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"Cuidar das vítimas é fazer do Evangelho uma realidade. Elas sentem-se enredadas numa teia de aranha da qual não podem sair. Não importa se são crianças ou adultos porque, quando o abusador fixa os olhos numa vítima, é muito difícil que a solte". Ilustração © Catarina Soares Barbosa

[O flagelo que não acaba – X]

A teia de aranha

"Cuidar das vítimas é fazer do Evangelho uma realidade. Elas sentem-se enredadas numa teia de aranha da qual não podem sair. Não importa se são crianças ou adultos porque, quando o abusador fixa os olhos numa vítima, é muito difícil que a solte". Ilustração © Catarina Soares Barbosa

“Cuidar das vítimas é fazer do Evangelho uma realidade. Elas sentem-se enredadas numa teia de aranha da qual não podem sair. Não importa se são crianças ou adultos porque, quando o abusador fixa os olhos numa vítima, é muito difícil que a solte”. Ilustração © Catarina Soares Barbosa

 

Ainda há pessoas a quem lhes custa acreditar que a realidade dos abusos seja verdadeira; outras gostariam que estas coisas não se tornassem públicas, porque o que não se sabe não existe e é melhor não saber; e outras negam absolutamente que isso aconteça e veem isto como um ataque à Igreja.

Cuidar das vítimas é fazer do Evangelho uma realidade. Elas sentem-se enredadas numa teia de aranha da qual não podem sair. Não importa se são crianças ou adultos porque, quando o abusador fixa os olhos numa vítima, é muito difícil que a solte. Por isso encontramos, sobretudo entre pessoas adultas, casos em que uma vítima foi como um cordeiro para o matadouro em ritmos de tempo que podem ser mensais e até semanais. Algumas pessoas acreditam que isso é impossível se a vítima não estiver de acordo com o agressor. Mas não, nem vai livremente, nem muito menos com prazer.

O que acontece é que a vítima caiu naquilo que em psiquiatria se chama de colonização emocional, descrita desta forma por Hugo Blaichmar: «A colonização emocional é o processo psicológico intersubjetivo pelo qual alguém passa a pensar, sentir e agir sob a influência de outro, o colonizador, que lhe impõe a sua subjetividade sem que o colonizado tenha disso consciência, vivendo assim o seu estado como se fosse de si próprio e não inoculado pelo outro.»

Ou seja, a vítima acaba pensando e sentindo como o seu colonizador e não pode fazer nada. Os vitimizadores fixam-se em pessoas que são psicologicamente débeis ou que estão a passar por um momento muito delicado em suas vidas. Não são tontos na hora de selecionar as suas vítimas. Nenhum escolhe uma que o possa afrontar.

A colonização emocional não começa de um dia para o outro. A base está numa realidade humana e nós somos seres relacionais. O vitimizador manipula esse ser relacional e apresenta-se – todos são narcisistas, entre outras características – como uma pessoa carismática que exerce uma liderança que transforma as pessoas que estão perto dele num “ego-sistema”, ou seja, essas pessoas seguem-no sem questionar, sem oposição, porque o veem idealizado, e porque psicologicamente ou pela situação por que estão a passar tornam-se extremamente fáceis de submeter e manipular. Colonizada a pessoa, manipulada a pessoa psicologicamente fragilizada, chegam o abuso de consciência, o abuso espiritual e o abuso sexual.

O abuso de consciência acaba por destruir o pouco que restava da pessoa. Viola-se o espaço sagrado do encontro dessa pessoa com Deus, que passa a ser ocupado pelo vitimizador, que se torna no deus dessa pessoa sem que ela tenha consciência disso. Chegados aqui, começam a surgir outros abusos e, se a pessoa tem um vislumbre de lucidez e pergunta algo ou manifesta alguma dúvida, põe-se em marcha o abuso espiritual.

O vitimizador exibe toda a força do mal, todo a sua ânsia de poder pervertido, todo o seu desejo de dominação com um argumento extremamente simples para a vítima: se te opões a isto ou questionas tudo o que estou a fazer por ti, estás a negar-te a tornar realidade a vontade de Deus. São capazes de dizer isto e deste modo o abuso espiritual é consumado. Daí se passa para o topo da pirâmide dos abusos: o sexual.

É muito duro. Aconteceu. Continua a acontecer. Manipulam a vítima até fazê-la acreditar, muitas vezes, que ter relações sexuais é um desejo da própria vítima que ele satisfaz por generosidade e para evitar-lhe sofrimento. Até aí são capazes de chegar e de ir tecendo de forma cada vez mais espessa a teia de aranha, a colonização emocional.

O dano causado às vítimas é imenso. Podem passar anos nessa situação até que o vitimizador as abandone ou até que a vítima tenha força suficiente, não para denunciar, mas simplesmente para contar a alguém o que lhe está a acontecer. Aqui pode começar outro calvário se não acreditarem nela, se a julgarem transtornada ou se a instituição – a Igreja – for considerada mais importante que a pessoa.

A colonização emocional é o primeiro passo que todos devem ser ensinados a detectar. Porque a luta contra qualquer caso de abuso cuja raiz é o abuso de poder começa por dar credibilidade às vítimas, dando formação suficiente para o prevenir e reconhecer, não negando a Igreja esta realidade, abordando-a nas homilias e sendo diligentes nos processos de denúncia.

Questiona-me profundamente como estas pessoas, tão humilhadas e revitimizadas, não abandonam a Igreja. É algo que nos deveria fazer pensar, reconsiderando a nossa atitude para com elas e rezar. Amém.

Cristina Inogés Sanz é teóloga e integra a Assembleia do Sínodo da Igreja Católica, com direito a voto, nomeada pelo Papa Francisco. O 7MARGENS reproduz este texto com autorização da autora e de Alfa Y Omega, onde foi inicialmente publicado, e a cuja directora, Cristina Sánchez Aguilar, agradecemos. 

Tradução de Júlio Martin.

 

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