Aos dezoito anos, Francisco Carvalho Guerra tinha um metro e oitenta e oito e pesava trinta e nove quilos. Em Braga chamavam-lhe o Tira-linhas; em Lisboa, o Frei quilómetro. Um médico espanhol dissera aos pais que, com muita sorte, chegaria aos trinta e cinco ou quarenta anos. Fundou a Católica no Porto, representou Portugal na NATO e morreu a 6 de Agosto, aos noventa e três.
Das conversas que tivemos para um livro que ficou por fazer, algumas histórias deu-mas para escrever, outras para guardar. (ver 7MARGENS)
Das muitas que posso contar, escolhi hoje as dos relógios.
O primeiro que o perseguiu foi um cronómetro. Tinha dez anos, era o mais novo de sete irmãos, asmático e raquítico, e um cunhado médico, regressado dos Estados Unidos, resolveu endireitá-lo à americana. Durante uma semana saíam todas as manhãs da quinta, entre Braga e Famalicão, a caminho do Penedo das Letras, uma rocha onde está gravado que ali acamparam as tropas de D. Miguel. O rapaz ia deixando a roupa pelo caminho. Lá em cima atirava cinquenta pedras como quem lança o disco, trepava à rocha pelo lado de fora, com as mãos e os pés, a esfolar o peito, e depois descia a correr. O cunhado partia meia hora antes e tocava uma sineta quando chegava a casa; só então o rapaz saía e o cronómetro começava a contar. No primeiro dia, trinta minutos. Ao fim de uma semana, vinte e dois. Em casa esperava-o um tanque, com a água quente e a água fria, uma a seguir à outra. Chorou, queixou-se aos pais. Depois, contou-me, “comecei a achar piada”. Teve três tuberculoses pulmonares e salvou-se sempre. Quando a terceira o atingiu, em Lisboa, e o pai admitiu que podia morrer, homens e mulheres da aldeia foram a pé a Fátima rezar por ele. “Eu tenho um metro e oitenta e nove”, dizia, como quem apresenta uma prova.

“Muitos anos depois, reparou que o musgo cobria a inscrição do Penedo das Letras e pediu ao feitor que a limpasse. Oito dias depois, o Celestino veio buscá-lo: “Ó senhor doutor menino Chiquinho, venha comigo lá acima, vamos no tractor, e o menino vai ver se agora gosta das letras.” Foto: Penedo das Letras © União de Freguesias de Sequeade e Bastuço
Muitos anos depois, reparou que o musgo cobria a inscrição do Penedo das Letras e pediu ao feitor que a limpasse. Oito dias depois, o Celestino veio buscá-lo: “Ó senhor doutor menino Chiquinho, venha comigo lá acima, vamos no tractor, e o menino vai ver se agora gosta das letras.” Estavam pintadas de azul, “a cor da monarquia!” Zangou-se com ele, “coitado”, e dizia que, se fosse vivo, o Celestino continuaria a tratá-lo por menino Chiquinho.
Subir, aliás, continuou a fazer parte da sua vida. Aos setenta e três anos, num sábado ou domingo, trepou sozinho a um castanheiro da quinta, até aos quinze metros, para serrar o cancro de um ramo. Só lá em cima se interrogou: “Não terás juízo? Tens 73 anos e vais ficar aqui sozinho?” E logo a seguir: “Ó Diabo, se te dá alguma coisa, bates lá em baixo e acabaste…” Quando lhe perguntavam se seria capaz de se retirar e viver sossegado, respondia com outra pergunta: “Faz ideia do que é pegar numa tesoura de poda?” A agricultura, dizia, era a sua maneira de fazer o “esvaziamento dos stresses fortes”. Havia um ramo doente e um homem disposto a tratá-lo.
Conheci-o na Universidade, enquanto presidente e depois de deixar essas funções. Não me recordo de o ver passar indiferente por quem limpava as salas e os corredores ou cuidava dos jardins. Tratava-os pelo nome, dava-lhes os bons-dias, perguntava-lhes pela vida. O Celestino chamava-lhe menino Chiquinho; na Universidade, a atenção que dispensava aos outros não parecia depender do lugar que ocupavam. Deixou os cargos; a autoridade ficou-lhe.
Em 1956, quando ia formar-se em Farmácia, o pai perguntou-lhe se acabava em Junho ou em Setembro. Era costume da casa: cada filho que se formava recebia um relógio de bolso, com corrente de ouro, comprado em Paris. O filho respondeu que acabava em Julho, que queria começar vida, e pediu outra coisa: “Não quero um relógio de bolso. Se me queres dar um relógio de ouro, dás-me um Breitling, daqueles que têm cronómetros, para as corridas de automóveis.” O pai ouviu, pôs dois dedos na testa, que era o que fazia quando algo o magoava, e ficou como quem leva uma bofetada. O relógio já estava comprado. Soube-o depois, pela mãe.

“Não quero um relógio de bolso. Se me queres dar um relógio de ouro, dás-me um Breitling, daqueles que têm cronómetros, para as corridas de automóveis.” © Bolten | Wikimedia Commons ,CC BY-SA 3.0.
Casou-se em Julho do ano seguinte, e a lua-de-mel não chegou a começar. Tinha combinado trabalhar na Suíça com um Nobel, e o Nobel mandou dizer que passaria por Lisboa no dia seguinte ao casamento. Cancelaram a viagem e foram para Lisboa. O Nobel nunca chegou: um avião aterrou sem trem de aterragem, o aeroporto fechou aos voos de fora e ele foi parar a Madrid. Mas o recém-casado tinha uma experiência a meio, com folhas de oliveira, e o professor que o orientava disse-lhe: “Leva isso para casa.” Foi assim que, casado havia dois dias, instalou no quarto uma coluna de cromatografia com dois metros de altura, vinte tubos em baixo e um despertador que, de duas em duas horas, lhe mandava trocar de tubo. “E foi assim a nossa lua-de-mel!” Só mais tarde soube que um laboratório da Checoslováquia anunciara a mesma descoberta e que o trabalho era para deitar fora. Aprendeu muito, disse-me. Nunca o contara a ninguém, além do professor e da mulher.
Em 1972, o pai veio morrer a casa do filho, no Porto, de um cancro. No último dia em que falou, tinha morrido um amigo seu, e quando voltaram da missa encontraram-no a chorar, coisa que nunca fazia. Na mesinha de cabeceira estava o relógio de ouro do avô, comprado em Paris em 1891 ou 92. O filho disse: “Que lindo relógio!” O pai levantou a cabeça e pediu-lhe que repetisse. Depois: “Ai agora gostas, achas que a corrente e o relógio de bolso são bonitos? Ias ter um igual e respondeste-me, no ano da tua formatura, muito obrigado, mas dê-me um Breitling. Bem feito, mas fico muito contente que aprendas a gostar das coisas boas.”
Morreu a 17 de Julho, às sete e meia da manhã. O filho pediu a um padre amigo, o Januário, que celebrasse missa na capela pequenina, ao lado do quarto, porque era a maneira de dar a notícia à mãe. A irmã foi chamá-la sem lhe dizer nada: “Ó mãe, o padre Januário vai celebrar uma missa, não queres vir?” Penteou-se num instante e veio. A missa começou assim: “Vamos celebrar esta missa por alma do senhor comendador Carvalho Guerra, falecido esta noite.” Foi assim que a mãe soube. Ergueu os olhos, caíram-lhe duas lágrimas, ouviu a missa até ao fim. Depois levantou-se, deu-lhe o braço e disse: “Anda comigo.” No quarto, beijou o marido, abriu a mesinha de cabeceira e tirou o relógio e a corrente. “Prometi a teu pai que quando soubesse da morte dele te dava a prenda que ele queria que ficasse para ti por ter morrido em tua casa.”
Guardava-o, disse-me, com a caixa e com a garantia.
Henrique Manuel Pereira é professor da Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa – Porto










