
Mosaico exterior da catedral patriarcal romena, em Bucareste, Roménia. O Patriarcado Romeno assumiu a jurisdição direta sobre as comunidades romenas na Ucrânia. Foto © Pudelek (Marcin Szala)/Wikimedia Commons
O Sínodo do Patriarcado Ortodoxo da Roménia, que se reuniu na última quinta-feira, 29 de fevereiro, decidiu criar uma estrutura religiosa chamada Igreja Ortodoxa Romena na Ucrânia, para enquadrar as comunidades ortodoxas deste país, que se estendem por mais de uma centena de paróquias, situadas sobretudo na zona de Vukovina, na região sudoeste ucraniana.
Num ambiente político-religioso já muito crispado, sobretudo depois da invasão russa, esta medida está a provocar controvérsia e mais um foco de conflito, até porque foi tomada unilateralmente, sem terem sido consultadas as duas principais Igrejas ortodoxas da Ucrânia, a historicamente ligada ao patriarcado de Moscovo e a autocéfala, mais recente, reconhecida pelo Patriarcado de Constantinopla. Ao que tudo indica, nem as próprias autoridades ucranianas, que estão para aprovar uma lei polémica sobre liberdade religiosa, foram ouvidas no processo.
Com o objetivo de “abençoar, encorajar e apoiar as iniciativas das comunidades ortodoxas romenas na Ucrânia”, em ordem a “restabelecer a comunhão com a Igreja Mãe”, o Patriarcado Romeno define a sua organização legal traduzida numa “estrutura religiosa chamada Igreja Ortodoxa Romena na Ucrânia”, afirma o ponto 11 do comunicado final do Sínodo da última semana.
“Trata-se de uma notícia importante”, opina, a este propósito o reconhecido analista norte-americano do mundo ortodoxo, Peter Anderson. Num comentário datado da última sexta-feira, 1 de março, ele explica porquê:
“Estas comunidades romenas estão atualmente sob a jurisdição da UOC [Igreja Ortodoxa da Ucrânia, ligada ao Patriarcado de Moscovo]. Agora, o Patriarcado Romeno assume a jurisdição direta sobre estas comunidades romenas na Ucrânia. Os meios de comunicação social romenos referiram-se a este acontecimento como uma ‘decisão histórica’. Talvez a razão para esta ação seja a de retirar estas comunidades romenas do efeito adverso das ações que estão a ser tomadas contra a UOC, como é o caso do projeto de lei 8371” [lei que se encontra no parlamento ucraniano a aguardar votação final e que poderá restringir significativamente os direitos e mesmo a existência da própria UOC].
A fonte mediática romena citada por Anderson refere um dado de contextualização histórica que pode ser significativo: “os romenos étnicos na Ucrânia poderão regressar à Igreja Ortodoxa Romena, da qual foram privados em 1944 pela URSS e, mais tarde, pelo Estado ucraniano, depois de 1991”.
As igrejas ortodoxas que se encontram no terreno, e particularmente a UOC, não esperaram muito para reagir àquilo que tomam como interferência e mesmo provocação. O site Orthodox Christianity cita a agência russa RIA-Novosti que se refere à decisão do Sínodo Romeno como “expansionismo” e “incrivelmente ignóbil à luz da perseguição desencadeada pelas autoridades de Kyiv contra a Igreja Ortodoxa Ucraniana”.
Ao oferecer a sua jurisdição a essas comunidades, a Igreja romena atesta “o perigo óbvio” que elas enfrentam de poderem vir a “ser proibidas na Ucrânia”, comenta, por sua vez, o metropolita Kliment de Nizhyn, chefe do Departamento de Informação-Educação da UOC, em declarações ao site da União dos Jornalistas Ortodoxos. “Trata-se de um sinal claro para o Parlamento ucraniano sobre a forma como a política ucraniana é vista na Europa e sobre as consequências que daí advirão”, acrescenta o mesmo responsável.
Por sua vez, um “bispo” da Igreja Ortodoxa da Ucrânia autocéfala, Viktor Bed, também afirmou que a decisão do Sínodo romeno prova que este está sob o domínio político do Patriarcado de Moscovo e do Serviço Federal de Segurança (FSB) da Rússia.
Na cobertura que faz destes acontecimentos, o site Orthodox Christianity publica informações consistentes que revelam que o problema do enquadramento institucional das minorias ortodoxas romenas é antigo e que, desde o cisma entre as igrejas ortodoxas na Ucrânia, no final da última década e, particularmente com o eclodir da guerra, o Patriarcado da Roménia tem vindo a assumir publicamente uma crescente preocupação com o assunto.
O site acaba, no entanto, por concluir que, perante a “iminência de julgamentos e possíveis perseguições”, que se desenham atualmente, “qualquer pessoa familiarizada com a situação real da Igreja nas regiões de língua romena da Ucrânia concordará que precisamente este fator, nesta fase, deixa esta iniciativa com muito poucas perspetivas reais”.







