Ontem, 27 de setembro, as comunidades católicas de todo o mundo assinalam o 112.º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado. O Papa Leão XIV escolheu o tema: “Mesmo uma só destas crianças”.
As crianças representam 39% dos refugiados, mas apenas 29% da população mundial. Nestes números estão rostos que atravessaram desertos e mares, perderam anos de escola, foram separados das famílias ou nunca conheceram outra casa senão um campo de refugiados.
Hoje a mobilidade humana conta-se aos milhões, e este tema relembra-nos precisamente que cada número é feito de vidas únicas.

Dia Mundial do Migrante e do Refugiado. Foto retirada do vídeo “Mesmo uma só destas crianças”, Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral (DSSUI).
Segundo o ACNUR, no final de 2025 havia 117,8 milhões de pessoas deslocadas à força. Como disse o Alto-Comissário da ONU para os Refugiados, Barham Salih, para muitos a deslocação “começa como uma tábua de salvação, mas dura uma vida inteira”.
O último ano trouxe também algo que parece, à primeira vista, uma boa notícia. Pela primeira vez numa década, o número de deslocados diminuiu, com 14,7 milhões de regressos a casa. Mas muitos desses regressos, à Síria, ao Sudão, ao Afeganistão, fizeram-se em condições frágeis e por vezes precárias. Voltar a casa não é sinónimo de estar em segurança. Sem reconciliação, sem serviços e sem confiança social, um regresso pode ser só o começo da próxima deslocação.
É aqui que a fé e o diálogo contam muito mais do que se costuma reconhecer.
É importante reconhecer que os líderes religiosos e as organizações religiosas são muitas vezes os primeiros a chegar e os últimos a partir. Por isso, o diálogo inter-religioso não é um luxo nas políticas de migração, é essencial para a coesão social.
As crianças devem estar no centro deste esforço. Primeiro, a proteção tem de acompanhar a criança em todas as fronteiras. As redes religiosas também atravessam essas fronteiras e podem ajudar a combater as falhas entre jurisdições. Segundo, a educação e o sentimento de pertença são necessidades humanitárias. Os programas de educação inter-religiosa e intercultural constroem essa pertença dos dois lados. Terceiro, devemos enfrentar a linguagem da desumanização e o discurso de ódio.
Nada disto substitui o papel dos Estados, mas as políticas, sozinhas, não criam acolhimento. O acolhimento constrói-se nas comunidades, nos bairros, nas casas, nas salas de aula e nos locais de culto.
Temos visto esta abordagem a dar frutos em toda a Europa. As iniciativas de diálogo inter-religioso e intercultural têm reunido refugiados, comunidades de acolhimento, líderes religiosos e organizações locais para combater ideias erradas, construir relações e reforçar a confiança para todos, especialmente para as crianças.
Na sua mensagem, o Papa sublinha a urgência de mudar de perspetiva: deixar de ver números e passar a ver cada criança. Neste 27 de setembro, e em cada dia depois dele, meçamos a nossa resposta pela capacidade de garantir que cada criança, nem que seja uma só, encontre segurança, dignidade e um lugar ao qual pertencer.
António de Almeida-Ribeiro, Secretário-Geral em Funções do KAICIID










