Começo por uma confissão: – invejo aquelas pessoas que, incapazes de se calarem, conseguem prender a nossa atenção com uma história curiosa ou qualquer facto extraordinário. Também eu tenho histórias e curiosidades fabulosas, só que não encontro quem as queira ouvir. Despojado de ouvintes, resta a tentativa improvável de achar leitores.
Gostei de ver a Odisseia de Christopher Nolan, Do sem sentido das guerras, das opções absurdas que colocam aos que as fazem, da glória omissa, dos porcos disfarçados de soldados, do inverosímil cavalo de Tróia, belo, encalhado no areal. E do seu interior fétido onde, por vários dias, se ocultaram os heróis. A morte, do princípio ao fim, está sempre presente, e as reflexões que engendra contemplam perplexidades genuinamente clássicas.
Por isso me ocorreu que a cultura timorense é mais próxima da herança grega do que a cultura, dita, ocidental. Consideremos os gatos. Enquanto os cães são ostensivamente desprezados – os timorenses referem, com indiferença, que na Indonésia até os comem – pelo contrário, os gatos são objeto do maior respeito e consideração. Sabemos, aliás, que os antigos egípcios os retrataram profusamente.

Pedro Bacelar de Vasconcelos e padre João Felgueiras (falecido em 3 julho 2026), fotografados no Centro Juvenil Padre António Vieira, Timor Leste. Foto DR
Diz-se, em Timor, que os gatos encarnam os espíritos dos seus mortos. Não sei se é verdade. Só não percebo a razão por que lhes cortam os timorenses aqueles rabinhos longos, delicados e ondeantes. Mas em matéria de animais domésticos, devíamos começar pelo burro, que Francisco de Assis tratava por “Irmão”. Francisco de Assis era o santo preferido do meu Pai, presumo, pelo seu exemplar despojamento. Assim, a conversão humana do “Irmão Burro”, pela invocação de Assis, opera de forma imediata e automática. Nada disso, porém, ocorre com o gato.
O cão, logo que chamado, comparece prontamente, solícito e jovial. O burro resiste a intermináveis privações e tudo cumpre com paciência e sem queixume. Muito pelo contrário, o gato permanece no seu mundo e cultiva uma distância inultrapassável que poderá estar na origem da aura transcendente que lhe atribuem: – não ajuda, não colabora e, se convocado, nem sequer responde à chamada: hesita, pondera e, porventura, poderá mais tarde interessar-se por averiguar o que se passa.
E contempla-nos, então, perplexo, alheio, ausente como os deuses.
Pedro Bacelar de Vasconcelos é constitucionalista. É professor jubilado de Direito Público na Escola de Direito da Universidade do Minho. Foi deputado à Assembleia da República na XIV legislatura pelo Partido Socialista, tendo sido presidente da 1.ª Comissão Parlamentar. Tem uma forte ligação a Timor-Leste, cuja Constituição foi redigida com o seu contributo.
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