
Cartaz Exposição “Tesouro dos Reis”, Fundação Calouste Gulbenkian
A exposição O Tesouro dos Reis, patente na Fundação Calouste Gulbenkian (até 26 de fevereiro) mostra um conjunto de obras-primas que os reis católicos da Europa ofereceram a várias igrejas da Terra Santa. Estes objetos de elevado valor artístico, pertencentes ao Terra Santa Museum, são pela primeira vez mostrados em Portugal. Temos assim oportunidade para pensar a capacidade técnica e os padrões estéticos da nossa arte, com tudo o que isso implica. Mas também levantar as reflexões antropológicas decorrentes, incluindo sobre um certo tipo de religiosidade.
Impõe-se perguntar qual a lógica que leva, por exemplo, um rei português a investir uma elevada quantia de recursos numa obra que vai adornar um templo em Jerusalém. Sabemos que esse gesto se insere num complexo jogo de auto-afirmação, quer do rei, quer do país que representa, no contexto internacional do seu tempo. Uma oferta desta natureza é uma jogada diplomática que só pode ser bem entendida pelo conhecimento das relações internacionais em que se insere. Mas, por outro lado, não podemos deixar de inserir esse gesto também na imagem de um povo entregue à sua pobreza, à fome, à continuada necessidade de abandonar a sua terra para procurar longe o sustento que aqui lhe era negado.
“Deus, se existe, deve ficar indignado pelo que fazem em nome d’Ele”, dizia alguém à saída desta exposição. É um grito de uma consciência de hoje, é claro. Mas que denuncia a inconsciência de então: uma forma de religião que olha com devoção para a riqueza do templo, mesmo de templos longínquos, e não se dá conta da fome que habita por todo o país ofertante.
A democracia, que entretanto se desenvolveu em Portugal, faz contraste com este esplendor ofensivo.

Foto Maria Lamas, Exposição Fundação Calouste Gulbenkian
Por ordem do acaso, sem dúvida, a Gulbenkian tem também patente uma outra exposição, As Mulheres do Meu País (até 28 de maio), com fotografias de Maria Lamas sobre as mulheres do seu – e ainda nosso – tempo. Muitos de nós vimos essas mulheres, algumas delas ainda continuam, em boa medida, nas aldeias do nosso interior. Foi ontem. E, de novo, a religião católica conviveu com este abismo e abençoou-o. Não podemos esquecer esta persistência num tempo em que as democracias procuravam já reduzir o abismo entre os ricos e os pobres, ou mesmo criar formas de proteção social, e em que a Doutrina Social da Igreja impunha já, embora sem grandes consequências, um outro cuidado social com as pessoas concretas, sobretudo com os mais desprotegidos. E já desde 1948 a Declaração Universal dos Direitos Humanos exigia uma outra atenção a cada um dos homens e mulheres, logo aos mais carenciados, e às estruturas de reprodução social da pobreza.
A arte nunca é um fenómeno social isolado das demais dimensões da vida social. Tal como a religião também não o é. Por isso, estas duas exposições, uma de pendor mais artístico e outra mais social, são-nos, pela sua proximidade física, um desafio a pensarmos para lá delas, mas para dentro da nossa compreensão da forma social da religiosidade que imperou e a que está em vias de se desenvolver hoje. Podemos dizer que a persistência da pobreza extrema como fenómeno social e os casos concretos dos homens e mulheres caídos no poço da miséria são critérios de análise também de como as várias formas religiosas se afirmam hoje no mundo, tanto global como local.
José Alves Jana é doutorado em filosofia, professor aposentado, voluntário e dirigente associativo. Contacto: jalvesjana@gmail.com









