no Médio Oriente. E quanto aos cristãos no Líbano, continuam a desempenhar um papel político, cultural e histórico singular, defende. Resta saber até quando.










