
Villa 31, em Buenos Aires. O Estado argentino tem financiado as intervenções em favelas como esta por intermédio da transferência de verbas para cooperativas constituídas por residentes. Foto © Sebastian Bassi
Dezenas de padres “villeros” [de favelas] da Argentina denunciaram um recente decreto do Presidente do país, Javier Milei, que estabelece um corte de 6% nos fundos governamentais destinados à execução de obras públicas em bairros de lata. A medida, acusam, é uma forma de exclusão dos mais desfavorecidos da sociedade.
O Estado argentino tem financiado, tradicionalmente, estas intervenções nas favelas por intermédio da transferência de verbas para cooperativas constituídas por residentes desses bairros e a quem eram contratados, depois, serviços vários de manutenção ou saneamento, entre outros. Estas entidades revelaram-se assumidamente contra o atual Presidente do país, na campanha eleitoral de outubro-novembro últimos, tendo começado a ser investigadas por alegadas irregularidades.
Reagindo à decisão presidencial, os curas villeros [nome dado aos padres que vivem e trabalham nas villas, os bairros mais pobres da Argentina] elaboraram um documento a criticar a referida medida, argumentando que “uma das principais funções do Estado é cuidar dos mais desfavorecidos”. Para além disso, relembram a ideia de integração e não exclusão das favelas na sociedade, reiterando que já foram dados passos muito relevantes no caminho do desenvolvimento social dessas comunidades. Apelam, portanto, a que não se volte atrás no percurso já percorrido.
“Os fundos que foram cortados eram “fundamentais para a integração de favelas e assentamentos no ambiente urbano”, salienta o padre Lorenzo de Vedia ao Crux, acrescentando que “esse dinheiro era usado para melhorar vários aspetos da vida dos moradores desses bairros”. Já o padre Pablo Viola, vigário de um bairro pobre em Córdoba (Norte do país, cerca de 800 quilómetros a Noroeste de Buenos Aires] afirma que “esses fundos geraram trabalho para os moradores das favelas e ajudaram essas pessoas a progredir”. Viola lamenta ainda a sucessiva redução de apoios que o governo de Milei tem dado a organizações de assistência aos indivíduos mais pobres ou excluídos do país [ver 7MARGENS].
No final da semana passada, quando foi divulgada a carta subscrita por dezenas de padres, o departamento estatal incumbido do processamento dos referidos fundos de apoio às favelas, aceitou reunir-se com os líderes religiosos que a escreveram.





