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Acidente ferroviário em Urda, Espanha. Foto DR via Religión Digital
O acidente ocorreu na manhã de quarta-feira, quando dois comboios de alta velocidade colidiram na linha Madrid-Sevilha. Foto: Direitos reservados

Espanha

Padres socorrem feridos e paróquias acolhem famílias: a Igreja no terreno após a tragédia de Urda

| 30/10/2026

“Padre, dê-me um abraço, estou vivo.” Foi com este pedido de um dos sobreviventes que José Miguel Fernández, pároco de Urda, percebeu qual poderia ser o seu papel no meio da tragédia ferroviária que atingiu esta localidade espanhola da província de Toledo: permanecer junto das pessoas. Desde as primeiras horas após o acidente, padres das localidades vizinhas, voluntários das paróquias, equipas da Cáritas e responsáveis da arquidiocese de Toledo mobilizaram-se para apoiar feridos e familiares das vítimas, disponibilizando também instalações da Igreja para acolher quem chegava para ajudar ou à procura de notícias.

O acidente ocorreu na manhã de quarta-feira, 28 de outubro, quando dois comboios de alta velocidade, um da Renfe e outro da Iryo, colidiram na linha Madrid-Sevilha, junto a Urda. Segundo o balanço disponível esta sexta-feira, 30, morreram pelo menos 69 pessoas.

O padre José Miguel Fernández chegou à chamada “zona zero” cerca de duas horas depois do acidente. Em declarações à EWTN News espanhola, contou que encontrou “uma fila enorme de feridos” a sair dos comboios, enquanto habitantes da região utilizavam os próprios carros para transportar sobreviventes.

Foi então que um homem se aproximou dele e lhe pediu um abraço porque estava vivo. “Disse para comigo: bem, esta é a forma de me aproximar hoje, dando um abraço”, recorda. E foi isso que fez durante as horas seguintes: “dar as mãos e oferecer um abraço”.

Ao Diario de Sevilla, o mesmo pároco explicou que muitos sobreviventes lhe pediam que rezasse por eles. “Ninguém rejeitava a fé”, afirmou. Mas o acompanhamento não se fez apenas de palavras ou orações. Fernández recorda uma conversa com uma psicóloga que se encontrava a apoiar os trabalhadores envolvidos nas operações de emergência. Quando lhe perguntou o que poderia fazer, uma vez que os profissionais já estavam a assegurar o apoio psicológico, ela respondeu-lhe que ambos estavam ali, fundamentalmente, para a mesma coisa: para que as pessoas sentissem que não estavam sozinhas.

 

Uma bolsa de soro nas mãos

Também o pároco de Los Yébenes, Fernando Fernández de Bobadilla, se deslocou rapidamente para o local e participou diretamente nas operações de socorro.

“Estou neste momento com uma bolsa de soro nas mãos”, relatou à rádio COPE ainda na manhã do acidente, descrevendo como as equipas de emergência faziam a triagem das vítimas e retiravam os mortos dos comboios. “Isto é horrível”, resumiu então.

Outros padres das localidades próximas juntaram-se ao apoio prestado no terreno. Entre eles estava Luis Lucendo, vigário de Urda, que contou ao programa Ecclesia al día, da COPE, que se mobilizaram para “acompanhar, estar com os feridos, consolar e rezar pelas pessoas que iam morrendo”.

Um dos momentos que mais o marcou ocorreu quando começaram a ser retirados os corpos das vítimas. “De vez em quando aproximávamo-nos para rezar um responso por eles e dizer uma palavra de esperança”, contou. Segundo Lucendo, membros das forças de segurança e outras pessoas envolvidas nas operações juntavam-se então aos padres na oração.

Particularmente difícil foi também a passagem pelo pavilhão onde iam chegando familiares sem saber ainda o que tinha acontecido aos seus. “Alguns diziam-nos: ‘Rezo para que esteja ferido'”, partilhou o vigário. “Estivemos com eles para os animar, consolar e estar presentes.”

Uma presença que nem sempre exigia palavras. “Em silêncio também se acompanha”, conclui.

 

“Às vezes não há receitas nem palavras”

O arcebispo de Toledo, Francisco Cerro, que se deslocou a Urda e Los Yébenes para acompanhar sobreviventes e familiares, partilha desta mesma sensação dos párocos.

“A situação é dantesca”, afirmou à COPE, segundo a revista Vida Nueva, pouco depois de ter chegado. Perante pessoas que aguardavam notícias de familiares desaparecidos ou feridos, Cerro considerou que nem sempre existem palavras capazes de responder ao sofrimento.

“Às vezes não há receitas nem palavras. É o gesto, o abraço, o beijo, que saibam que estamos ali com eles e com uma atitude de estar perto e compreender”, afirmou, garantindo o apoio “incondicional da Igreja, dos cristãos e dos homens de boa vontade” às pessoas atingidas pela tragédia.

O arcebispo referiu-se também às perguntas suscitadas por um novo acidente ferroviário em Espanha, apenas nove meses depois da tragédia de Adamuz. “É difícil responder. Essa pergunta fazemo-la todos”, afirmou, sublinhando que é necessário procurar soluções “porque há vítimas humanas, feridos, sofrimento, dor, morte”.

 

Paróquias e casas da Igreja transformadas em centros de acolhimento

Casa de Ejercicios el Buen Pastor de Toledo Foto Ricardo Gomez

A diocese de Toledo cedeu à Guarda Civil a Casa de Exercícios El Buen Pastor para funcionar como centro de atendimento aos familiares. Foto © Ricardo Gomez

A resposta da Igreja estendeu-se muito para além da presença dos padres no local do acidente. Em Urda, Los Yébenes, Consuegra e Madridejos, paróquias, centros pastorais e instalações da Cáritas foram disponibilizados para acolher e apoiar sobreviventes e familiares, relata o Religión Digital.

Em Urda, a Casa de Espiritualidade e os salões paroquiais abriram as portas a familiares, trabalhadores das equipas de emergência e outras pessoas deslocadas para a pequena localidade. O Diario de Sevilla  detalha que mais de 70 pessoas chegaram a passar ali a noite.

Já em Toledo, a diocese cedeu à Guarda Civil a Casa de Exercícios El Buen Pastor para funcionar como centro de atendimento aos familiares. De acordo com o Religión Digital, 59 pessoas estavam a ser acompanhadas naquele espaço esta quinta-feira, num dispositivo de acolhimento coordenado por voluntários da Igreja.

Era também ali que estava a ser centralizada informação destinada a ajudar na identificação das vítimas, incluindo a recolha de amostras de ADN de familiares de primeiro grau das pessoas ainda desaparecidas. As denúncias de desaparecimento continuavam, contudo, a ser formalizadas junto da Guarda Civil.

César García Magán, bispo auxiliar de Toledo e secretário-geral da Conferência Episcopal Espanhola, explicou ao mesmo jornal espanhol que as Cáritas paroquiais da região se mobilizaram desde as primeiras horas, assim como a Cáritas Diocesana, que disponibilizou também uma equipa de psicólogos.

“A Igreja de Toledo está a fazer aquilo que deve fazer, ser samaritana com os irmãos que sofrem”, afirmou o bispo auxiliar, destacando igualmente a solidariedade da população de Urda. “Uma fé que se traduz em proximidade, solidariedade, acolhimento, coração aberto, em ir ao encontro das necessidades.”

“Vimos que, na catástrofe, somos família”, resume o bispo García Magán. Uma família que se manifesta “nos nossos abraços, na nossa proximidade”, procurando agir como o bom samaritano que “cura, carrega e acompanha”.

Bispo Garcia Magán. Foto Religión Digital

“Vimos que, na catástrofe, somos família”, resume o bispo García Magán. Foto © Religión Digital

 

O Papa “profundamente consternado”

A solidariedade chegou também de Roma. Num telegrama dirigido ao arcebispo de Toledo e assinado pelo secretário de Estado da Santa Sé, cardeal Pietro Parolin, Leão XIV manifestou-se “profundamente consternado” pelo acidente, apresentou condolências às famílias das vítimas e assegurou a sua oração pelos mortos e pela recuperação dos feridos.

O Papa dirigiu ainda palavras de reconhecimento às equipas de emergência e salvamento, encorajando-as a perseverar no trabalho de socorro e assistência, e concedeu a sua bênção apostólica a todos os atingidos pela tragédia “como sinal de esperança no Senhor Ressuscitado”.

A dimensão espiritual do acompanhamento deverá tornar-se particularmente visível este sábado. De acordo com César García Magán, está prevista uma missa pelas vítimas em Urda, junto da “zona zero” do acidente, presidida pelo arcebispo Francisco Cerro. Mais tarde deverá realizar-se uma celebração na catedral de Toledo, para a qual estão convidados outros bispos, autoridades e os reis de Espanha. Várias paróquias da diocese celebraram entretanto missas, funerais e momentos de oração pelas vítimas.

Para o pároco de Urda, porém, o primeiro gesto da Igreja depois da tragédia talvez continue a ser o mais importante. “Somos padres, claro, mas somos humanos e também somos afetados pela dor e pela tristeza dos nossos irmãos”, reconheceu José Miguel Fernández à EWTN News. E, perante um sofrimento para o qual não há respostas imediatas, resta muitas vezes aquilo que fez durante horas entre os feridos e as famílias: estar presente, abraçar e permanecer.

 

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