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À Margem_Eduardo Madureira

Para grandes males do Planeta, grandes remédios do Papa

em 2009, no início da 15.ª Conferência das Partes (COP), em Copenhaga, 56 jornais de 44 países tiveram uma iniciativa conjunta, dando “o passo inédito de falar a uma só voz através de um editorial comum”

“Se não nos juntarmos para tomar uma acção decisiva, as alterações climáticas irão devastar o nosso planeta, e juntamente com ele a nossa prosperidade e a nossa segurança”, escreveram em 2009, no seu editorial comum, 56 jornais de 44 países. Foto: Direitos reservados

 

A gravidade dos desafios que as conferências das Nações Unidas sobre as mudanças climáticas têm sido instadas a enfrentar tem originado gestos simbólicos fortes. O objectivo é idêntico: tornar audível o desafio aos Estados para que tomem as decisões certas para salvar o futuro do planeta e dos que nele habitam e, simultaneamente, contribuir para mobilizar as opiniões públicas para impedir procrastinações.

Um bom exemplo: em 2009, no início da 15.ª Conferência das Partes (COP), em Copenhaga, 56 jornais de 44 países tiveram uma iniciativa conjunta, dando “o passo inédito de falar a uma só voz através de um editorial comum”. Faziam-no “porque a Humanidade enfrenta uma terrível emergência”.

Intitulado “14 dias que vão definir a opinião da História sobre uma geração”, o texto, idealizado pelo diário britânico The Guardian, dizia que, “se não nos juntarmos para tomar uma acção decisiva, as alterações climáticas irão devastar o nosso planeta, e juntamente com ele a nossa prosperidade e a nossa segurança”. É que, acrescentava o editorial, “desde há uma geração que os perigos têm vindo a tornar-se evidentes. Agora, os factos já começaram a falar por si próprios: 11 dos últimos 14 anos foram os mais quentes desde que existem registos, a camada de gelo árctico está a derreter-se, e os elevados preços do petróleo e dos alimentos no ano passado permitiram-nos ter uma antevisão de futuras catástrofes”. Os 56 jornais explicavam aos leitores que, “nas publicações científicas, a questão já não é se a culpa é dos seres humanos, mas sim quão pouco tempo ainda nos sobra para conseguirmos limitar os danos. Mas, mesmo assim, até agora a resposta a nível mundial tem sido frouxa e sem grande convicção”.

O apelo jornalístico de nada serviu e a 15.ª Conferências das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas foi comummente considerada um fracasso.

Cada um assume – ou não – as suas responsabilidades. A uns incumbe fundamentar as razões para a urgência da tomada de decisões certas, a outros compete decidir, a outros ainda insistir em que as decisões não se adiem.

O exemplo mais recente de vigoroso simbolismo, a exortação apostólica Laudate Deum, dirigida “a todas as pessoas de boa vontade sobre a crise climática” (Paulinas, 2023), tem a assinatura do Papa Francisco. Aos participantes da 28.ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, que começa esta quinta-feira, dia 30, no Dubai, Francisco endereça um repto pungente: “Esperemos que os intervenientes possam ser estrategas capazes de pensar mais no bem comum e no futuro dos seus filhos do que nos interesses circunstanciais de alguns países ou empresas. Oxalá mostrem assim a nobreza da política e não a sua vergonha. Aos poderosos, atrevo-me a repetir esta pergunta: ‘Para que se quer preservar hoje um poder que será recordado pela sua incapacidade de intervir quando era urgente e necessário fazê-lo?’”.

Laudate Deum não é, evidentemente, reduzível a um gesto simbólico. Aliás, correspondendo aos anseios expressos na carta encíclica Laudato si’ “sobre o cuidado da casa comum” e na Laudate Deum, o Vaticano promove um programa intitulado “Conversão Ecológica 2030”, tendo anunciado recentemente uma série de iniciativas e estratégias de economia de energia para proteger o meio ambiente, dizendo respeito ao uso responsável de recursos, a projectos de eficiência energética e de reflorestamento e à eliminação de resíduos [1].

Mas a exortação apostólica torna-se particularmente bem-vinda por surgir num momento em que se tornaram mais audíveis e perniciosas as vozes que refutam o aquecimento global ou que ele seja provocado por actividades humanas e mais aguerridos os interesses que rentabilizam este negacionismo climático.

Exortação postólica Laudate Deum. Foto Vatican media

A exortação apostólica Laudate Deum não é, evidentemente, reduzível a um gesto simbólico. Foto © Vatican media

 

A oposição à transição energética não é, hoje, apenas protagonizada por determinados lobbies, notou recentemente Paul Krugman, prémio Nobel da Economia, lamentando os tempos em que o negacionismo climático costumava parecer algo simples: era uma questão de “ganância” [2].

Sendo certo que a “ganância” ainda é um factor importante no anti-ambientalismo, agora, o negacionismo climático também se encontra na linha da frente das guerras culturais. Os mais à direita, diz Paul Krugman, rejeitam a ciência em parte porque não gostam da ciência em geral e opõem-se a qualquer acção contra as emissões de gases com efeitos de estufa por rejeitarem visceralmente qualquer coisa que os mais à esquerda apoiem. “A origem humana – ‘antrópica’ – da mudança climática já não se pode pôr em dúvida”, enfatiza o Papa em Laudate Deum.

O diário italiano Corriere della Sera listava no início desta semana um conjunto de dados conhecidos e alarmantes. Observem-se apenas três: “Já não há dúvidas de que 2023, impulsionado pelo El Niño, será o ano mais quente de sempre”; o dia 4 de Julho, com 17,19 graus, “foi o dia com a temperatura média global mais alta de todos os tempos na Terra desde que existem medições”; “no dia 1 de Agosto, a temperatura do mar entre as latitudes 60° N e 60° S foi a mais alta de sempre, com 20,96 graus” [3].

Na notícia sobre o mês de Julho de 2023 se ter tornado o mais quente desde que há registos no mundo, o jornal francês Le Monde cita cientistas que insistem em que o aumento de temperatura se deve principalmente “às emissões de gases com efeito de estufa ligadas às atividades humanas, em particular à queima de combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás) e à desflorestação” [4].

A notícia apresenta outro indicador que vale a pena citar: “O consumo global de carvão, principal fonte de poluição, deve atingir um ‘recorde histórico’ em 2023, segundo a Agência Internacional de Energia”.

A exortação apostólica Laudate Deum a todas as pessoas de boa vontade sobre a crise climática não adopta a langue de bois tão ao gosto dos que entendem que se deve dizer alguma coisa sem dizer propriamente nada. A contundência de Francisco é evidente, por exemplo, no modo como denuncia certas derivas políticas comuns: “A decadência ética do poder real é disfarçada pelo marketing e pela informação falsa, mecanismos úteis nas mãos de quem tem maiores recursos para influenciar a opinião pública através deles”. Escreve o Papa que, “com a ajuda destes mecanismos, quando se pretende iniciar um empreendimento com forte impacto ambiental e elevados efeitos poluidores, iludem-se os habitantes da região falando do progresso local que se poderá gerar ou das oportunidades económicas, laborais e de promoção humana que isto significará para os seus filhos”. O que sucede de facto é que, porém, “falta um verdadeiro interesse pelo futuro destas pessoas, porque não lhes é dito com clareza que, na sequência desse empreendimento, terão uma terra devastada, condições muito mais desfavoráveis para viver e prosperar, uma região desolada, menos habitável, sem vida e sem a alegria da convivência e da esperança, para além do dano global que acaba por prejudicar a muitos mais”.

Francisco insiste na crítica, que já se encontrava na Laudato si’, ao “paradigma tecnocrático”, por ser nele que se encontram “os fundamentos ‘do processo actual de degradação ambiental’”. O “paradigma tecnocrático” consiste em considerar que a realidade, o bem e a verdade desabrocham espontaneamente do próprio poder da tecnologia e da economia. “Daqui passa-se facilmente à ideia dum crescimento infinito ou ilimitado, que tanto entusiasmou os economistas, os financeiros e os tecnólogos”.

Endereçada “a todas as pessoas de boa vontade”, a exortação apostólica sobre a crise climática não ignora as almas menos benévolas, deplorando “certas opiniões ridicularizadoras e pouco racionais” que encontra “mesmo dentro da Igreja Católica”. É preciso acabar “com a atitude irresponsável que apresenta este tema como apenas ambiental, ‘verde’, romântico, muitas vezes ridicularizado pelos interesses económicos”.

Aos participantes na 28.ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, Francisco reclama algo muito concreto: “Fórmulas vinculantes de transição energética que tenham três caraterísticas: que sejam eficientes, que sejam obrigatórias e que se possam monitorizar facilmente, a fim de se iniciar um novo processo que seja drástico, que seja intenso e que conte com o compromisso de todos”.

Além das “indispensáveis decisões políticas”, o Papa propõe “uma mudança generalizada do estilo de vida irresponsável ligado ao modelo ocidental”, o que teria um impacto significativo a longo prazo. É preciso “mudar os hábitos pessoais, familiares e comunitários”. É necessário escapar a uma vida totalmente capturada pelo imaginário consumista.

 

Notas:
[1] “Vaticano, lançado programa de mobilidade sustentável ‘Conversão Ecológica 2030’”. Vatican News, 16 de Novembro de 2023
[2] Paul Krugman – “Climate Is Now a Culture War Issue”. The New York Times, 7 de Agosto de 2023
[3] Paolo Virtuani – “Cop 28 a Dubai, la Terra brucia nel solito scontro ricchi-poveri (con una sola buona notizia)”. Corriere della Sera, 27 de Novembro de 2023.
[4] Audrey Garric – “Le mois de juillet 2023 en passe de devenir le plus chaud jamais enregistré dans le monde”. Le Monde, 27 de Julho de 2023.

 

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